quarta-feira, 2 de abril de 2008

Porque “A insustentável leveza do ser” é e não é um grande livro

*Texto escrito no início do ano. Esqueci completamente de publicar aqui.

“A insustentável leveza do ser” é um romance menor, mas um livro extraordinário. A história contada não tem nada de especial ou empolgante, os relacionamentos entre os personagens são cansativos, a narração – excessivamente fragmentada – não prende muito a atenção (parece que falta mesmo fôlego a Milan Kundera), chegando até a ser aborrecida em alguns momentos. Como libelo político, também não desperta maiores interesses, beirando o simplismo, por explicitar mais do que esconder. Literatura e panfletagem não costumam andar abraçadas.

No entanto, se tivesse que fazer uma lista de livros de cabeceira – e eu chamo de livros de cabeceira aqueles que podem ser abertos aleatoriamente, no meio de uma noite de angústia, para nos fazer companhia imediata, ou seja, livros que levaríamos para cama – sem dúvida a obra de Kundera estaria ao lado de umas outras poucas, como “O Guardador de Rebanhos”, de Alberto Caeiro, os “Ensaios”, do Montaigne ou “Zorba o Grego”, de Nikos Kazantzakis. “A insustentável leveza” não é um livro sobre amor, sexo e erotismo, como costuma ser classificado. Ou, pelo menos, não pode ser resumido a isso. É, no fundo, um retrato bastante impressionista sobre a capacidade humana de fazer escolhas e lidar com as suas conseqüências. O quão pesadas e ingratas são as escolhas em um mundo em que não sabemos nunca perfeitamente o que queremos, já que não podemos adivinhar os resultados de nossas ações! Esse, aliás, é talvez o mais instigante tema literário de todos os tempos.

“Tudo é vivido pela primeira vez e sem reparação”. Essa frase ecoou por dias (noites, na verdade) em minha mente. É uma outra faceta de algo que eu chamei aqui de “insegurança ontológica” (o termo não tem a ver com os conceitos sociológicos e psicológicos): viver é uma aventura constante porque não temos certeza nem de nós mesmo. Nem nossos atos, após serem praticados, nos pertencem mais de forma integral. Gosto da imagem do filósofo espanhol Ortega y Gasset, que dizia que a vida humana é como um naufrágio, e que viver é se debater e lutar em um mar revolto. Ainda segundo o filósofo, a única forma de segurança que temos é o ensimesmamento, ou seja, o retorno ao Eu, ao tal “fundo insubornável”. Mas isso é tema para outros textos.

Voltando à frase que me tirou o sono, como é possível viver sabendo-se esmagado por essa leveza extraordinária que é a fluidez do rio heraclitiano? Como sugeria Beethoven, não é muito melhor o frio e grave coro do “Es muss sein!” (Tem de ser!). “A insustentável leveza” é um livro que passeia por essa questão fundamental e irresolúvel, que é o balanço tênue entre determinismos e voluntarismos: de um lado, somos esmagados por escolhas alheias a nós, de outro, pelas responsabilidades que nossas escolhas impõem já que, se não há reparação, isso significa estas são absolutamente capitais, pesadas e graves.

Como todo grande livro de cabeceira, “A insustentável leveza” não fornece respostas, mas sim provoca questões e indagações. Ao contrário do viés político da obra, as perguntas fundamentais desse “quase-ensaio” de Kundera estão escondidas e embaralhadas, e merecem uma introspecção profunda. O grande personagem do livro não é Tomas ou Tereza, mas sim o leitor – esse sim, profundo – que se defronta e se vê obrigado a digladiar com certas questões universais que parecem evidentes, mas que encobrem, na verdade, essa tal “insustentável leveza”. Em determinado momento, o narrador recomenda que para procurar o infinito, basta fechar os olhos. Eu sugiro o contrário, que se aguce a visão e preste-se atenção na entrelinhas de “A insustentável leveza do ser”. A viagem, claro, é longa, e inevitavelmente não levará a conclusões, apenas a perplexidades.

Tudo bem. Cama, para mim, nunca foi lugar para dormir, mesmo.

9 comentários:

m disse...

Adorei seu texto, me deu muita vontade de ler o livro!
Gosto de ler na cama, mas gosto mais de dormir, ou não. Gosto de ler no sofá, no chão, no ônibus, na biblioteca, na praia. Na cama não é meu lugar preferido não.
É mesmo difícil viver rejeitando determinismos e sendo obrigada a lidar com o peso das próprias decisões. Penso muito nisso.

Heloisa disse...

Li este livro há alguns anos (não muitos), mas não lembrava mais dele. Ainda que pra mim não seja bem um livro de cabeceira, ele certamente me causou um impacto quando li, especialmente a história do "eterno retorno". Foi bom conhecer tua leitura do romance: de algum (ou vários) modo(s) remete ao que eu ando querendo pensar sobre...

Ticous disse...

Nem sabia que isso era um livro. Achei que fosse só um filme com nome imenso pra usarem em partidas de mímica (já usei uma vez e ganhei).

vanessa disse...

Gostei bastante do texto. Mas eu não me incomodei de modo algum com a narração fragmentada e com a relação entre os personagens. Acho que me interesso mais pelas reflexões num livro do que pela história em si, como se os pensamentos definissem mais a vida de uma pessoa do que os atos em geral. Adorei o que disse sobre o Ortega y Gasset, se aplica muito bem a mim pelo menos

Andre disse...

m: recomendo que leia o livro. Eu não tenho muito lugar preferido pra ler não, acabei me acostumando a fazer isso qualquer circunstância.

helô: penso em escrever um texto baseado no que você comentou(e no que eu já estava pensando): existem momentos para ler certos livros. O “Insustentável”, pelo contrário, não teve nenhum grande impacto em mim, apesar do texto dar margem para pensar isso. Mas explico em um post futuro.

Andre disse...

ticous: é tão manjado em partidas de mímica que todo mundo já adivinha.

vanessa: não é questão de pensamentos x ações, mas sim de qualidade narrativa, uma questão formal mesmo. Eu achei o livro um pouco capenga nesse aspecto. Um livro pode ser rico em idéias, mas formalmente pobre, assim como o contrário, óbvio. E não é a narração fragmentada em si que me desagrada, mas sim o modo com que ela foi desenvolvida pelo Kundera. O Lobo Antunes é a prova de que se pode narrar de forma desconexa e com muita qualidade.

Ticous disse...

Não, você não entendeu. Eu ganhei porque passei esse filme pro outro grupo e nego não acertou. Esse é sempre meu trunfo, junto com "A balada do pistoleiro" e "Ladyhawk: O feitiço de Áquila"

Chico disse...

ladyhawk não pode, é nome próprio!!!!

breves(íssimos) comentários sobre o livro: vi a peça e não gostei.

Andre disse...

ticous: entendi sim. E acho estranho eles não terem acertado, porque é manjado demais.

chico: a montagem de peças normalmente estragam os textos. Recomendo a leitura do livro.