segunda-feira, 20 de julho de 2009

Da noite em que Nicolau Rostov arruína-se

Muitas vezes, em acessos de ansiedade muito fortes, não há como fugir da necessidade de escrever. Bem, há o Valium, mas só tomo homeopatia e até onde sei não fizeram esse remédio em forma de bolinhas açucaradas. Portanto, só resta escrever. Escrevi alguns textos nesses últimos dias e vou publicar um aqui.

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Sei que é um clichê, mas Guerra e Paz é marcado do início ao fim por momentos antológicos. É daquelas obras que podem te prender pelo resto da vida, que valem a leitura de 30 outros livros menores. Tolstoi, “o homem que sabe tudo e conhece tudo” (Carpeaux), parece ter tido acesso a todos os sentimentos humanos possíveis. Cada frase te puxa e sacode inapelavelmente – bons livros costumam ser aqueles que não permitem avançar em uma linha reta e que a todo instante sugerem a questão: “tem certeza que deseja atravessar esse ponto?”. Tolstoi é assim, e linha após linha obriga o leitor a encarar o precipício e, caso se sinta capaz, lançar-se no caminho sem volta do desconhecido. Nesse sentido, ele é o justo oposto de seu compatriota Dostoievski, que impiedosamente acaricia suas costas e o impele para o abismo.

Aqui não gostaria de falar sobre o livro, coisa que seria leviandade fazer, mas apenas recuperar um momento, uma pequena passagem da primeira parte do Tomo II. Trata-se da narração da noite em que Nicolau Rostov, em vias de voltar para a guerra, aceita participar de um jogo de cartas proposto por colegas após uma agradável ida ao teatro com seus pais e irmãos. Os capítulos anteriores descrevem a felicidade e o ambiente de harmonia resultantes da rara presença de Nicolau na casa de sua família. O jovem está exultante com sua situação, mesmo sabendo da grave condição financeira que aflige os Rostov. Mas eis que, convidado para uma noite qualquer de apostas, perde somas consideráveis, acumulando uma dívida quem não tem nenhuma condição de pagar. Nicolau não tinha por hábito jogar (“só os idiotas arriscam no jogo”, dizia ele), mas uma combinação de medo e despeito faz com que caia nas provocações do grupo. Instado a parar, não consegue – não pode. Curiosa ironia, salvou-se na guerra por sorte, essa miserável deusa que agora o abandonava sem escrúpulos. “Seu rosto despertava medo e piedade”, descreve Tolstoi, sugerindo, acredito, que Nicolau encontrava-se naquela situação em que a alma parece se desprender do corpo, onde nada faz mais sentido e a única reação perceptível é o suor gélido escorrendo pela face. Está arruinado e não há mais nada a fazer, salvo torcer para que aqueles breves momentos tenham sido apenas um pesadelo assombrosamente verossímil.

Mas a realidade é implacável, e mais difícil do que aquelas horas de agonia seria a volta para o lar. Ao chegar, arrasado e incrédulo, seus parentes encontravam-se ainda acordados e Nicolau é “envolvido pela atmosfera amorosa e poética que reinava na casa”. Impossível não se arrepiar. Lembremos que se passaram apenas três, talvez quatro horas, desde a saída do teatro. Horas que nada significaram para os Rostov, em que tudo continuava no mais perfeito equilíbrio. Mas Nicolau, o filho e irmão querido, aquele que de certa forma, ao voltar da guerra de licença, instaurara a alegria novamente na casa, estava arruinado, completamente abatido e desnorteado. Apenas quatro horas. Uma contingência. Breves instantes de desequilíbrio. A aceitação irrefletida para fazer algo que sempre se negara. A descida vertiginosa ao inferno pode durar apenas alguns minutos. Solitários e inconcebíveis minutos que comportam dentro de si a eternidade inteira.

“Nada mudou para eles”, pensa Nicolau, olhando para suas belas irmãs tocando cravo. Aí está toda a grandeza de Tolstoi. Em poucos parágrafos, apenas descrevendo as situações, sem aquelas profundas perscrutações mentais tão habilmente realizadas por Dostoievski, o escritor nos passa à flor da pele a gigantesca queda de um mundo inteiro. No contraste de expectativas, que nos é apresentado quase que apenas por gestos, curtas frases ou comportamentos, Tolstoi transmite a exata medida do que sentem aqueles personagens e do quão distantes se encontram. Não se limita a elencar os sentimentos, mas os insinua através do próprio encadeamento das frases. Cabe ao leitor, como num passe de mágica, pois não exige esforço algum, desvelar o segredo que se esconde por trás das palavras. Se literatura é colocar a vida inteira dentro de uma capa e de uma contracapa, como sugere um escritor contemporâneo, Tolstoi faz, nessas breves páginas, bem diante dos nossos olhos, o milagre que é traduzir em palavras o indizível.

4 comentários:

Anônimo disse...

Sabia que sua inquietude intelectual não nos deixaria sem seus bons textos.
Se um bom escritor consegue expor o indizível em palavras, ele também nos instiga a largar a inércia.
Bom retorno

Francisco disse...

Belo texto, belo texto...sou fanático pelo Dostoievski, mas do Tolstoi conheço pouco. Terminei de ler Ana Karenina há pouco e, depois de alguns meses de angústia, acho que ainda não estou pronto para um Guerra e Paz! Mas confesso que o trechinho aí deu um gosto de quero mais danado! Hehehehe!

Denis disse...

ÔÔÔÔÔ, O André voltou...

M disse...

Ainda estou aprimorando meu Russo pra ler os textos deste distinto senhor no original, como ele merece. Esses hereges de hoje de dia, francamente.