Nunca pensaria em Steven Spielberg para a direção do filme do Tintin, e muito menos em Peter Jackson tomando as rédeas da produção. Mas segundo o IMDb e alguns sites de cinema Internet afora, parece que a dupla será responsável por uma trilogia do repórter belga, sob a tutela da sempre competente Dreamworks (alguns sites dizem que Spielberg vai dirigir um dos filmes, Jackson outro e o terceiro ainda está em aberto). Ao que parece, porém, tanto o diretor americano quanto o neozelandês são fãs da revista, o que me alivia bastante.Há algumas dificuldades claras em fazer um filme sobre Tintin. A primeira delas é: qual a idade do personagem-título? Isto é bastante incerto, pois ao mesmo tempo em que Tintin é um repórter – que pouco exerce a profissão, diga-se – e vive sozinho, ou seja, um adulto, possui traços bastante infantis (na verdade ele nem traços direito possui, pois seu rosto é formado apenas por alguns pontos e um nariz mais protuberante). Daí resulta, talvez, o maior problema, mas não defeito, vejam bem: Tintin não é um personagem extremamente carismático, não possui nenhuma característica realmente distintiva – é muito inteligente e astuto, mas não brilhante; é forte, mas não um super-homem; não possui, tampouco, qualquer poder ou arma especial. Não seria exagero algum dizer, por exemplo, que o cachorro Milou é muito mais facilmente caracterizável do que o protagonista.
A palavra Tintin, em realidade, significa...“nada”. Como diz Benoît Peeters, no livro “Tintin e o mundo de Hergé”, é até possível falar que Tintin não tem caráter (um Macunaíma belga?), afinal não há qualquer componente nele que permita dizer que seja ou vá agir assim ou assado, o que, no fundo, multiplica, e muito, suas possibilidades. O exemplo dado pelo autor citado é bem interessante: em 1930, na aventura “Tintin no Congo”, o repórter é um genuíno colonialista, que ensina aos congoleses que a pátria deles é, na verdade, a Bélgica. Já em “Tintin e os Pícaros”, o último livro da série e talvez a mais complexa e diferente aventura, de 1976, Tintin dirige uma moto com um símbolo hippie e enfrenta o General Tapioca, uma espécie de caudilho tipicamente latino-americano, libertando, assim os Pícaros de um tirano – apesar de não haver qualquer revolução social na região, como bem ressalta Peeters (e por que deveria ter?).
Isso tudo trás outra questão importante para o filme: quais serão os livros utilizados? Sem dúvida há livros mais e menos característicos do (anti?-)herói. As aventuras na Lua, por exemplo, são bem sem-graça e os primeiros títulos (“Tintin no Congo” e “Tintin na América”) ainda muito incipientes. Aliás, qual será o privilégio da trilogia? A diversidade e refinamento das histórias permitem que se tenha desde um drama vertiginoso, como “Tintin no Tibet”; passando por um thriller de intriga e espionagem, com componentes sociais bastante atuais, como é o caso de “Carvão no porão” (que trata da permanência escravidão); até uma aventura de contornos claramente políticos, o citado “Tintin e os Pícaros”. Cabe aos produtores fazerem a melhor escolha, o que não será fácil, mas o fato de serem três filmes é um facilitador.
Enfim, será uma tarefa e tanto fazer um longa do personagem. Muito mais complicado do que levar às telas, por exemplo, “O Senhor dos Anéis”, filme baseado em um livro no qual os personagens, dos mais simples aos mais complexos, são muito bem delineados pela pena de J. R. R. Tolkien. No caso de Tintin, trata-se, possivelmente, do mais misterioso e enigmático personagem de toda a história dos quadrinhos. A conferir.












