O escritor argentino Julio Cortazar, no vídeo acima, fala de uma estranha necessidade que sente de ficar sozinho, mesmo em situações sociais que lhe são agradáveis. È um impulso mais forte, imagino que uma espécie de comichão. Ele diz, também, que é um tipo de pessoa de natureza solitária, que gosta e valoriza seu espaço, o seu pequeno universo.
Viver sozinho é algo que se aprende. É muito tentador viver em bandos. É muito fácil depender de outras pessoas, porque isso exime de responsabilidades. Estar sozinho –e fica-se muito sozinho mesmo rodeado de amigos queridos – não deixa de ser doloroso, por mais que seja muito recompensador. É doloroso porque não há fuga: a consciência é a realidade última, radical. Por mais que se possa mentir para o outro, enganar o próximo, fingir algum sentimento, transformar uma dor em desfaçatez, é impossível escapar de si mesmo. Pode-se até adiar – e o Outro costuma ser uma forma eficiente de realizar isso – mas é como lutar com o inescapável, com o iniludível.
Por isso a importância do aprendizado. Quando o pêndulo volta, ele te acerta, mais forte, e você já não consegue lidar com isso. O peso das próprias verdades pode ser insustentável, esmagador. É duro admitir certos defeitos, perceber grandes falhas e aceitar derrotas e incapacidades. Mas não consigo ver outra opção a não ser admitir. Não admitir para melhorar, obrigatoriamente. Sem querer parecer derrotista, e realmente não estou sendo, mas há certas “coisas” – para usar propositalmente um termo bem genérico – que não mudam, ou mudam apenas de tempos em tempos, de forma quase imperceptível. Um defeito pode não ser exatamente um defeito, mas apenas você. E por mais que sartrianamente eu admita que as pessoas se constroem, eu também não consigo conceber que elas possam sempre se construir do zero. Há um passado, um sem número de histórias, de hábitos, de práticas firmemente estabelecidas. Que nós construímos. Criar-se todos os dias é, no fundo, também levantar uma prisão.
Esse texto era para ser sobre o quanto eu sinto, volta e meia, uma vontade de falar muito forte, uma comichão contrária à do Cortazar. Muitas vezes entro no MSN no meio da noite, apenas na expectativa de que alguém possa conversar comigo. Como passo praticamente a madrugada toda acordado, tenho muita vontade de pegar o telefone e ligar para alguém, apenas para ouvir uma voz, contar uma idéia idiota, ou falar sobre um livro que estava lendo. Na verdade, um dos motivos pelos quais criei esse blog foi exatamente este: saciar essa ausência, tão incômoda, que volta e meia sinto. Escrever, nessa circunstância, é como tentar dialogar com alguma pessoa imaginária, independente dela me ouvir ou não. E isso me levou a um outro raciocino estranho: até que ponto isso é realmente um diálogo? Digo, com duas pessoas de verdade, por exemplo. A impressão que eu tenho é que simplesmente não percebo o quanto aborreço os outros, principalmente quando me ponho a falar compulsivamente. Mas simplesmente não consigo evitar, porque só me dou conta disso tarde demais.
Normalmente, quando estou sozinho outra vez. E, então, quero continuar sozinho, porque me sinto bem assim, sinto que estou sendo compreendido, que não estou chateando ou sendo incômodo. Às vezes eu chego em casa, no meio da noite, e tudo o que quero é esquecer o que aconteceu, por mais agradável que tenha sido. Às vezes, penso que nunca fico satisfeito com nada, basicamente porque nunca consigo ficar satisfeito comigo mesmo.
E aí o texto recomeça.
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
A solidão, mais uma vez
sábado, 26 de janeiro de 2008
Música do dia
Bom, segue a música do dia. Sim, esse blog costuma, vez ou outra, com intervalos precisamente indefinidos, postar músicas, caso meus queridos visitantes não se lembrem.
Dias nublados me fazem querer ouvir jazz.
I guess I'll go through life, just catching colds and missing trains...
Dias nublados me fazem querer ouvir jazz.
I guess I'll go through life, just catching colds and missing trains...
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
Sombras de Goya: o filme do quase
Saí de “Sombras de Goya” triste. Bom, talvez triste não seja bem a palavra, é forte demais. Deixei o cinema decepcionado, isso sim, com o sentimento de que algo havia se perdido. Estava tudo ali: um ótimo diretor, que já fez trabalhos brilhantes como “Amadeus” e “Um estranho no ninho”; um roteirista, Jean-Claude Carriére, que trabalhou com Buñuel em filmes do porte de “Esse obscuro objeto do desejo”, o “Fantasma da liberdade” e “O discreto charme da burguesia”; um ator estupidamente bom, que é o Javier Bardem; e uma boa atriz, Natalie Portman. Além do mais, o filme se pauta em um dos mais interessantes, polêmicos e férteis artistas de todos os tempos, o espanhol Francisco de Goya y Lucientes. Ainda há mais: o período histórico pelo qual passa a Espanha – esse país que é o verdadeiro fantasma de Goya – é simplesmente fascinante. De um lado, a Inquisição brutal, pautada no obscurantismo e na tradição, de outro, os nobres ideais iluministas da Revolução Francesa, e suas prerrogativas da Razão esclarecedora, e o gênio militar de Napoleão Bonaparte.
El sueño de la razón produce monstruos. Nesta frase e sua truncada compreensão sintetiza-se o espírito de uma época. Na figura de Goya resume-se um século de Espanha. Não parece ser despropositada a ambigüidade que a palavra “sueño” suscita na frase. Em espanhol, o termo tanto pode significar “sono” – o ato de dormir –, quanto “sonho” – a experiência onírica. Seria, portanto, bastante dúbio o seu sentido. Estaria Goya sugerindo que a Razão, quando adormecida, deixa espaço para que todo o tipo de obscurantismo e ignorância se aposse do mundo, ou, ao contrário, os sonhos da Razão, suas utopias e projetos, podem produzir as mais variadas aberrações? Se pensarmos que Goya era um fervoroso defensor da Ilustración espanhola, não seria difícil responder que a epígrafe diz respeito a uma Razão adormecida, aprisionada pela Espanha caduca e reacionária do Antigo Regime. Por outro lado, é inegável a obsessão de Goya pela mitologia, pela feitiçaria e pelas superstições. Os próprios “Caprichos”, a série de gravuras à qual “El sueño...” pertence, e principalmente suas “Pinturas Negras”, são prova da admiração que o pintor nutria pelas histórias extraordinárias, sendo diversas vezes tratado como louco por seus contemporâneos.
