domingo, 27 de abril de 2008

Namoro na TV

Uma coisa que eu nunca engoli nos sitcons americanos é o incrível rodízio de namoradas (ou namorados, claro) dos personagens principais. Mesmo aqueles que reclamam da sua incompetência com mulheres acabam namorando alguma moça todo episódio (e isso dá uma namorada por semana!). O George Costanza, por exemplo. Ele é gordinho, careca, baixo, fracassado. Mesmo assim já teve várias namoradas, conhece muitas mulheres interessantes e interessadas e até se casa ao longo da série. Como isso acontece? Qual a mágica? Alguém me ensina, por favor? Simplesmente não dá pra levar a sério (ok, ok, usar o argumento “isso é um programa de tv... e ainda de comédia!” é razoavelmente válido).

Outro aspecto que sempre me chamou a atenção é a facilidade que os homens têm (y las chicas, porsupuesto) de acabar com esses relacionamentos. As moças são todas descartáveis, reparem só. Não há qualquer apego, qualquer complexidade. As parceiras são meros bibelôs, verdadeiras damas de companhia. São todas submissas e unidimensionais. E quando é uma mulher que está no controle, os homens são bobões e machos caricaturais.

Isso pode até ser uma necessidade de roteiro e enredo nesses seriados (apesar de não acreditar que seja realmente só isso). Mas, em última hipótese, esses tipos criados são plenamente capazes de moldar determinados padrões comportamentais. Ou não?

12 comentários:

Andre disse...

Outra coisa que nunca engoli nos seriados americanos: o pessoal come comida chinesa fria! Blergh!

m disse...

Péssimo exemplo, A.! George Constanza é absolutamente irresistível! Essa foto já me deixou alvoroçada! Estaria disposta a tudo para ser usada e descartada por esse espécime masculino ímpar!

Beijão!

Heloisa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Heloisa disse...

No Friends, aquele cara que morava com o Joye, e que esqueci o nome, tinha uma namorada de voz fina que ele não conseguia terminar de jeito nenhum. Os próprios Ross e Rachel nunca terminavam aquela relação louca. Enfim, às vezes acontece...
Mas depois respondo esse texto aí com calma.
E vc já leu "A arte do romance" do Kundera (não tem nada a ver com isso aqui, mas com o outro texto, sobre os livros e as horas)?
E bjs.

Heloisa disse...

Rapidinha: sobre os padrões comportamentais, vc já viu aquele terrível Gilmore Girls? Ele não apenas tem uns personagens enlouquecidos, como os diálogos são verdadeiras aulas de como se portar nos relacionamentos e em sociedade (o que não significa que sejam bons). São diálogos inteiros analisando cada ato ou explicando como a pessoa deveria se portar. Lembro uma vez que um cara havia abandonado a namorada grávida e volta mil anos depois. Numa conversa com atual namorado da mulher, o sujeito explica em detalhes para o ex que quando as mulheres acusam os homens de imaturidade (as acusações foram a razão para o sujeito largar a mulher grávida), elas, na verdade, estão é falando consigo próprias, num processo de auto-análise em voz alta, numa espécie de auto-bronca que utiliza o outro como bode expiatório. Assustador! E as personagens têm dúvidas constantes e vivem discutindo T-U-D-O. Não há silêncio. Fala-se o tempo todo. Quando eu assisti a primeira vez, eu quase fiquei louca.

Andre disse...

helô: de fato há exceções, mas mesmo em Friends, pelo que me lembro, a regra eram os relacionamentos vazios e triviais com mulheres ou homens caricaturais. Sobre Gilmore Girls, eu gosto do seriado, e acho que ele consegue fugir do lugar comum dos sitcoms (até porque ele não é uma). Agora, realmente chega a irritar a quantidade de diálogos e de mulheres que falam MUITO e (MUITO) rápido! (Uma amiga minha que gosta muito da série me disse que é o maior roteiro de todos os seriados, pela quantidade de falas). E o exemplo que você deu é de fato esquisitíssimo :-)

Sobre o livro do Kundera, só li mesmo a Insustentável Leveza. Você conhece outras coisas dele?

Heloisa disse...

