sábado, 25 de julho de 2009

Em busca do Santo Graal (II)

Bruxelas, 07 de janeiro de 2009 (continuação daqui)

Escolho um simpático bar nas imediações da Praça e começo os trabalhos. Sem querer parecer arrogante, nem cito a Westvleteren de primeira, atacando uma trapista garantida, a famosa Westmalle triple. Consumada, hesito para a próxima. Mas lá vai: “vocês teriam a Westvleteren?”. Risos de escárnio tomam o modesto salão. Teria eu errado o francês de uma pergunta tão elementar?, penso, aturdido. Claro que não. É o Santo Graal cobrando seu preço: a incompreensão. Finalizada a alegria ingênua que proporcionei àqueles bruxelenses, o simpático garçom vem me dizer que não há Westvleteren e que provavelmente será impossível consegui-la, pois sua comercialização é proibida. “Em nenhum lugar de Bruxelas?”. Apenas obtenho um balançar de ombros como resposta. Continuo no mesmo bar consumindo algumas das cervejas da minha lista e observando os clientes solitários, cada um acompanhado de seu livro, de suas músicas e de suas memórias que se afogam em litros de embriaguez.

Mas é hora de partir, pois a noite só havia começado. Antes, no entanto, peço uma saideira como recomendação. É a minha primeira cerveja de fora do roteiro estabelecido: Faro é o nome dela. Não é necessário um paladar aguçado para sentir todo o seu sabor: sabor de refrigerante sem gás. Só depois percebo que essa “cerveja” patrocinava o bar e que eu acabara de ser enganado por um belgazinho sem vergonha. Saio correndo a caminho da Disneylândia das cervejas, onde poderia me regenerar.


Depois de dar um pulo em um bar bastante charmoso apenas para tirar o gosto ruim da boca (e, claro, perguntar da Westvleteren), chego numa pequena ruela de nome sugestivo: Impasse de la Fidélité. Lá se encontra o famoso Delirium Café, a maior cervejaria do mundo, com uma carta, diz a lenda, de mais de duas mil cervejas. No primeiro andar peço diretamente o mais clássico dos chopps: o espetacular Delirium Tremens. E, antes de pedir o segundo, só tenho tempo de observar rapidamente o público do local e a arquitetura dessa cave do século XVIII. Hora de descer ao subsolo para ter acesso às garrafas. Tomo a Bíblia nas mãos – o cardápio é de fato monstruoso – e faço uma oração. Peço a São Arnold de Metz, o patrono das cervejas, que na letra W eu encontre o Santo Graal. Mas não. Ainda tenho uma saída: “será que eles não escondem a Westvleteren do cardápio mas se eu chegar no balcão não tenho possibilidades de conseguir uma?”. Mais uma vez a maldição me arruína. Ridicularizado em público na maior cervejaria do mundo com meu pedido funesto, retiro-me para outro lado do longo balcão.

Desolado, só resta pedir a única coisa que poderia me oferecer algum alento: Trappistes Rochefort 10, a mítica, a única capaz de fazer frente ao Santo Graal. Recupero agora as minhas anotações particulares que fazia sobre as cervejas na hora em que as bebia: “isso é cerveja?”, tenho anotado, incrédulo. Não, não se trata de cerveja, trata-se de alimento espiritual. Fecho as três variedades de Rochefort (6, 8 e 10). Experimento ainda a grande surpresa da noite, a adorável Kwak, que nunca havia ouvido falar e que é servida em um copo bastante inusitado. Completo a jornada com uma Gouden Carolus Easter, uma Abbaye des Rocs Brune e uma Struise Pannepot. Nesse momento recebo um convite irrecusável de uma das mesas e deixo o balcão. Deixo também a narrativa de lado.

Dia seguinte, Brugge e o recomeço da saga.

(continua...)

3 comentários:

Francisco disse...

Rapaz, nesse momento, levando em conta q sua "degustação" não consistia de gole-bochecho-cuspe, vc já tava na diagonal, não? Na diagonal e razoavelmente mais pobre que um dia antes!

Depois dedique algumas linhas, mais perniciosas, ao que aconteceu em consequência do convite irrecusável!

Andre disse...

Mas a noite começa cedo no inverno belga! Eu passei umas 8h bebendo isso. Nem foi tanta coisa assim, vai!

Sobre pobreza, as cervejas lá são assustadoramente baratas. No fundo, eu estava lucrando, pq me poupa de bebê-las aqui por 10x o valor de lá (sem exagero). Pelo menos eu gosto de pensar assim.

M disse...

Esquivou-se da pergunta sobre o convite irrecusável! O teor alcoólico da tradicional bebida belga deve facilitar as relações de paquera seguidas de atração fulminante por lá, não? Conta!!!