segunda-feira, 7 de abril de 2008

O mistério de José (parte I)

Há algo que me intriga um bocado no fantástico mundo dos cereais matinais. Vou ser curto e grosso, sem medo de ofender almas delicadas: por que diabos nos países da América (Canadá e EUA excluídos) o símbolo do Choco Krispis é o elefante Melvin e no resto do mundo é o macaco Coco? Ah, no Japão, aquele país estranho e distante, os dois são os mascotes do Choco Krispis, como vocês podem ver aqui . Aliás, nos países representados pelo Melvin, o cereal chama-se Choco Krispis, mas naqueles aonde o macaco Coco domina, o nome costuma ser Coco Pops (Inglaterra e França, por exemplo), mas nos EUA não só se chama Cocoa Krispies como o símbolo não é nem o Melvin nem o Coco, e sim três crianças élficas malucas, como vocês podem ver aqui . Na Espanha, loucura das loucuras, o cereal chama-se Choco Krispies, mas a mascote é... Coco! Confusos? Pois preparem-se, isso não é nada frente ao que está por vir.

Por que tanta desordem no mundo dos cereais de chocolate? O Froot Loops é sempre representado pelo tucano Sam, assim como o Sucrilhos pelo tigre Tony e o Corn Flakes pelo galo Cornelius, mas o nosso Choco Krispis vive cambiante, com uma personalidade distinta em cada continente, se escondendo atrás de diferentes nomes...

Investigando tão estranhos acontecimentos, quando minha mão já estava suja de tanta podridão – e estrume de elefante – envolvendo a vida secreta de Melvin, eis que chego a José, o primeiro mascote de Choco Krispis. José era um macaco magérrimo, possivelmente devido às suas péssimas condições de vida. O nome, o chapéu e a bandana acusavam: José era um imigrado, um paria na sociedade americana do final dos anos 1950. Contratado pela empresa Kellogg’s, José rapidamente ganhou fama, dinheiro e, conseqüentemente, inimigos.

De um reles fugitivo (mexicano, talvez?), o astuto macaco tornou-se uma celebridade instantânea. Seus casos com divas como Grace Kelly, Marilyn Monroe e a cadela Laika, que um ano antes havia chegado ao espaço no Sputnik, ganharam a capa dos principais tablóides norte-americanos, inúmeros jardins zoológicos eram inaugurados e o cachê de José subia a olhos vistos naquele louco ano de 1958. Consta, por exemplo, que Billy Wilder pretendia refilmar seu clássico “Crepúsculo dos deuses” apenas para poder contar com José na cena do funeral do macaco de Gloria Swanson, mas a celebridade simiesca recusou-se com o argumento de que interpretar um macaco morto seria um desperdício de talento. E quem poderia deixar de dar razão ao simpático símio, na saudosa época conhecida até hoje como “A Era dos Cereais Matinais de Flocos de Arroz Sabor Chocolate Flavorizado”?

Mas tudo tem seu preço, e o fato de José nunca ter sido alfabetizado e sequer dominar o inglês oral fazia com que qualquer coisa que ele comprasse fosse mais caro do que normalmente deveria ser. Dominado pelas possibilidades de dinheiro fácil, pela presença de falsos amigos e pela propensão a bebidas alcoólicas à base de banana, José era apanhado sucessivamente pelas lentes indecorosas de paparazzis: escândalo atrás de escândalo, seu reinado não pôde durar. Em 1959, um ano após esse imigrante ser alçado ao mais alto grau do establishment norte-americano, o elefante Coco assume a capa da embalagem do Cocoa Krispies. A sociedade americana assistia, atônita, a decadência de um de seus mais queridos ídolos.

(continua...)

15 comentários:

Pedro disse...

Nossa André você realmente gosta de Choco Krispis. Mas continue o mistério de José! Está deveras intrigante!

Rafael Abreu disse...

Acompanho ansioso o primeiro grande trabalho de jornalismo investigativo de sua lavra...
Abraços
ps: isso tá parecendo texto do cocadaboa...

Ticous disse...

Genial!
Excelente o texto, mal posso esperar pela próxima parte.
Você realmente andou estudando esse lance de cereais, né? Achei que fosse só uma curiosidade passageira!
E agora, José?