Milos Forman chega a esse paradoxo, talvez por linhas tortas, quando não enfatiza a figura do próprio Goya como protagonista. Lembremos que são os “fantasmas de Goya”, e não exatamente o artista aragonês, que está em jogo (ao contrário, por exemplo, do “Goya em Bordeaux” de Carlos Saura). Goya é “apenas” (como se fosse pouca coisa) um daqueles espíritos únicos, que só aparecem de tempos em tempos, e que conseguem captar essências. Ele, um gênio individual, foi capaz de transformar em imagens algo muito maior e mais raro: o fim de uma era e o início de outra. Suas pinceladas, por tanto, transcendem os limites do tempo. Goya, o pintor oficial da Corte e entusiasta dos ideais iluministas, não só marca uma etapa definitiva na passagem da arte clássica para a moderna, mas também registra, de forma exemplar e única, a mudança dos tempos.
Irmão Lorenzo (Bardem) e Inês (Portman), deveriam, ao menos teoricamente, representar as contradições inerentes a esta transição. Ele, um padre representante do Antigo Regime, que percebe a brutalidade das práticas inquisitoriais, e que, atraído – seja pelo poder, seja pela vingança, seja pelos ideais da Revolução Francesa – para o lado dos valores modernos, retorna à Espanha, e ajuda a instaurar um dos mais violentos planos de conquista do invencível exército napoleônico. Ela, pertencente a uma família da nobreza espanhola, sofre tanto nas mãos da Igreja quanto do Estado napoleônico. Seu destino não poderia ser outro, além da loucura. São, Lorenzo e Inês, portanto, personagens-síntese, são, não tenho dúvida, os genuínos fantasmas de Goya.
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Mas nem tudo é o que parece, nem tudo que promete vem a ser. O filme de Milos Forman é raso, descuidado. Com todos os componentes na mão para um filme inesquecível, o cineasta tcheco faz besteiras inimagináveis. Para começar, esteticamente o filme é pobre. Algumas cenas lembram, como disse uma amiga (a quem devo uma mousse de chocolate), os filmes do Monty Python (o que seria um baita elogio, não ficasse patético em um filme dramático), de tão ridículas. A tentativa de misturar inglês com espanhol (nos figurantes) é risível e indigna de uma obra que se pretenda séria. A bizarra aparição de Natalie Portman como mãe e filha não merece nem comentários. Madri parece uma pequena vila do interior, os cenários se repetem exaustivamente, os personagens se encontram em todos os lugares, em coincidência incríveis (afinal, só existem umas duas ruas e uma praça, além da população local beirar, o que, os 30 habitantes?).
Há, ainda, omissões históricas imperdoáveis, como a supreendente reação do povo espanhol à invasão de Napoleão - de onde surge, pela primeira vez, o sentimento de nacionalismo naquele país. Lembremos que Napoleão esperava uma vitória tranqüila, pois contava com o apoio dos “ilustrados” espanhóis (medidas liberalizantes já vinham sendo tomadas há pelo menos um par de décadas), e, mais do que isso, com a submissão do povo, que, vivendo na mais plena miséria, supostamente se encantaria pelo discurso da Revolução. O irmão de Napoleão, José I, porém, foi incapaz de se estabilizar no poder. Na parte final do filme, no entanto, os ingleses aparecem como os grandes libertadores, que, sozinhos, derrotaram o exército (ou mais bem, a carroça) napoleônico.
As possibilidades de fazer o filme eram muitas. Podia ser um filme histórico, um filme voltado para os demônios (ou fantasmas) do pintor, ou mesmo um drama romântico. Milos Forman não faz nada disso, não discute nenhum tema relevante com a profundidade necessária e, obviamente, peca pela displicência. Em 2008, exatos duzentos anos após as cenas aterradoras do quadro mais famoso de Goya, as execuções 3 de maio, estamos em um bom momento para rever a figura do pintor espanhol, suas conquistas e seu legado. Forman joga na lata do lixo uma grande chance.
El sueño de la razón produce monstruos. Nesta frase e sua truncada compreensão sintetiza-se o espírito de uma época. Na figura de Goya resume-se um século de Espanha. Não parece ser despropositada a ambigüidade que a palavra “sueño” suscita na frase. Em espanhol, o termo tanto pode significar “sono” – o ato de dormir –, quanto “sonho” – a experiência onírica. Seria, portanto, bastante dúbio o seu sentido. Estaria Goya sugerindo que a Razão, quando adormecida, deixa espaço para que todo o tipo de obscurantismo e ignorância se aposse do mundo, ou, ao contrário, os sonhos da Razão, suas utopias e projetos, podem produzir as mais variadas aberrações? Se pensarmos que Goya era um fervoroso defensor da Ilustración espanhola, não seria difícil responder que a epígrafe diz respeito a uma Razão adormecida, aprisionada pela Espanha caduca e reacionária do Antigo Regime. Por outro lado, é inegável a obsessão de Goya pela mitologia, pela feitiçaria e pelas superstições. Os próprios “Caprichos”, a série de gravuras à qual “El sueño...” pertence, e principalmente suas “Pinturas Negras”, são prova da admiração que o pintor nutria pelas histórias extraordinárias, sendo diversas vezes tratado como louco por seus contemporâneos.
Milos Forman chega a esse paradoxo, talvez por linhas tortas, quando não enfatiza a figura do próprio Goya como protagonista. Lembremos que são os “fantasmas de Goya”, e não exatamente o artista aragonês, que está em jogo (ao contrário, por exemplo, do “Goya em Bordeaux” de Carlos Saura). Goya é “apenas” (como se fosse pouca coisa) um daqueles espíritos únicos, que só aparecem de tempos em tempos, e que conseguem captar essências. Ele, um gênio individual, foi capaz de transformar em imagens algo muito maior e mais raro: o fim de uma era e o início de outra. Suas pinceladas, por tanto, transcendem os limites do tempo. Goya, o pintor oficial da Corte e entusiasta dos ideais iluministas, não só marca uma etapa definitiva na passagem da arte clássica para a moderna, mas também registra, de forma exemplar e única, a mudança dos tempos.
