quarta-feira, 30 de abril de 2008

Tintin, o filme ou Das virtudes do nada

Nunca pensaria em Steven Spielberg para a direção do filme do Tintin, e muito menos em Peter Jackson tomando as rédeas da produção. Mas segundo o IMDb e alguns sites de cinema Internet afora, parece que a dupla será responsável por uma trilogia do repórter belga, sob a tutela da sempre competente Dreamworks (alguns sites dizem que Spielberg vai dirigir um dos filmes, Jackson outro e o terceiro ainda está em aberto). Ao que parece, porém, tanto o diretor americano quanto o neozelandês são fãs da revista, o que me alivia bastante.

Há algumas dificuldades claras em fazer um filme sobre Tintin. A primeira delas é: qual a idade do personagem-título? Isto é bastante incerto, pois ao mesmo tempo em que Tintin é um repórter – que pouco exerce a profissão, diga-se – e vive sozinho, ou seja, um adulto, possui traços bastante infantis (na verdade ele nem traços direito possui, pois seu rosto é formado apenas por alguns pontos e um nariz mais protuberante). Daí resulta, talvez, o maior problema, mas não defeito, vejam bem: Tintin não é um personagem extremamente carismático, não possui nenhuma característica realmente distintiva – é muito inteligente e astuto, mas não brilhante; é forte, mas não um super-homem; não possui, tampouco, qualquer poder ou arma especial. Não seria exagero algum dizer, por exemplo, que o cachorro Milou é muito mais facilmente caracterizável do que o protagonista.

A palavra Tintin, em realidade, significa...“nada”. Como diz Benoît Peeters, no livro “Tintin e o mundo de Hergé”, é até possível falar que Tintin não tem caráter (um Macunaíma belga?), afinal não há qualquer componente nele que permita dizer que seja ou vá agir assim ou assado, o que, no fundo, multiplica, e muito, suas possibilidades. O exemplo dado pelo autor citado é bem interessante: em 1930, na aventura “Tintin no Congo”, o repórter é um genuíno colonialista, que ensina aos congoleses que a pátria deles é, na verdade, a Bélgica. Já em “Tintin e os Pícaros”, o último livro da série e talvez a mais complexa e diferente aventura, de 1976, Tintin dirige uma moto com um símbolo hippie e enfrenta o General Tapioca, uma espécie de caudilho tipicamente latino-americano, libertando, assim os Pícaros de um tirano – apesar de não haver qualquer revolução social na região, como bem ressalta Peeters (e por que deveria ter?).

Isso tudo trás outra questão importante para o filme: quais serão os livros utilizados? Sem dúvida há livros mais e menos característicos do (anti?-)herói. As aventuras na Lua, por exemplo, são bem sem-graça e os primeiros títulos (“Tintin no Congo” e “Tintin na América”) ainda muito incipientes. Aliás, qual será o privilégio da trilogia? A diversidade e refinamento das histórias permitem que se tenha desde um drama vertiginoso, como “Tintin no Tibet”; passando por um thriller de intriga e espionagem, com componentes sociais bastante atuais, como é o caso de “Carvão no porão” (que trata da permanência escravidão); até uma aventura de contornos claramente políticos, o citado “Tintin e os Pícaros”. Cabe aos produtores fazerem a melhor escolha, o que não será fácil, mas o fato de serem três filmes é um facilitador.

Enfim, será uma tarefa e tanto fazer um longa do personagem. Muito mais complicado do que levar às telas, por exemplo, “O Senhor dos Anéis”, filme baseado em um livro no qual os personagens, dos mais simples aos mais complexos, são muito bem delineados pela pena de J. R. R. Tolkien. No caso de Tintin, trata-se, possivelmente, do mais misterioso e enigmático personagem de toda a história dos quadrinhos. A conferir.

I felt like I could just fly

Ainda não temos um Nobel, mas concordo que esse ano devemos levar sem maiores dificuldades um Darwin Award.


The Shins, Australia

domingo, 27 de abril de 2008

Namoro na TV

Uma coisa que eu nunca engoli nos sitcons americanos é o incrível rodízio de namoradas (ou namorados, claro) dos personagens principais. Mesmo aqueles que reclamam da sua incompetência com mulheres acabam namorando alguma moça todo episódio (e isso dá uma namorada por semana!). O George Costanza, por exemplo. Ele é gordinho, careca, baixo, fracassado. Mesmo assim já teve várias namoradas, conhece muitas mulheres interessantes e interessadas e até se casa ao longo da série. Como isso acontece? Qual a mágica? Alguém me ensina, por favor? Simplesmente não dá pra levar a sério (ok, ok, usar o argumento “isso é um programa de tv... e ainda de comédia!” é razoavelmente válido).

