quarta-feira, 7 de março de 2012

A madrugada em que o caos se materializou em um pub de Caxambu


Os acontecimentos relatados abaixo se deram no encontro da ANPOCS de 2009, em Caxambu. Uma vez que o evento deixará de ocorrer por lá a partir desse ano estas linhas ficam como homenagem à gloriosa cidade.


Me and the Devil
was walkin' side by side
Me and the Devil, ooh
was walkin' side by side

(Robert Johnson)


Chovia torrencialmente e fazia frio, e por isso mesmo cruzar a rua para pegar o ônibus foi um desafio bem mais difícil do que imaginávamos. Superadas as poças de lama, rumamos ao centro de conferências da cidade – éramos uns cinco ou seis –, onde teria lugar a abertura do congresso da Anpocs, a cerimônia de lançamento de livros e, sobretudo, onde imaginávamos encontrar algum conforto nas primeiras taças de vinho barato. Dificilmente se espera alguma coisa de uma segunda-feira, principalmente quando as condições meteorológicas e a FLEUMA dos garçons pareciam concorrer acirradamente para deixar nossa noite tão animada quanto uma puta de cinquenta anos tendo que iniciar um guri impúbere na arte da VOLÚPIA, mas os poderes inebriantes dos primeiros tragos e o burburinho de que no centro da cidade haveria alguma agitação foram suficientes para nos convencer a pegar novamente um ônibus e partir em direção ao Hotel Gloria – nome que certamente não prenunciava os acontecimentos que se sucederiam mais tarde.

O Hotel Gloria, em tese, deveria nos servir de termômetro: sendo Caxambu uma cidade pequena dificilmente haveria mais opções, e se ali estivesse vazio isso provavelmente significaria que a noite estava mesmo destinada à ruína. Além do mais, era lá que montavam uma infame DISCOTECA, cuja função primordial parecia ser lançar respeitáveis e desavisados professores universitários ao OPRÓBRIO. Adentramos os portões do hotel centenário e com a classe que nos é peculiar sentamos em volta da piscina para tomar nossos bons drinks (aka “latão de Skol e churrasquinho”) e deliberar os rumos da madrugada. O que víamos não era muito animador, a chuva não arrefecia e de fato parecia ter deixado todo mundo em casa. Pouca gente se aventurava por aquelas bandas, mas encontramos mais colegas da faculdade, o que naquele momento apenas servia para aumentar quantitativamente a desolação. Algumas latas de cerveja depois e começamos a nos perguntar se aquele grande encontro de ifcsianos não era fortuito, mas sim o sinal de que, contrariando alguns estereótipos regionais, nós simplesmente não conseguíamos seguir o murmurinho dos inferninhos fragorosos, onde LÚBRICAS antropólogas emulavam ancestrais ritos pagãos de tribos amazônicas, que provavelmente envolviam o sacrifício de virgens e altas doses de alucinógenos. O proverbial pavor dos cariocas diante da chuva e do frio, no entanto, fazia com que tomar litros de Skol parecesse em algum nível mais apelativo do que compartilhar cerimoniais xamanísticos.

Dado o marasmo generalizado, dois de nós nos investimos da função de batedores e fomos, mesmo sob chuva, fiscalizar o perímetro. As ruas vazias não tinham sua contrapartida em bares lotados, e após vistoriarmos um deles iluminado com um neon tão deprimente quanto perder uma final de campeonato carioca por causa de um HAT-TRICK do JEAN chegamos à conclusão de que apenas o sempre glorioso BC (Baixo Caxambu) poderia oferecer algum alento (e, com sorte, alguma cachaça artesanal a preços módicos). O pólo gastronômico do Baixo Caxambu, situado na Rive Gauche da cidade, é o verdadeiro centro nevrálgico da bohème local, e com sua plêiade de bares (dois) oferecia as melhores possibilidades dado o avançar da hora. Voltamos até a piscina do hotel e populisticamente mobilizamos a massa acenando com a possibilidade de alguma diversão.

Confortáveis no ambiente universitário padrão – em volta de uma mesa de bar –, a noite parecia correr tranquila, sem que o signo do caos sequer ousasse rondar nossas mentes embriagadas. No entanto, pedir uma porção de batata-frita com queijo e bacon (não, não é uma história de disenteria) parecia ser a senha para que algum portal diabólico se abrisse e criaturas MEFISTOTÉLICAS começassem a rolar de lá, ao som de batuques sinistros, inebriadas pelo cheiro de fritura. Quando íamos começar a deflagrar a tigela de batatas e diminuir significativamente nossa expectativa de vida eis que uma mão rechonchuda saída diretamente das profundezas se antecipa e, com a voracidade de Saturno devorando seus filhos, arranca quase toda a nossa refeição, erguendo-a sobre a sua cabeça como se fosse um troféu maligno antes de degluti-la.