Irmão Lorenzo (Bardem) e Inês (Portman), deveriam, ao menos teoricamente, representar as contradições inerentes a esta transição. Ele, um padre representante do Antigo Regime, que percebe a brutalidade das práticas inquisitoriais, e que, atraído – seja pelo poder, seja pela vingança, seja pelos ideais da Revolução Francesa – para o lado dos valores modernos, retorna à Espanha, e ajuda a instaurar um dos mais violentos planos de conquista do invencível exército napoleônico. Ela, pertencente a uma família da nobreza espanhola, sofre tanto nas mãos da Igreja quanto do Estado napoleônico. Seu destino não poderia ser outro, além da loucura. São, Lorenzo e Inês, portanto, personagens-síntese, são, não tenho dúvida, os genuínos fantasmas de Goya.
Mas nem tudo é o que parece, nem tudo que promete vem a ser. O filme de Milos Forman é raso, descuidado. Com todos os componentes na mão para um filme inesquecível, o cineasta tcheco faz besteiras inimagináveis. Para começar, esteticamente o filme é pobre. Algumas cenas lembram, como disse uma amiga (a quem devo uma mousse de chocolate), os filmes do Monty Python (o que seria um baita elogio, não ficasse patético em um filme dramático), de tão ridículas. A tentativa de misturar inglês com espanhol (nos figurantes) é risível e indigna de uma obra que se pretenda séria. A bizarra aparição de Natalie Portman como mãe e filha não merece nem comentários. Madri parece uma pequena vila do interior, os cenários se repetem exaustivamente, os personagens se encontram em todos os lugares, em coincidência incríveis (afinal, só existem umas duas ruas e uma praça, além da população local beirar, o que, os 30 habitantes?).
Há, ainda, omissões históricas imperdoáveis, como a supreendente reação do povo espanhol à invasão de Napoleão - de onde surge, pela primeira vez, o sentimento de nacionalismo naquele país. Lembremos que Napoleão esperava uma vitória tranqüila, pois contava com o apoio dos “ilustrados” espanhóis (medidas liberalizantes já vinham sendo tomadas há pelo menos um par de décadas), e, mais do que isso, com a submissão do povo, que, vivendo na mais plena miséria, supostamente se encantaria pelo discurso da Revolução. O irmão de Napoleão, José I, porém, foi incapaz de se estabilizar no poder. Na parte final do filme, no entanto, os ingleses aparecem como os grandes libertadores, que, sozinhos, derrotaram o exército (ou mais bem, a carroça) napoleônico.
As possibilidades de fazer o filme eram muitas. Podia ser um filme histórico, um filme voltado para os demônios (ou fantasmas) do pintor, ou mesmo um drama romântico. Milos Forman não faz nada disso, não discute nenhum tema relevante com a profundidade necessária e, obviamente, peca pela displicência. Em 2008, exatos duzentos anos após as cenas aterradoras do quadro mais famoso de Goya, as execuções 3 de maio, estamos em um bom momento para rever a figura do pintor espanhol, suas conquistas e seu legado. Forman joga na lata do lixo uma grande chance.
sexta-feira, 18 de janeiro de 2008
Reaprendendo a andar
Às vezes, não sei por que, bate uma melancolia muito chata. Acho que é melancolia, sei lá. Hoje, aqui em São Paulo, fui ver um filme – muito fraco – chamado “Em Paris”. O filme em si não tem nada a ver com isso. A história é ruim, os atores são fracos, a direção é pretensiosa e falha. Quase não prestei atenção. Já estava assim antes do filme, enquanto tomava um café no Starbucks. Saí da sala de cinema ansioso, não sei com que. Atravessei a Paulista onde não devia, passei da rua que teria que entrar, deixei de jantar no restaurante que havia planejado e peguei um taxi – e isso tudo propositalmente, porque eu sabia exatamente para onde deveria ir. Mas, não sei como explicar, fazia a escolha errada.
Talvez a melancolia seja exatamente por isso: eu fico cada vez mais com impressão de que tenho as opções certas, tanto as que crio quanto as que aparecem “por acaso”, mas, na hora de executar, faço coisas estranhas ou, o que é ainda pior, não faço nada (que também é uma escolha). No fundo, não sei se isso faz alguma diferença. Hamlet, por exemplo, tinha certeza que estava fazendo a coisa certa. Resolveu “ser”, afinal. Mostrou-se um desastre, um herói fracassado, precipitado, que entregou ao inimigo seu valioso reino. Hamlet, em tempos sombrios e angustiados, sempre me vem à mente, mas nunca consigo chegar a qualquer conclusão ou resposta. Só sei que estou cansado. Vale lembrar que há três dias não falo com nenhum amigo, com ninguém mais próximo. Talvez seja o duro (re)aprendizado da solidão, que, no fundo, é bom e necessário. Muito necessário.
Os dias aqui em São Paulo estão ótimos, tenho feito muitas e muitas coisas, conhecido muitos lugares novos, tenho andado sem parar e seguido a recomendação de Camus: a única forma de conhecer uma cidade é perdendo-se nela. Sempre que viajo gosto de levar o aforismo a sério. Entro em ruas aleatórias e ando, ando e ando. Descubro um pouco mais da cidade e - lugar comum mor - um pouco mais de mim mesmo. Às vezes paro, tomo um café, leio um livro ou o jornal. E penso, penso como não fazia há meses. Tenho dormido umas cinco horas por dia, pois deito na cama, reflito sobre o que passou, sobre o amanhã, sobre mim. Acordo cedo e bem disposto. Os machucados e bolhas no pé, que fiz de tanto andar, não incomodam.