Outro aspecto que sempre me chamou a atenção é a facilidade que os homens têm (y las chicas, porsupuesto) de acabar com esses relacionamentos. As moças são todas descartáveis, reparem só. Não há qualquer apego, qualquer complexidade. As parceiras são meros bibelôs, verdadeiras damas de companhia. São todas submissas e unidimensionais. E quando é uma mulher que está no controle, os homens são bobões e machos caricaturais.

Isso pode até ser uma necessidade de roteiro e enredo nesses seriados (apesar de não acreditar que seja realmente só isso). Mas, em última hipótese, esses tipos criados são plenamente capazes de moldar determinados padrões comportamentais. Ou não?

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Programa de humor?

Alguém pode me dizer se isso é sério?


Reparem na cara de regozijo do apresentador quando o cara da "direita" fala “coletivo”!

“Há uma novidade nesse programa. A novidade está na objetividade do tratamento dos fatos. E mais: uma crítica realista, uma crítica que não despreza os valores da civilização ocidental...” HAHAHAHAHA!

segunda-feira, 21 de abril de 2008

These rumors are making me thirsty!

Rumores por aí indicam que o próximo filme do Woody Allen contará com nada mais nada menos do que... Larry David, criador de Seinfeld e Curb Your Enthusiasm!!! O personagem de Larry David seria interpretado originalmente pelo próprio Allen, mas o diretor sente-se velho para um papel principal e, ao que tudo indica, fará um coadjuvante. O filme também contará com a belíssima (e bizarra, afinal ela namora o Marilyn Manson) Evan Rachel Wood. Ah, o filme será rodado em Nova Iorque!

Dia primeiro de maio, acho, estréia aqui no Brasil Cassandra's Dream, que dizem ser fraquinho fraquinho. O negócio é que cada filme do Woody Allen pode ser o último (mas, calma, ainda tem o Vicky Cristina Barcelona, já finalizado, mas que só deve estrear em terras tupiniquins em 2009).

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Os livros e as horas

Uma discussão breve, mas interessante, que surge em “A insustentável leveza do ser” é se determinados livros são feitos para serem lidos de noite ou de dia. O exemplo dado é curiosamente Stendhal, um dos meus autores favoritos. Eu sempre preferi ler literatura à noite, então é normal que associe os autores ao período noturno. O dia está ligado aos estudos, a textos acadêmicos. No entanto, creio que associaria o realismo francês (Stendhal, Balzac, Flaubert...) ao cair da tarde. Não sei bem porque, mas acho o entardecer um pouco deprimente e sufocante. A noite se aproxima, o céu perde a vibração, o cheiro um pouco nauseante dos jantares que são preparados nas cozinhas dos apartamentos vizinhos invadem o quarto, assim como os barulhos dos talheres e das mesas sendo postas. As crianças saem da escola e as campainhas tocam, indicando a chegada dos maridos (e das esposas também, afinal estamos no século XXI, oras!). Não sei porque associo esses pequenos momentos ao grande realismo. Uma hipótese é pelo fato dessas pequenas formalidades representarem bem as condutas cotidianas da família burguesa, condutas estas cristalizadas pela pena de Flaubert e cia. Mas, vá saber.

Os tais livros de cabeceira já citados nesse blog devem ser lidos à noite, e só à noite. São textos de introspecção, de ensimesmamento, e só o silêncio e um certo isolamento podem proporcionar uma leitura prazerosa e frutífera.

Poesia eu prefiro ler de manhã, com a cabeça mais fresca, assim como o clima mais ameno. Talvez eu leia tão pouco poesia justamente por desperdiçar as minhas manhãs.

Mas, de modo geral, eu realmente me sinto melhor lendo à noite, quando todos já estão dormindo e quando não há mais incômodas influências externas. Ler, afinal, é voltar-se para dentro, não é?