Assustados e sem nem desconfiarmos da hipótese da POSSESSÃO, começamos a confabular sobre quem seria aquele ser glutão em forma de mulher volumosa que rondava nossa mesa quilométrica. Afastada a tola possibilidade de tratar-se apenas de uma boa alma empenhada em proteger a nossa coronária, conjecturamos que poderíamos estar observando uma performance executada por alguma socióloga modernosa, e que tudo estava mesmo previsto no programa do evento. Nos demos conta de que lidávamos com forças que não podíamos controlar ou compreender, no entanto, quando logo após o devoramento das batatas aquelas mãos muito bem nutridas e engorduradas começaram a nos ungir, esfregando nossos cabelos, num misto de batismo apocalíptico e penteado com gel de banha. Balbuciamos algumas palavras, todas evidentemente em vão frente a magnitude daquele acontecimento. Não poderíamos cobrar sanidade e muito menos coerência lógica daquela alma gelatinosa que insistia em nos rondar e nos acariciar na tentativa de conseguir não apenas mais fritura, mas sobretudo nos carregar para o PURGATÓRIO.

Enquanto o ser indescritível se afastava por alguns momentos, observamos que na mesa ao lado outra figura particular se aproximava de maneira malemolente (o corretor do Word me corrige para “malevolente”, de maneira surpreendentemente coerente, nesse caso). Com velocidade espantosa, essa nova silhueta sombria finalizava todos os copos que haviam sido deixados por beberrões inábeis. Julgamentos precipitados poderiam, talvez, pensar tratar-se de um mendigo, mas a noite revelaria que esse era um raciocínio enganoso. Após secar qualquer vestígio de álcool, a personificação de Lúcifer ACOCORA-SE perto de nós, procurando malandramente tomar nossos copos, o que foi evidentemente repelido com fúria. Com a ira de quem via seu alimento vital ser negado, começou a gesticular e nos ofender. Não eram, no entanto, ofensas normais aquelas. Em realidade nada compreendíamos, pois o que ouvíamos era um dialeto falado apenas no oitavo círculo do inferno. Uivos ao fundo indicavam que era hora de ir embora.

No caminho para casa tínhamos que necessariamente passar pelo Hotel Glória, mas provavelmente fomos parar em alguma encruzilhada, pois encontramos ali a terceira e mais perigosa representação do CRAMULHÃO: antropóloga da UNB. Após alguns minutos de conversa que giraram basicamente em torno de uma festa realizada toda a semana no Centro Acadêmico da UNB em que as pessoas ficavam NUAS, fomos conduzidos às profundezas da noite e nos encaminhamos, sob sugestão ardilosa dos estudantes brasilienses, para um pequeno PUB de Caxambu que atende pelo nome de The Jaws. O dono do lugar já fechava as portas quando viu se aproximarem, em uma segunda-feira, por volta de 15 ou 20 estudantes de ciências sociais ávidos para gastar suas opulentas bolsas de estudo em cerveja quente e desvarios, resolvendo prontamente reabrir a espelunca. Alguém pegou um violão disponível e começou a recitar clássicos absolutos do cancioneiro popular, como É o Tchan e afins, de modo que a empolgação gradativamente começou a tomar conta da turba grosseira e fútil.

Como que hipnotizados pelo fascínio desempenhado pelas letras de Cumpadi Washington, não percebemos que nesse exato instante avançava sobre o bar o CÃO ANUNCIADOR, um pequeno cachorro negro de olhos vermelhos que rondava o salão tal qual... bem, tal qual um cachorro epilético. Sem conseguir ignorar os latidos nos demos conta que de que a rua era a causa da inquietação e, ingênuos, abrimos a porta do bar. Sentimos instantaneamente o cheiro de enxofrebatata-frita tomando o ambiente. Assustados, recuamos, o que possibilitou que vagarosamente, como o seu peso afinal permitia, a (re)aparição tomasse o centro do bar e de maneira inclemente iniciasse uma das mais bizarras apresentações da Dança Macabra que se tem notícia, rebolando NA BOQUINHA DA GARRAFA até o chão. Mas o cão anunciador insistia em nos revelar os desígnios daquela noite e novamente The Jaws tinha sua porta violada. Era a vez do LUMPEMPROLETARIADO de Satã entrar e, sem cerimônias, fazer parte do baile, dançando e cantando em seu dialeto espúrio, acompanhado, literalmente, pelo CÃO e pelo olhar assombrado de mais de uma dezena de estudantes de ciências sociais, cuja imaginação pueril não permitia conceber aquela sucessão de eventos.

A madrugada se repetia não como farsa, mas como caos.

Aos poucos deixamos o pub e nos dirigimos à nossa digníssima casa sem nunca mais trocarmos qualquer palavra sobre o que presenciamos naquela noite. (Mentira, basta me perguntar as horas no meio da rua que eu já saio contando essa história).

3 comentários:

Marina disse...

E eu que inocentemente achava que voce iam a ANPOCS sob a egide da sabedoria, buscando o saber, o convivio academico, pontos no CNPq! Nada disso, tavam eh bebendo cachaca barata e inventando historia de demonio... Mereco!

pedro cazes disse...

Inspirado! também né, teve dois anos pra burilar esse texto... dos requintes das garrafais destaco "lumpemproletariado de satã", "opróbrio" e "lúbricas"... De tanto ouvir essa história me considero um presente.

Anônimo disse...

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