Talvez a melancolia seja exatamente por isso: eu fico cada vez mais com impressão de que tenho as opções certas, tanto as que crio quanto as que aparecem “por acaso”, mas, na hora de executar, faço coisas estranhas ou, o que é ainda pior, não faço nada (que também é uma escolha). No fundo, não sei se isso faz alguma diferença. Hamlet, por exemplo, tinha certeza que estava fazendo a coisa certa. Resolveu “ser”, afinal. Mostrou-se um desastre, um herói fracassado, precipitado, que entregou ao inimigo seu valioso reino. Hamlet, em tempos sombrios e angustiados, sempre me vem à mente, mas nunca consigo chegar a qualquer conclusão ou resposta. Só sei que estou cansado. Vale lembrar que há três dias não falo com nenhum amigo, com ninguém mais próximo. Talvez seja o duro (re)aprendizado da solidão, que, no fundo, é bom e necessário. Muito necessário.
Os dias aqui em São Paulo estão ótimos, tenho feito muitas e muitas coisas, conhecido muitos lugares novos, tenho andado sem parar e seguido a recomendação de Camus: a única forma de conhecer uma cidade é perdendo-se nela. Sempre que viajo gosto de levar o aforismo a sério. Entro em ruas aleatórias e ando, ando e ando. Descubro um pouco mais da cidade e - lugar comum mor - um pouco mais de mim mesmo. Às vezes paro, tomo um café, leio um livro ou o jornal. E penso, penso como não fazia há meses. Tenho dormido umas cinco horas por dia, pois deito na cama, reflito sobre o que passou, sobre o amanhã, sobre mim. Acordo cedo e bem disposto. Os machucados e bolhas no pé, que fiz de tanto andar, não incomodam.
Se alguém estivesse aqui comigo possivelmente sairia correndo, porque tenho opiniões sobre tudo, comentários constantes sobre o tempo, os prédios, os quadros dos museus, as pessoas. Estou com uma vontade enorme de escrever e faço apontamentos constantes. Mas volta e meia essa melancolia, ou coisa do tipo, bate, e me incomoda demais. Vamos ver como lido com ela amanhã.
Rio de Janeiro
Os ares de São Paulo me investiram de um certo anti-carioquismo.
*Estou incomunicável no celular (e ainda fui assaltado por um trombadinha chamado Vivo). Se alguém precisar falar comigo, mande um e-mail.
Eu não sei como alguém pode não ter um certo nojo do Rio de Janeiro. Eu não sei como alguém pode achar o povo carioca especial. Nada funciona no Rio, nada é respeitado por essas plagas. Admito que essa cidade até tem algumas qualidades naturais. Aliás, o Rio só é lembrado por seus atributos físicos. È como aquela mulher que tem um belo corpo e nada na cabeça. E a mulher em questão ainda é porca e imunda. Pra continuar na imagem, é uma garota que fez umas lipoaspirações, colocou uns silicones e estragou tudo, ficou toda deformada. Não há nada que o carioca tenha tocado que não tenha piorado: as florestas são destruídas, as praias poluídas e... bem, é só isso também. Falta planejamento urbano, falta bom gosto, falta inteligência. Não é questão de dinheiro simplesmente, vejam bem. Há locais caríssimos e que são feitos, aparentemente, em homenagem à deusa da feiúra.
O carioca, me parece, é o povo mais acostumado com o fazer de qualquer jeito. Tudo está bom, tudo é motivo para dar risada. Gente que não se irrita me causa uma certa desconfiança. Outro dia o ônibus demorou 15 minutos para andar 15 metros na principal rua do meu bairro simplesmente porque meia-dúzia de crianças faziam um desfile sem sentido. E os passageiros não estavam nem aí, achavam aquilo bonito que só. Poucos são os cariocas que eu conheço, aliás, que se preocupam com horário. O metrô que não funciona, o ônibus que fica engarrafado, as pessoas que não andam na escada rolante e ninguém se chateia, ninguém reclama... Aliás, se há um modo de medir a falta de civilidade é andar ou não andar na escada rolante. Qual a dificuldade de entender que uma metade é para quem quer descansar e a outra para quem precisa cumprir um horário? Metrô do Rio, estação da Carioca, oito horas da manhã. As pessoas se acotovelam para sair do vagão, se batem, se empurram, saem correndo porta afora e quando chegam na escada rolante... Param! Por que, meu deus, por quê?
O Rio não é um bom lugar para se viver. É uma paisagem feia em sua esmagadora maioria, com pessoas que não velem a pena. Eu nunca criei projetos a longo prazo (nem a médio, diga-se), mas começo a pensar que sair do Rio pode ser um bom plano. Eu não quero essa cidade e ela não faz nenhuma questão da minha presença.
Para coroar esse meu post raivoso, alguns trechos do Retrato do Brasil, do Paulo Prado, sobre a cidade de São Sebastião. Paulo Prado escrevia sobre o Rio do século XIX. Eu acho que as coisas pioraram...
“O Rio pouco se diferenciava da Bahia”.
“era uma das mais imundas associações de homens debaixo do céu”.
“o aspecto da gente era desagradável”.
“o clima quente, a falta de asseio, a carne de porco, produziam terríveis doenças de pele”.
“[os fluminenses] pouco se preocupavam com os mais comezinhos princípios da verdade, da propriedade particular ou das virtudes domésticas”.
“como alimento espiritual (…) apenas dois ou três vendedores de alfarrábios possuíam algumas obras obsoletas de teologia ou medicina”.
“em geral era grande a proporção de caracteres duvidosos” .
“não havia em toda a cidade uma só escova de dentes: limpavam-nos com os dedos".
*Estou incomunicável no celular (e ainda fui assaltado por um trombadinha chamado Vivo). Se alguém precisar falar comigo, mande um e-mail.
Eu não sei como alguém pode não ter um certo nojo do Rio de Janeiro. Eu não sei como alguém pode achar o povo carioca especial. Nada funciona no Rio, nada é respeitado por essas plagas. Admito que essa cidade até tem algumas qualidades naturais. Aliás, o Rio só é lembrado por seus atributos físicos. È como aquela mulher que tem um belo corpo e nada na cabeça. E a mulher em questão ainda é porca e imunda. Pra continuar na imagem, é uma garota que fez umas lipoaspirações, colocou uns silicones e estragou tudo, ficou toda deformada. Não há nada que o carioca tenha tocado que não tenha piorado: as florestas são destruídas, as praias poluídas e... bem, é só isso também. Falta planejamento urbano, falta bom gosto, falta inteligência. Não é questão de dinheiro simplesmente, vejam bem. Há locais caríssimos e que são feitos, aparentemente, em homenagem à deusa da feiúra.