E vocês, possuem alguma preferência de horário para leitura?

segunda-feira, 14 de abril de 2008

But we define ourselves by the choices we have made

Cena final do filme "Crime e pecados" (1989), dirigido pelo Woody Allen


"We’re all faced throughout our lives with agonizing decisions, moral choices. Some are on a grand scale, most of these choices are on lesser points. But we define ourselves by the choices we have made. We are, in fact, the sum total of our choices. Events unfold so unpredictably, so unfairly, Human happiness does not seem to be included in the design of creation. It is only we, with our capacity to love that give meaning to the indifferent universe. And yet, most human beings seem to have the ability to keep trying and even try to find joy from simple things, like their family, their work, and from the hope that future generations might understand more."

quarta-feira, 9 de abril de 2008

O mistério de José (parte II)

Continuação do post abaixo...

Desempregado, José, descambou para o vício, e tornou-se figurinha fácil nas páginas policiais. Mas as coisas não pararam por aí. De repente o adorável símio simplesmente sumiu do mapa. Rumores da época apontaram para um briga judicial que moveria milhões de dólares e que a toda poderosa Kellogg’s não estava preparada para bancar. O macaco estaria disposto a processar seus antigos patrões por irregularidades contratuais e amigos próximos chegaram a afirmar que, em caso de vitória, a Kellogg’s estaria falida. A empresa sabia que, mesmo com todas as polêmicas e controvérsias, José era adorado pelo público e que, mal ou bem, ele foi o responsável pelo sucesso vertiginoso dos cereais de chocolate.

Mas não há nada tão ruim que não possa piorar. Em 1960 um excêntrico empresário do ramo do comércio ilegal de animais, Johansson Fritz Cabrera, compareceu aos jornais com uma revelação bombástica: ao contrário do que todos pensavam, inclusive amigos do macaco, José estava sendo era protegido pela indústria de cereais matinais. Durante semanas o escândalo voltou a ser capa dos principais tablóides do mundo, que traziam diariamente novas versões da polêmica. Ninguém sabia onde estava a ex-celebridade e a Kellogg’s recusava-se a prestar declarações. Cabrera revelara que José em realidade era um fugitivo extremamente perigoso e procurado em todos os países da América Latina. Milhões de boatos surgiam com relação aos crimes que o macaco teria cometido: de zoofilia até roubo de bananas e maçãs em feiras populares, passando pela libertação de animais de circo e a disseminação de doenças, a suposta ficha criminal de José em terras tropicais era interminável.

Após um tempo, o “caso José” começou a arrefecer até que sumiu completamente dos meios de comunicação. O primata permaneceu desaparecido e a Kellogg’s recusava-se a divulgar qualquer nota oficial sobre o escândalo. Algo misterioso, no entanto, ocorria no mundo dos cereais matinais achocolatados: as vendagens de Cocoa Krispies caíam a olhos vistos, assim como as ações da multinacional, e o sucessor de José, o já citado elefante Coco, foi sumariamente demitido. Tentando restabelecer-se no mercado, a empresa fez contrato com a gigante Hanna-Barbera, que cedeu o leão Snagglepuss por cifras milionárias (até hoje o salário mais caro do ramo). Contratado como o salvador da pátria, o leão fez pouco, e permaneceu apenas quatro anos no emprego, sendo seguido pelo pouco carismático homem das cavernas Ogg (1967-70) e por um outro elefante, Tusk, que sobreviveu dez anos na função (um recorde absoluto até então), mas teve sérios problemas ao longo de todo seu reinado e veio falecer de forma até hoje misteriosa, tendo sido encontrado morto na banheira de sua mansão, com suspeitas de overdose de antidepressivos com base de amendoim.

Após meses de negociação, três crianças assumem a função: Snap!, Crackle! e Pop!, em 1981. Mas brigas internas dissolvem o trio, que passa a freqüentar programas sensacionalistas nas modorrentas tardes dos anos 1980, nos EUA. Conta-se que Snap! roubou a namorada de Crackle! e Pop! assumiu sua homossexualidade, e se disse infeliz por ser obrigado a usar um chapéu militar, já que era pacifista de carteirinha, capaz de matar e morrer em nome de sua causa. Anos mais tarde Snap! foi acusado de abusar sexualmente de menores de idade e Crackle! tornou-se famoso por engolir isqueiros e por ameaçar retirar a exclamação de seu nome. A desgraça do cereal matinal achocolatado da Kellogg’s foi apelidada, nesse período, de “a maldição de José”.

O fenômeno só foi sanado quando um novo e misterioso mascote apareceu para substituir Snap!, Crackle! e Pop!. Era novamente um animal, de feições algo familiares. Seu nome remetia a um antigo mascote: Coco. Mas Coco não se parecia com um elefante. Olhando para ele percebia-se facilmente que se tratava, em realidade, de um macaco. Seria José, pregando sua peça final? Dificilmente saberemos a verdade, mas o fato é que Cocoa Krispies voltou a ser campeão de vendas e Coco, o macaco, estabeleceu-se, absoluto.

