quarta-feira, 9 de abril de 2008

O mistério de José (parte II)

Continuação do post abaixo...

Desempregado, José, descambou para o vício, e tornou-se figurinha fácil nas páginas policiais. Mas as coisas não pararam por aí. De repente o adorável símio simplesmente sumiu do mapa. Rumores da época apontaram para um briga judicial que moveria milhões de dólares e que a toda poderosa Kellogg’s não estava preparada para bancar. O macaco estaria disposto a processar seus antigos patrões por irregularidades contratuais e amigos próximos chegaram a afirmar que, em caso de vitória, a Kellogg’s estaria falida. A empresa sabia que, mesmo com todas as polêmicas e controvérsias, José era adorado pelo público e que, mal ou bem, ele foi o responsável pelo sucesso vertiginoso dos cereais de chocolate.

Mas não há nada tão ruim que não possa piorar. Em 1960 um excêntrico empresário do ramo do comércio ilegal de animais, Johansson Fritz Cabrera, compareceu aos jornais com uma revelação bombástica: ao contrário do que todos pensavam, inclusive amigos do macaco, José estava sendo era protegido pela indústria de cereais matinais. Durante semanas o escândalo voltou a ser capa dos principais tablóides do mundo, que traziam diariamente novas versões da polêmica. Ninguém sabia onde estava a ex-celebridade e a Kellogg’s recusava-se a prestar declarações. Cabrera revelara que José em realidade era um fugitivo extremamente perigoso e procurado em todos os países da América Latina. Milhões de boatos surgiam com relação aos crimes que o macaco teria cometido: de zoofilia até roubo de bananas e maçãs em feiras populares, passando pela libertação de animais de circo e a disseminação de doenças, a suposta ficha criminal de José em terras tropicais era interminável.

Após um tempo, o “caso José” começou a arrefecer até que sumiu completamente dos meios de comunicação. O primata permaneceu desaparecido e a Kellogg’s recusava-se a divulgar qualquer nota oficial sobre o escândalo. Algo misterioso, no entanto, ocorria no mundo dos cereais matinais achocolatados: as vendagens de Cocoa Krispies caíam a olhos vistos, assim como as ações da multinacional, e o sucessor de José, o já citado elefante Coco, foi sumariamente demitido. Tentando restabelecer-se no mercado, a empresa fez contrato com a gigante Hanna-Barbera, que cedeu o leão Snagglepuss por cifras milionárias (até hoje o salário mais caro do ramo). Contratado como o salvador da pátria, o leão fez pouco, e permaneceu apenas quatro anos no emprego, sendo seguido pelo pouco carismático homem das cavernas Ogg (1967-70) e por um outro elefante, Tusk, que sobreviveu dez anos na função (um recorde absoluto até então), mas teve sérios problemas ao longo de todo seu reinado e veio falecer de forma até hoje misteriosa, tendo sido encontrado morto na banheira de sua mansão, com suspeitas de overdose de antidepressivos com base de amendoim.

Após meses de negociação, três crianças assumem a função: Snap!, Crackle! e Pop!, em 1981. Mas brigas internas dissolvem o trio, que passa a freqüentar programas sensacionalistas nas modorrentas tardes dos anos 1980, nos EUA. Conta-se que Snap! roubou a namorada de Crackle! e Pop! assumiu sua homossexualidade, e se disse infeliz por ser obrigado a usar um chapéu militar, já que era pacifista de carteirinha, capaz de matar e morrer em nome de sua causa. Anos mais tarde Snap! foi acusado de abusar sexualmente de menores de idade e Crackle! tornou-se famoso por engolir isqueiros e por ameaçar retirar a exclamação de seu nome. A desgraça do cereal matinal achocolatado da Kellogg’s foi apelidada, nesse período, de “a maldição de José”.

O fenômeno só foi sanado quando um novo e misterioso mascote apareceu para substituir Snap!, Crackle! e Pop!. Era novamente um animal, de feições algo familiares. Seu nome remetia a um antigo mascote: Coco. Mas Coco não se parecia com um elefante. Olhando para ele percebia-se facilmente que se tratava, em realidade, de um macaco. Seria José, pregando sua peça final? Dificilmente saberemos a verdade, mas o fato é que Cocoa Krispies voltou a ser campeão de vendas e Coco, o macaco, estabeleceu-se, absoluto.

Algumas pistas nos deixam entrever que talvez José seja realmente Coco: primeiramente, o fato de ter adotado o nome de seu sucessor seja uma pequena piada desse símio afeito a gracinhas, depois, percebemos que em toda América, onde, como sabemos, José era procurado, o mascote na verdade é o elefante Melvin. Essa fórmula seria aquela encontrada para evitar que em viagens de divulgação do produto José pudesse ser preso quando estivesse em países como Brasil e México. Bastante discreto, o primata resolveu inclusive deixar os EUA e viver em Paris. Em 2001, por problemas de saúde, resolveu veicular sua marca apenas na Europa, e deixou espaço nos EUA para que uma briga gigantesca pelo seu espaço fosse novamente travada. Em 2001 Snap!, Crackle! e Pop! se reuniram e conseguiram voltar à ativa. O que está por trás dessa estranhíssima volta, no entanto, é assunto para outro texto.

3 comentários:

Ticous disse...

Belo texto!
Espero que você conte também a saga dos três sapequinhas, Snap!, Crackle! e Pop!. Parece promissora.
Esperava que o paradeiro do bananoso José ficasse mais claro, mas nem sempre uma reportagem investigativa conseque sanar todas as questões. Uma pena...
Isso pode virar um tese de doutorado sobre a influência dos cereais matinais na vida moderna. Pense nisso.
Se precisar de ajuda na pesquisa de sabor, pode me chamar.

m disse...

It's official, he's gone bananas!

Não como cereal de chocolate há anos, virei uma natureba chata e granolesca!

Beijão!

viu meu recado no cel?)

Pedro disse...

Fenomenal o texto!!
Me prendeu do início ao fim, quando vi que já havia saído a parte 2 da saga de O mistério de josé tive que parar tudo que estava fazendo para vir ler e comentar.
Fatos interessantissimos apresentados e se de fato o macaco Coco for José esta é sem duvida a maior de todas as piadas que ele poderia contar!
muito bom!