O carioca, me parece, é o povo mais acostumado com o fazer de qualquer jeito. Tudo está bom, tudo é motivo para dar risada. Gente que não se irrita me causa uma certa desconfiança. Outro dia o ônibus demorou 15 minutos para andar 15 metros na principal rua do meu bairro simplesmente porque meia-dúzia de crianças faziam um desfile sem sentido. E os passageiros não estavam nem aí, achavam aquilo bonito que só. Poucos são os cariocas que eu conheço, aliás, que se preocupam com horário. O metrô que não funciona, o ônibus que fica engarrafado, as pessoas que não andam na escada rolante e ninguém se chateia, ninguém reclama... Aliás, se há um modo de medir a falta de civilidade é andar ou não andar na escada rolante. Qual a dificuldade de entender que uma metade é para quem quer descansar e a outra para quem precisa cumprir um horário? Metrô do Rio, estação da Carioca, oito horas da manhã. As pessoas se acotovelam para sair do vagão, se batem, se empurram, saem correndo porta afora e quando chegam na escada rolante... Param! Por que, meu deus, por quê?
O Rio não é um bom lugar para se viver. É uma paisagem feia em sua esmagadora maioria, com pessoas que não velem a pena. Eu nunca criei projetos a longo prazo (nem a médio, diga-se), mas começo a pensar que sair do Rio pode ser um bom plano. Eu não quero essa cidade e ela não faz nenhuma questão da minha presença.
***
Para coroar esse meu post raivoso, alguns trechos do Retrato do Brasil, do Paulo Prado, sobre a cidade de São Sebastião. Paulo Prado escrevia sobre o Rio do século XIX. Eu acho que as coisas pioraram...
“O Rio pouco se diferenciava da Bahia”.
“era uma das mais imundas associações de homens debaixo do céu”.
“o aspecto da gente era desagradável”.
“o clima quente, a falta de asseio, a carne de porco, produziam terríveis doenças de pele”.
“[os fluminenses] pouco se preocupavam com os mais comezinhos princípios da verdade, da propriedade particular ou das virtudes domésticas”.
“como alimento espiritual (…) apenas dois ou três vendedores de alfarrábios possuíam algumas obras obsoletas de teologia ou medicina”.
“em geral era grande a proporção de caracteres duvidosos” .
“não havia em toda a cidade uma só escova de dentes: limpavam-nos com os dedos".
segunda-feira, 14 de janeiro de 2008
Minha primeira vez
Caminhava tenso. Não conseguia esconder a ansiedade pelo que me aguardava. Sabia, no entanto, que teria que fazer isso mais cedo ou mais tarde – é da vida, como dizem. Não tinha, portanto, o que temer ou me envergonhar.
Cheguei ao prédio em cima da hora. Não queria chegar nem atrasado – seria deselegante – e nem adiantado – tinha um certo medo de que alguém me visse naquele lugar. Fui direto, com passo firme e sem olhar para os lados, em direção à recepção. A pessoa que lá estava perguntou para onde eu ia. Mostrei, com certo embaraço, o papel amassado com o nome da moça com quem eu deveria me encontrar. Ela não me olhou no rosto, com eu já imaginava. Só perguntou meu nome, o que me deixou ainda mais constrangido. Interfonou, falou umas poucas palavras e me mandou subir, dizendo que me esperavam. Foi bastante seca. Talvez fosse uma pessoa de poucas palavras, talvez apenas cumprisse ordens da casa. De qualquer modo, me apontou a direção e disse algo que não pude compreender muito bem (me pareceu um “boa sorte”).
Subi as estreitas escadas com vagar. Evitei o elevador porque temia encontrar algum conhecido. Conscientemente queria adiar aquele momento. A cada degrau que pisava, no entanto, apenas conseguia imaginar o olhar de reprovação de meus amigos, suas risadas histéricas e suas piadinhas infames: “você nunca fez isso, mané?”, “tá com medinha, é?”, “tú é homem ou o quê?”. Aquilo me apavorava. Minhas mãos e pernas tremiam. Eu, que nunca suo, já podia perceber uma gota escorrendo em minha testa. Pensei que isso podia atrapalhar o que estava por vir, e eu queria – precisava – ter um bom rendimento. Estava ainda no segundo andar quando sentei nas escadas. Refleti um pouco sobre aquele momento e me dei conta de que era tudo uma grande bobagem, que eu só deveria fazer isso quando chegasse a hora, quando me sentisse bem. Por outro lado, achei melhor enfrentar meus medos. Aquele instante poderia, de alguma forma, me tornar mais maduro. Conferi se tudo estava em seu devido lugar. Respirei fundo e me levantei.
Cheguei no andar indicado. Olhei atentamente para os lados e não vi ninguém. Sempre procurando olhar para baixo, segui até o meu destino. Trêmulo, toquei a campainha. “Como ela seria?” “Será que era simpática e delicada, ou fazia o estilo durona?” “E se, por algum acaso, não fosse uma mulher, que faria eu? Correria?”. Isso tudo me passou pela cabeça naqueles poucos segundos.
Rapidamente, a moça abriu a porta e me olhou de cima a baixo. A primeira coisa que me veio à mente foi se eu estava usando a roupa adequada. Havia esquecido de me informar sobre isso e vesti qualquer coisa bem confortável, afinal a roupa não duraria muito em meu corpo, imaginava. Ela, enfim, me convidou para entrar. Era como eu previa: poucas roupas, mas as que vestia eram curtas e apertadas. Tinha a pele morena e curvas bem torneadas. Era muito bonita, na verdade, mais do que eu pensava. Era simpática e foi logo me oferecendo um copo d’água.