P.s.: Acho que só eu gosto de Froot Loops. No mundo inteiro.

Chico disse...

Que legal, agora você também fuma maconha!!!

Pedro disse...

hahahahahhahahhahahah
excelente observação chico!

Andre disse...

pedro: pior que eu nem gosto tanto do Choco Krispis. Prefiro muito mais o Sucrilhos.

rafael: devo tomar isso como uma crítica? Porque o Cocadaboa está decadente (e quase constrangedor) há algum tempo, hehe.
E vamos que vamos, em breve mostrarei o fundo dessa história. Fiz um curso muito sério de jornalismo investigativo na Veja. Você perde por esperar!

Andre disse...

ticous: estudo cuidadoso e muito acurado! E fato que é só você, no universo inteiro, gosta desse cereal afeminado.

chico: maconha não, cereais, você confundiu!

vanessa disse...

Que fascinação é essa por cereais ??
Só sabia o nome do tigre e para mim isso era muito... sempre ignorei as personalidades representantes dos outros cereais.
Bem, talvez vc não goste mais de mim depois de ler isso, mas eu tomo todos os dias granolla tradicional ou müslix de manhã (mas também é da kellogg's, mesmo sem mascote, são cereais “adultos”)!, portanto não entendo mais qual a grande diferença entre esses cereais q tanto fala. E eu gostava do froot loops, mesmo nunca tendo realmente comprado uma caixa.

Rafael Abreu disse...

Crítica nada. Parece matéria do cocadaboa cuja veracidade é um pouco (só pouco) questionável. Tipo quando ele disse que numa nova ofensiva da Record contra a Globo, a tv do bispo comprou os biscoitos globo só pra mudar o nome! Muito bom. E alguns sites repercutiram...
Mas de fato o cocadaboa está muito decadente! Que bom que seu modelo é o jornalismo da Veja então!

Andre disse...

vanessa: eu nunca entendi porque chamam o Sucrilhos e cia. de cereais "infantis" e granola e afins de "adultos". Esses personagens dos cereais “infantis” são fascinantes, é um mundo totalmente inexplorado que deve ser desvendado, são, assim como o Toddynho, Huguinho, Zezinho e Luisinho, grandes companheiros de aventuras. E é gostoso, ora bolas. Menos o Froot Loops, claro.

rafael: o estilo Veja é tão confiável quanto o Cocadaboa, só que o Cocadaboa é mais honesto aos seus princípios (ou pelo menos era). O meu negócio é falta completa de princípios.

Pedro disse...

Concordo! Todos são excelentes cereais! É má vontade das pessoas que os assim classificam! Menos com o Froot Loops, aquilo nem cereal é.

Pedro disse...

Jornalismo investigativo é isso aí, não é aquela merda que sai na Veja toda semana.

Escreva a biografia de José.

Garanto que vai virar filme.

vanessa disse...

hey!
eu estava me auto-sacaneando quando disse que comia cereais "adultos", por isso as aspas! a verdade é q gostava mais quando comia só sucrilhos de manhã ou honey nuts, mas numa época fatidica minha mãe concluiu q aquilo devia fazer mal aos meus dentes e também alegou não ser nutritivo...

Andre disse...

pedro: bacana você por aqui!

O problema de um filme sobre José é que o assunto é quente demais. Há muito peixe (e outros animais) grande envolvido na história. E eu, na verdade, nem queria que a Kellogg’s saísse queimada, porque dela depende meu café da manhã diário.

vanessa: mas, de qualquer forma, os Sucrilhos são considerados cereais infantis, inclusive no site da Kellogg’s. E é claro que é nutritivo, afinal é enriquecido com dez vitaminas e minerais.

Valencia's Chronicles disse...

Moro na Europa e aqui é um macaco o símbolo do cereal. Porém, na minha infância no Brasil, o macaquinho era o símbolo também. Lembro que eu adorava esse cereal e colecionava os aviões que eram para ser recortados na embalagem e serem montados depois, com cola e tudo mais.
Eu acredito que o problema no Brasil é que o macaco era magrinho e não era, para a grande massa, tão carismático quanto o elefante.
Enfim, mais um marco da minha infância desaparece das prateleiras. Realmente o tempo passa.