Algumas pistas nos deixam entrever que talvez José seja realmente Coco: primeiramente, o fato de ter adotado o nome de seu sucessor seja uma pequena piada desse símio afeito a gracinhas, depois, percebemos que em toda América, onde, como sabemos, José era procurado, o mascote na verdade é o elefante Melvin. Essa fórmula seria aquela encontrada para evitar que em viagens de divulgação do produto José pudesse ser preso quando estivesse em países como Brasil e México. Bastante discreto, o primata resolveu inclusive deixar os EUA e viver em Paris. Em 2001, por problemas de saúde, resolveu veicular sua marca apenas na Europa, e deixou espaço nos EUA para que uma briga gigantesca pelo seu espaço fosse novamente travada. Em 2001 Snap!, Crackle! e Pop! se reuniram e conseguiram voltar à ativa. O que está por trás dessa estranhíssima volta, no entanto, é assunto para outro texto.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

O mistério de José (parte I)

Há algo que me intriga um bocado no fantástico mundo dos cereais matinais. Vou ser curto e grosso, sem medo de ofender almas delicadas: por que diabos nos países da América (Canadá e EUA excluídos) o símbolo do Choco Krispis é o elefante Melvin e no resto do mundo é o macaco Coco? Ah, no Japão, aquele país estranho e distante, os dois são os mascotes do Choco Krispis, como vocês podem ver aqui . Aliás, nos países representados pelo Melvin, o cereal chama-se Choco Krispis, mas naqueles aonde o macaco Coco domina, o nome costuma ser Coco Pops (Inglaterra e França, por exemplo), mas nos EUA não só se chama Cocoa Krispies como o símbolo não é nem o Melvin nem o Coco, e sim três crianças élficas malucas, como vocês podem ver aqui . Na Espanha, loucura das loucuras, o cereal chama-se Choco Krispies, mas a mascote é... Coco! Confusos? Pois preparem-se, isso não é nada frente ao que está por vir.

Por que tanta desordem no mundo dos cereais de chocolate? O Froot Loops é sempre representado pelo tucano Sam, assim como o Sucrilhos pelo tigre Tony e o Corn Flakes pelo galo Cornelius, mas o nosso Choco Krispis vive cambiante, com uma personalidade distinta em cada continente, se escondendo atrás de diferentes nomes...

Investigando tão estranhos acontecimentos, quando minha mão já estava suja de tanta podridão – e estrume de elefante – envolvendo a vida secreta de Melvin, eis que chego a José, o primeiro mascote de Choco Krispis. José era um macaco magérrimo, possivelmente devido às suas péssimas condições de vida. O nome, o chapéu e a bandana acusavam: José era um imigrado, um paria na sociedade americana do final dos anos 1950. Contratado pela empresa Kellogg’s, José rapidamente ganhou fama, dinheiro e, conseqüentemente, inimigos.

De um reles fugitivo (mexicano, talvez?), o astuto macaco tornou-se uma celebridade instantânea. Seus casos com divas como Grace Kelly, Marilyn Monroe e a cadela Laika, que um ano antes havia chegado ao espaço no Sputnik, ganharam a capa dos principais tablóides norte-americanos, inúmeros jardins zoológicos eram inaugurados e o cachê de José subia a olhos vistos naquele louco ano de 1958. Consta, por exemplo, que Billy Wilder pretendia refilmar seu clássico “Crepúsculo dos deuses” apenas para poder contar com José na cena do funeral do macaco de Gloria Swanson, mas a celebridade simiesca recusou-se com o argumento de que interpretar um macaco morto seria um desperdício de talento. E quem poderia deixar de dar razão ao simpático símio, na saudosa época conhecida até hoje como “A Era dos Cereais Matinais de Flocos de Arroz Sabor Chocolate Flavorizado”?

Mas tudo tem seu preço, e o fato de José nunca ter sido alfabetizado e sequer dominar o inglês oral fazia com que qualquer coisa que ele comprasse fosse mais caro do que normalmente deveria ser. Dominado pelas possibilidades de dinheiro fácil, pela presença de falsos amigos e pela propensão a bebidas alcoólicas à base de banana, José era apanhado sucessivamente pelas lentes indecorosas de paparazzis: escândalo atrás de escândalo, seu reinado não pôde durar. Em 1959, um ano após esse imigrante ser alçado ao mais alto grau do establishment norte-americano, o elefante Coco assume a capa da embalagem do Cocoa Krispies. A sociedade americana assistia, atônita, a decadência de um de seus mais queridos ídolos.