Estava tão tenso que aceitei. Tive tempo de reparar no ambiente. Cheirava a produto de limpeza. O quarto era bem pequeno e uma espécie de cama ocupava praticamente todo o espaço, o que me pareceu bastante lógico. Ela retirou o copo e perguntou meu nome. Respondi e, quando ia perguntar o nome dela, percebi que seria um tanto indelicado, afinal eu deveria saber. Ela também deveria saber o meu, e penso que de fato sabia – fez isso apenas para quebrar o gelo. Perguntou minha idade (comentou que realmente já estava na hora de fazer aquilo) e onde eu morava. Fui bastante direto nas respostas, pois tudo que eu não queria era criar alguma intimidade. A moça me perguntou, então, o que eu desejava fazer. Hesitei um momento. Disse que não sabia, que haviam me dito que seria ela que indicaria o que devia ou não fazer. Depois pensei que isso só comprovava meu despreparo e até uma certa negligência. Pior é que acho que era verdade. Ela, no entanto, não demonstrou qualquer reação. Talvez fosse normal, ainda mais em pessoas da minha idade.
Após mais alguma (pouca) conversa, ela pediu que tirasse a camisa. Achei normal. O nervosismo, no entanto, me deixou atrapalhado, mas ela me ajudou. Com delicadeza, passou as mãos nas minhas costas e no meu ombro. Perguntou se eu fazia natação. Pensei nisso como um elogio e falei, contente, que sim (na época eu realmente fazia natação). Ela, então, segurou meus braços e minha cintura, olhando com cuidado todo o resto. Mandou que eu me sentasse na cama. Respirei fundo – ainda estava muito tenso – e sentei. Ela disse para eu relaxar, que isso era importante. Mandou, agora, que retirasse a bermuda e o tênis. Gelei mais uma vez. Não esperava que fosse tão rápido. Pensei em puxar alguma conversa, mas nada me veio à mente. O mesmo procedimento dos braços e costas se repetiu em minhas pernas, panturrilhas e pés: ela segurava e apalpava vagarosamente.
Quando imaginei que fosse deitar na cama, eis a surpresa: “agora, para o chão”. Achei aquilo bastante impositivo. Fiquei atônito. “No chão?! Meu deus! Ele é tão gelado e desconfortável! Já estou arrependido de ter vindo aqui...”, pensei. Ela, no entanto, não se comovia com o meu olhar. E era um olhar de desespero, não tenho dúvida. Percebendo que eu não me movia, repetiu, ainda mais agressiva: “para o chão, por favor”. Lembrei de algo importante naquele momento: ela tinha hora. Não podia exceder aquele limite. Aturdido, corri para o chão. “Quanto mais rápido melhor” passou a ser minha palavra de ordem.
Deitei ali, naquele chão gélido. Ela se aproximou. Minha ansiedade, somada ao desgaste físico intenso daquele momento, me fez desfalecer por alguns instantes. A verdade é que não lembro de mais nada. Quando me restabeleci estava já na cama. Não sabia como havia parado ali, e muito menos o que tinha feito durante aquele tempo todo. Só sei que meus braços, minhas pernas e sobretudo minha barriga doíam um bocado (dores que duraram dias). Fosse o que fosse, deve ter sido algo bem pesado e intenso.
Ela me olhou impávida, como se nada houvesse ocorrido ali. Disse que tinha ido tudo muito bem e que eu estava preparado. Achei gozado ela não ter reparado no meu mal-estar, mas preferi não comentar. Olhei para ela e, não sabendo o que dizer, simplesmente lhe entreguei o cheque. Sim, também achei rude, mas estava tão cansado que não conseguia pensar em nada mais. Despedi-me com um “tchau” bastante simplório. Ela também não queria muito assunto, possivelmente minha hora (modo de dizer, pois era bem menos tempo do que isso) já havia passado e ela precisava arrumar as coisas para a próxima pessoa que chegasse.
Saí dolorido, mas muito mais relaxado. Continuava, no entanto, ainda muito preocupado. Não queria que ninguém me visse ali. Eu, alguém que sempre respeitou os bons costumes, a discrição e o decoro, estava usando bermudas (não era o Francis que dizia que “bermuda e boné caracterizam um idiota”?), naquele ambiente que nada tinha a ver com a minha personalidade. Andei rapidamente, sempre olhando para baixo, claro. Olhava para os lados apenas para ter certeza de que nenhum conhecido estava por perto. Cheguei na recepção e fiz um gesto para a recepcionista, pois achei que seria delicado. Saí na rua e me misturei na multidão, andando como se nada houvesse acontecido, e pensando, com um certo sorriso bobo nos lábios, que, enfim, havia passado pelo meu primeiro exame médico da academia de ginástica.
Cheguei ao prédio em cima da hora. Não queria chegar nem atrasado – seria deselegante – e nem adiantado – tinha um certo medo de que alguém me visse naquele lugar. Fui direto, com passo firme e sem olhar para os lados, em direção à recepção. A pessoa que lá estava perguntou para onde eu ia. Mostrei, com certo embaraço, o papel amassado com o nome da moça com quem eu deveria me encontrar. Ela não me olhou no rosto, com eu já imaginava. Só perguntou meu nome, o que me deixou ainda mais constrangido. Interfonou, falou umas poucas palavras e me mandou subir, dizendo que me esperavam. Foi bastante seca. Talvez fosse uma pessoa de poucas palavras, talvez apenas cumprisse ordens da casa. De qualquer modo, me apontou a direção e disse algo que não pude compreender muito bem (me pareceu um “boa sorte”).
Subi as estreitas escadas com vagar. Evitei o elevador porque temia encontrar algum conhecido. Conscientemente queria adiar aquele momento. A cada degrau que pisava, no entanto, apenas conseguia imaginar o olhar de reprovação de meus amigos, suas risadas histéricas e suas piadinhas infames: “você nunca fez isso, mané?”, “tá com medinha, é?”, “tú é homem ou o quê?”. Aquilo me apavorava. Minhas mãos e pernas tremiam. Eu, que nunca suo, já podia perceber uma gota escorrendo em minha testa. Pensei que isso podia atrapalhar o que estava por vir, e eu queria – precisava – ter um bom rendimento. Estava ainda no segundo andar quando sentei nas escadas. Refleti um pouco sobre aquele momento e me dei conta de que era tudo uma grande bobagem, que eu só deveria fazer isso quando chegasse a hora, quando me sentisse bem. Por outro lado, achei melhor enfrentar meus medos. Aquele instante poderia, de alguma forma, me tornar mais maduro. Conferi se tudo estava em seu devido lugar. Respirei fundo e me levantei.
