quarta-feira, 22 de julho de 2009

Em busca do Santo Graal (I)

Batata frita, chocolate, cerveja. Um país capaz de fazer essas três fantásticas especialidades da melhor maneira possível já pode ser alçado a pilar fundamental da civilização. Assim é a Bélgica, pequena nação incrustada entre Holanda, França e Alemanha, mas que vem carregando o mundo ocidental nas costas há séculos. Carrega de forma trôpega, é claro, afinal a cerveja faz efeito, mas poucos são os que podem se comparar ao sublime que alcançou a arte do bem viver nessa região. Os fragmentos que seguem (esse preâmbulo e mais dois posts) foram escritos em janeiro deste ano (e minimamente retocados agora), enquanto viajava sozinho pela Bélgica.

Todos dizem respeito a uma só coisa: cerveja. Além de poder ver a maior quantidade possível de pintores flamengos e de catedrais medievais, meu objetivo era basicamente um: encontrar o Santo Graal das cervejas, que atende pelo nome de Westvleteren. Para quem conhece, o nome faz tremer (e enrolar a língua também: tente pronunciar). Uma grande dificuldade, porém, se impunha. Das sete trapistas, é a única que não é comercializada fora do mosteiro em que é fabricada. O mosteiro, no entanto, estava fechado naqueles invernais primeiros dias de janeiro. De posse dessa informação, corri a internet atrás do submundo das cervejas belgas e compilei uma série de bares que poderiam (ou não) disponibilizar de forma, digamos, ilegal, o elixir. Eis um pouco dessa saga.

***

Bruxelas, 07 de janeiro de 2009

Chego ao albergue e encaro um armário de vidro com algumas garrafas. Corro os olhos e, sim, ali estão as seis trapistas belgas, expostas como troféus. Uma evidentemente chama a atenção por não ter rótulo. Quase antes de dar bom dia e me apresentar para o recepcionista aponto para a garrafa que me interessa, sem me atrever a pronunciar qualquer palavra. Não, não se tratava de temor por dizer o nome do Santo Graal, mas sim porque, diabos!, como é difícil pronunciar o nome dessa cerveja! Mas bastou o gesto para que o recepcionista entendesse: West-vleteren, pronuncia, com o típico francês grosseirão dos belgas. Era a primeira vez que ouvia aquele som majestoso. Provavelmente o rapaz está acostumado com as dezenas de desbravadores que tomam o país em uma fanática busca pela mãe de todas as bebidas.

Seria tão fácil assim arrumar a Westvleteren? Todas as histórias que li na internet seriam apenas lendas, mitos escritos por Homeros alcoólatras contemporâneos? Não, não podia ser. Pergunto para o atendente sobre as possibilidades consegui-la. A resposta é aterradora: ele saca um cartãozinho e faz uma ligação. Olha para mim e responde: infelizmente o mosteiro está fechado. Ora, mas isso eu já sabia. O importante era descobrir aonde poderia consumi-la em Bruxelas. Sua cabeça balança em negação: “num rola, rapá, dançou”, diria ele se soubesse gírias brasileiras. Arrasado, subo para o quarto, deixo minhas coisas e saio em busca do impossível.

Estou completamente sozinho. No quarto havia apenas um japonês, que passa os dias jogando videogame no celular. Tenho dois livros em mãos (Doze contos peregrinos, do G.G. Marquez e um pequeno livro, também de contos, de um amigo) e um caderninho de notas onde escrevo essas linhas. Escurece e começo a explorar a vida noturna da cidade. Rondo a suntuosa Grand Place, e é bom que a observe bem, afinal diminuo minha expectativa de vida em alguns anos com uma quantidade monstruosa de batata frita e ketchup que havia acabado de comprar e não sei se poderei vê-la novamente.

(continua...)

3 comentários:

Cla disse...

cadê a continuação? cadê cadê cadê?

Francisco disse...

aguardo ansioso cenas dos próximos capítulos!

Rafael Abreu disse...

Inveja! Ô dinheiro bem gasto!

Tem outra tradição belga fantástica: moules et frites! A batata frita é apenas a parte fraca dessa combinação.

Abração