(continua...)

domingo, 6 de abril de 2008

I'd like a Martini, very dry

Bette Davis completaria cem anos ontem.


cena de "All about Eve", dirigido por Joseph L. Mankiewicz

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Porque “A insustentável leveza do ser” é e não é um grande livro

*Texto escrito no início do ano. Esqueci completamente de publicar aqui.

“A insustentável leveza do ser” é um romance menor, mas um livro extraordinário. A história contada não tem nada de especial ou empolgante, os relacionamentos entre os personagens são cansativos, a narração – excessivamente fragmentada – não prende muito a atenção (parece que falta mesmo fôlego a Milan Kundera), chegando até a ser aborrecida em alguns momentos. Como libelo político, também não desperta maiores interesses, beirando o simplismo, por explicitar mais do que esconder. Literatura e panfletagem não costumam andar abraçadas.

No entanto, se tivesse que fazer uma lista de livros de cabeceira – e eu chamo de livros de cabeceira aqueles que podem ser abertos aleatoriamente, no meio de uma noite de angústia, para nos fazer companhia imediata, ou seja, livros que levaríamos para cama – sem dúvida a obra de Kundera estaria ao lado de umas outras poucas, como “O Guardador de Rebanhos”, de Alberto Caeiro, os “Ensaios”, do Montaigne ou “Zorba o Grego”, de Nikos Kazantzakis. “A insustentável leveza” não é um livro sobre amor, sexo e erotismo, como costuma ser classificado. Ou, pelo menos, não pode ser resumido a isso. É, no fundo, um retrato bastante impressionista sobre a capacidade humana de fazer escolhas e lidar com as suas conseqüências. O quão pesadas e ingratas são as escolhas em um mundo em que não sabemos nunca perfeitamente o que queremos, já que não podemos adivinhar os resultados de nossas ações! Esse, aliás, é talvez o mais instigante tema literário de todos os tempos.

“Tudo é vivido pela primeira vez e sem reparação”. Essa frase ecoou por dias (noites, na verdade) em minha mente. É uma outra faceta de algo que eu chamei aqui de “insegurança ontológica” (o termo não tem a ver com os conceitos sociológicos e psicológicos): viver é uma aventura constante porque não temos certeza nem de nós mesmo. Nem nossos atos, após serem praticados, nos pertencem mais de forma integral. Gosto da imagem do filósofo espanhol Ortega y Gasset, que dizia que a vida humana é como um naufrágio, e que viver é se debater e lutar em um mar revolto. Ainda segundo o filósofo, a única forma de segurança que temos é o ensimesmamento, ou seja, o retorno ao Eu, ao tal “fundo insubornável”. Mas isso é tema para outros textos.

Voltando à frase que me tirou o sono, como é possível viver sabendo-se esmagado por essa leveza extraordinária que é a fluidez do rio heraclitiano? Como sugeria Beethoven, não é muito melhor o frio e grave coro do “Es muss sein!” (Tem de ser!). “A insustentável leveza” é um livro que passeia por essa questão fundamental e irresolúvel, que é o balanço tênue entre determinismos e voluntarismos: de um lado, somos esmagados por escolhas alheias a nós, de outro, pelas responsabilidades que nossas escolhas impõem já que, se não há reparação, isso significa estas são absolutamente capitais, pesadas e graves.

Como todo grande livro de cabeceira, “A insustentável leveza” não fornece respostas, mas sim provoca questões e indagações. Ao contrário do viés político da obra, as perguntas fundamentais desse “quase-ensaio” de Kundera estão escondidas e embaralhadas, e merecem uma introspecção profunda. O grande personagem do livro não é Tomas ou Tereza, mas sim o leitor – esse sim, profundo – que se defronta e se vê obrigado a digladiar com certas questões universais que parecem evidentes, mas que encobrem, na verdade, essa tal “insustentável leveza”. Em determinado momento, o narrador recomenda que para procurar o infinito, basta fechar os olhos. Eu sugiro o contrário, que se aguce a visão e preste-se atenção na entrelinhas de “A insustentável leveza do ser”. A viagem, claro, é longa, e inevitavelmente não levará a conclusões, apenas a perplexidades.

Tudo bem. Cama, para mim, nunca foi lugar para dormir, mesmo.