Cheguei no andar indicado. Olhei atentamente para os lados e não vi ninguém. Sempre procurando olhar para baixo, segui até o meu destino. Trêmulo, toquei a campainha. “Como ela seria?” “Será que era simpática e delicada, ou fazia o estilo durona?” “E se, por algum acaso, não fosse uma mulher, que faria eu? Correria?”. Isso tudo me passou pela cabeça naqueles poucos segundos.
Rapidamente, a moça abriu a porta e me olhou de cima a baixo. A primeira coisa que me veio à mente foi se eu estava usando a roupa adequada. Havia esquecido de me informar sobre isso e vesti qualquer coisa bem confortável, afinal a roupa não duraria muito em meu corpo, imaginava. Ela, enfim, me convidou para entrar. Era como eu previa: poucas roupas, mas as que vestia eram curtas e apertadas. Tinha a pele morena e curvas bem torneadas. Era muito bonita, na verdade, mais do que eu pensava. Era simpática e foi logo me oferecendo um copo d’água.
Estava tão tenso que aceitei. Tive tempo de reparar no ambiente. Cheirava a produto de limpeza. O quarto era bem pequeno e uma espécie de cama ocupava praticamente todo o espaço, o que me pareceu bastante lógico. Ela retirou o copo e perguntou meu nome. Respondi e, quando ia perguntar o nome dela, percebi que seria um tanto indelicado, afinal eu deveria saber. Ela também deveria saber o meu, e penso que de fato sabia – fez isso apenas para quebrar o gelo. Perguntou minha idade (comentou que realmente já estava na hora de fazer aquilo) e onde eu morava. Fui bastante direto nas respostas, pois tudo que eu não queria era criar alguma intimidade. A moça me perguntou, então, o que eu desejava fazer. Hesitei um momento. Disse que não sabia, que haviam me dito que seria ela que indicaria o que devia ou não fazer. Depois pensei que isso só comprovava meu despreparo e até uma certa negligência. Pior é que acho que era verdade. Ela, no entanto, não demonstrou qualquer reação. Talvez fosse normal, ainda mais em pessoas da minha idade.
Após mais alguma (pouca) conversa, ela pediu que tirasse a camisa. Achei normal. O nervosismo, no entanto, me deixou atrapalhado, mas ela me ajudou. Com delicadeza, passou as mãos nas minhas costas e no meu ombro. Perguntou se eu fazia natação. Pensei nisso como um elogio e falei, contente, que sim (na época eu realmente fazia natação). Ela, então, segurou meus braços e minha cintura, olhando com cuidado todo o resto. Mandou que eu me sentasse na cama. Respirei fundo – ainda estava muito tenso – e sentei. Ela disse para eu relaxar, que isso era importante. Mandou, agora, que retirasse a bermuda e o tênis. Gelei mais uma vez. Não esperava que fosse tão rápido. Pensei em puxar alguma conversa, mas nada me veio à mente. O mesmo procedimento dos braços e costas se repetiu em minhas pernas, panturrilhas e pés: ela segurava e apalpava vagarosamente.
Quando imaginei que fosse deitar na cama, eis a surpresa: “agora, para o chão”. Achei aquilo bastante impositivo. Fiquei atônito. “No chão?! Meu deus! Ele é tão gelado e desconfortável! Já estou arrependido de ter vindo aqui...”, pensei. Ela, no entanto, não se comovia com o meu olhar. E era um olhar de desespero, não tenho dúvida. Percebendo que eu não me movia, repetiu, ainda mais agressiva: “para o chão, por favor”. Lembrei de algo importante naquele momento: ela tinha hora. Não podia exceder aquele limite. Aturdido, corri para o chão. “Quanto mais rápido melhor” passou a ser minha palavra de ordem.
Deitei ali, naquele chão gélido. Ela se aproximou. Minha ansiedade, somada ao desgaste físico intenso daquele momento, me fez desfalecer por alguns instantes. A verdade é que não lembro de mais nada. Quando me restabeleci estava já na cama. Não sabia como havia parado ali, e muito menos o que tinha feito durante aquele tempo todo. Só sei que meus braços, minhas pernas e sobretudo minha barriga doíam um bocado (dores que duraram dias). Fosse o que fosse, deve ter sido algo bem pesado e intenso.
Ela me olhou impávida, como se nada houvesse ocorrido ali. Disse que tinha ido tudo muito bem e que eu estava preparado. Achei gozado ela não ter reparado no meu mal-estar, mas preferi não comentar. Olhei para ela e, não sabendo o que dizer, simplesmente lhe entreguei o cheque. Sim, também achei rude, mas estava tão cansado que não conseguia pensar em nada mais. Despedi-me com um “tchau” bastante simplório. Ela também não queria muito assunto, possivelmente minha hora (modo de dizer, pois era bem menos tempo do que isso) já havia passado e ela precisava arrumar as coisas para a próxima pessoa que chegasse.
Saí dolorido, mas muito mais relaxado. Continuava, no entanto, ainda muito preocupado. Não queria que ninguém me visse ali. Eu, alguém que sempre respeitou os bons costumes, a discrição e o decoro, estava usando bermudas (não era o Francis que dizia que “bermuda e boné caracterizam um idiota”?), naquele ambiente que nada tinha a ver com a minha personalidade. Andei rapidamente, sempre olhando para baixo, claro. Olhava para os lados apenas para ter certeza de que nenhum conhecido estava por perto. Cheguei na recepção e fiz um gesto para a recepcionista, pois achei que seria delicado. Saí na rua e me misturei na multidão, andando como se nada houvesse acontecido, e pensando, com um certo sorriso bobo nos lábios, que, enfim, havia passado pelo meu primeiro exame médico da academia de ginástica.
sexta-feira, 11 de janeiro de 2008
Humor lusitano
Piadas de português, literalmente. Esse grupo de humor, Gato Fedorento, é simplesmente demais. Uma espécie de Monty Python da terrinha. Há tempos não me divertia tanto.
Há dezenas de vídeos deles no Youtube. Eu não consigo parar de ver.
Há dezenas de vídeos deles no Youtube. Eu não consigo parar de ver.
quarta-feira, 9 de janeiro de 2008
O fato é que eu não tenho vontade de escrever sobre nada. Escrever, aliás, não é uma necessidade para mim. Pode ser em um período ou outro, mas não é nada vital.
Para não deixar isso aqui morrer, vou escrever, de forma curta e grossa (e possivelmente estúpida, hehe), sobre assuntos que foram instados nos comentários:
- Aquecimento global: não acho um embuste, mas alarmista sim. Os meteorologistas não conseguem prever o dia de amanhã, quanto mais o futuro da humanidade. Além do mais, não há provas satisfatórias: os dados são muito vagos, alguns até distorcidos. “Ah, mas está fazendo um calor absurdo! As geleiras estão derretendo!”. Peculiaridades climáticas são uma constante na história humana, assim como grandes ondas de calor e de frio. Quando estava na escola, passaram um vídeo dizendo que o planeta Terra estava entrando em determinada posição que beneficiava as grande catástrofes naturais. Não sei se é verdade, mas é uma possibilidade (que me soa pífia). E mesmo que seja uma mentira grotesca, viram como é fácil fazer um documentário e impressionar crianças?
- Últimos filmes vistos:
* Beowulf: filme interessante, feito em “motion capture” (acho que é isso), que narra a antiga e famosa lenda anglo-saxã. É um épico muito bem feito, extremamente divertido, com muita ação, lutas com monstros, batalhas e afins. No início me incomodei um pouco com o sistema de animação, mas depois me acostumei. Bom filme para se comer pipoca e tomar refrigerante, ou seja, o típico cinemão que tanto me agrada.
* No Country for Old Men: quando o filme dos irmãos Coen estrear no circuito pretendo escrever mais sobre ele. Filmaço, como há tempos não via. O Javier Bardem faz um personagem que vai entrar para a lista dos grandes psicopatas da história do cinema: absolutamente assustador. Apesar de todo mundo que viu o filme comigo discordar, é um filme que, me parece, tem como figura central o personagem de Tommy Lee Jones e, mais do que isso, a própria América “profunda”, e suas mudanças. Daí o título do filme (e do livro homônimo), que retoma o memorável poema do W.B. Yeats, “Sailing to Byzantium”. Como o próprio poema diz: “An aged man is but a paltry thing, / A tattered coat upon a stick, unless / Soul clap its hands and sing, and louder sing / For every tatter in its mortal dress”.
* Paranoid Park: "Filme artístico for dummies", by Chico
* Candy: Filme sobre um casal de drogadas. Nada me desestimula tanto. Pesado demais, com cenas de mau gosto e personagens desinteressantes. Não chega a ser um filme exatamente ruim, mas nunca alugaria.
Há mais. Depois continuo.
Para não deixar isso aqui morrer, vou escrever, de forma curta e grossa (e possivelmente estúpida, hehe), sobre assuntos que foram instados nos comentários:
- Aquecimento global: não acho um embuste, mas alarmista sim. Os meteorologistas não conseguem prever o dia de amanhã, quanto mais o futuro da humanidade. Além do mais, não há provas satisfatórias: os dados são muito vagos, alguns até distorcidos. “Ah, mas está fazendo um calor absurdo! As geleiras estão derretendo!”. Peculiaridades climáticas são uma constante na história humana, assim como grandes ondas de calor e de frio. Quando estava na escola, passaram um vídeo dizendo que o planeta Terra estava entrando em determinada posição que beneficiava as grande catástrofes naturais. Não sei se é verdade, mas é uma possibilidade (que me soa pífia). E mesmo que seja uma mentira grotesca, viram como é fácil fazer um documentário e impressionar crianças?
- Últimos filmes vistos:
* Beowulf: filme interessante, feito em “motion capture” (acho que é isso), que narra a antiga e famosa lenda anglo-saxã. É um épico muito bem feito, extremamente divertido, com muita ação, lutas com monstros, batalhas e afins. No início me incomodei um pouco com o sistema de animação, mas depois me acostumei. Bom filme para se comer pipoca e tomar refrigerante, ou seja, o típico cinemão que tanto me agrada.
* No Country for Old Men: quando o filme dos irmãos Coen estrear no circuito pretendo escrever mais sobre ele. Filmaço, como há tempos não via. O Javier Bardem faz um personagem que vai entrar para a lista dos grandes psicopatas da história do cinema: absolutamente assustador. Apesar de todo mundo que viu o filme comigo discordar, é um filme que, me parece, tem como figura central o personagem de Tommy Lee Jones e, mais do que isso, a própria América “profunda”, e suas mudanças. Daí o título do filme (e do livro homônimo), que retoma o memorável poema do W.B. Yeats, “Sailing to Byzantium”. Como o próprio poema diz: “An aged man is but a paltry thing, / A tattered coat upon a stick, unless / Soul clap its hands and sing, and louder sing / For every tatter in its mortal dress”.
* Paranoid Park: "Filme artístico for dummies", by Chico
* Candy: Filme sobre um casal de drogadas. Nada me desestimula tanto. Pesado demais, com cenas de mau gosto e personagens desinteressantes. Não chega a ser um filme exatamente ruim, mas nunca alugaria.
Há mais. Depois continuo.
sexta-feira, 4 de janeiro de 2008
A sorte de hoje do Orkut, again
Eu precisava escrever isso aqui:
Sorte de hoje: Você vai ganhar roupas novas
Sério, quem eles contratam pra escrever essas "previsões"?
Sorte de hoje: Você vai ganhar roupas novas
Sério, quem eles contratam pra escrever essas "previsões"?
quinta-feira, 3 de janeiro de 2008
Destino
Os homens contribuem para o próprio destino, determinam certos fatos que vão acontecer com eles. Chamam o destino, apertam-no contra si e não se separam mais dele. Agem desse modo mesmo sabendo desde o início que estes atos terão resultados nefastos. O homem e seu destino se realizam reciprocamente, moldando-se um no outro. Não é verdade que o destino se introduz às escondidas em nossa vida: entra pela porta que nós mesmos escancaramos, pondo-nos de lado para convidá-lo a entrar.
General Henrik, In As brasas, de Sándor Márai
General Henrik, In As brasas, de Sándor Márai
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