Pois é, estou lendo este "A arte do romance" porque são as reflexões dele sobre a forma: "Efetivamente, todos os grandes temas existenciais que Heidegger analisa em ser e tempo [os temas relacionados ao ser humano, Heidegger acredita que há um ‘esquecimento do ser’], julgando-os abandonados por toda a filosofia européia anterior, foram desvendados, mostrados, esclarecidos por quatro séculos [europeus] de romance. Um por um, o romance descobriu, à sua própria maneira, por sua própria lógica, os diferentes aspectos da existência: com os contemporâneos de Cervantes, ele se pergunta o que é a aventura; com Samuel Richardson, começa a examinar o que se passa no interior", a desvendar a vida secretados sentimentos; com Balzac, descobre o enraizamento do homem na História; com Flaubert, explora a terra até então incógnita do cotidiano; com Tolstói, inclina-se sobre a intervenção do irracional nas decisões e no comportamento humanos. Ele [o romance] sonda o tempo: o inapreensível momento passado com Marcel Proust; o inapreensível momento presente com James Joyce. Interroga, com Thomas Mann, o papel dos mitos que, vindos do fundo dos tempos, teleguiam nossos passos. Etc, etc. O romance acompanha o homem constante e fielmente desde o princípio dos Tempos Modernos."
"Dom Quixote partiu para um mundo que se abria amplamente diante dele. Ali ele podia entrar livremente e regressar à casa quando quisesse. (...) Meio século após Diderot, em Balzac, o horizonte longínquo desapareceu como uma paisagem atrás dos edifícios modernos que são as instituições sociais: a polícia, a justiça, o mundo das finanças e do crime, o exército, o Estado. O tempo de Balzac não conheceu mais a ociosidade feliz de Cervantes ou de Diderot. Ele embarcou no trem que se denomina História. É fácil subir nele, difícil descer dele. (...) Mais tarde, para Ema Bovary, o horizonte se estreita a tal ponto que parece uma clausura."

Não li o livro todo, mas ele conseguiu me convencer a ler alguns outros...

Obs.: e sim, elas falam muitíssimo e rapidíssimo (uma homenagem à JD). E por essa razão, embora a série fuja do padrão, eu nunca consigo assistir mais do que quinze minutos.

Heloisa disse...

E sim, é possível sair com uma pessoa por semana. O negócio é se vc quer isso...
Mas a série diz um pouco da realidade, afinal uma mulher por semana = qualquer mulher, daí as qualidades que vc colocou (submissas, damas de companhia, bibelôs - elas não são tratadas assim, elas são assim: ninguém é apenas passivo - e faltou os "burra, pouco interessante ou desinteressada"). Mas é evidente que, na busca incessante, vc vai encontrar ALGUMAS (e não muitas como vc escreveu) moças interessantes e interessadas.
Mas o complicado é a busca incessante, pq a gente perde a paciência. No entanto, é necessário continuar: como bem diz uma boa, inteligente e atéia amiga, "quem não morre, não vê Deus", ou seja, tentar, levar um toco, tentar novamente, outro toco, tenta de novo, consegue (ou não). E assim é a vida. Em geral os personagens, por mais feios e esquisitos, estão sempre puxando assunto com alguma mulher, não?, ainda que do modo mais esquisito. É o que eu me lembro...
Mas como eu disse, isso depende - principalmente - do que a gente quer. Eu, por exemplo, dou mole pra td mundo pra ver no que dá (ou não dá - rs). Bjka
obs.: estou esperando o pão e a programação para o feriado.

m disse...

Helô, como sempre, arrasa.

Andre disse...

helô: fiquei muito curioso em relação ao livro do Kundera, por mais que a tese não seja de todo original. Pelo que você escreveu aqui, acho que explica muito a escrita do próprio autor. Depois quero ler.

Sobre relacionamentos, concordo com tudo o que você disse. O que me espanta um pouco é esse contentamento com uma mulher (ou homem) qualquer. Não importa a individualidade da pessoa, mas simplesmente o fato de ser do sexo oposto. E gostei dessa "quem não morre, não vê Deus". :-)

Quanto ao feriado, praticamente todo disponível. Não mais farei promessas sobre pães, hehe.

Heloisa disse...

Bem, tem gente que só quer trepar ou "eliminar a carência". Acontece e não acho que isso seja um problema em si. Não necessariamente se está sendo desrespeitoso nestes casos, mas é importante que as coisas fiquem claras, pq podem rolar mágoas. Só para citar um caso conhecido, acho que até hoje ninguém se enganou sobre os meus objetivos (rs) e isso não impediu que eu conhecesse pessoas que se tornaram importantes (algumas muito importantes).
Mas pode ser que eu mude de opinião agora que resolvi de fato namorar. O que ainda não sei é o que se faz com o desejo nesse tempo. Fica-se subindo pelas paredes? Muito esquisito esse mundo...

obs: sobre o pão, não tô pressionando, mas dou o maior apoio a sua nova carreira.
obs2: eu tb não tenho programação para o feriado. O lance é que sou super preguiçosa e, com esse frio, é possível que eu fique na toca até segunda. Como homem não bate na porta (até bate, mas meu carteiro não é nada sexy), tenho que cair no mundo...
obs3: obrigada, srta m (rs), mas vamos ver meu desempenho no mundo dos "buscadores de gente para mais de algumas noite".

Andre disse...

helô: também não tenho nada contra sexo casual, por mais que seja algo que, a princípio, não me estimule muito. E realmente acho que coisas boas podem sair daí, como de qualquer lugar e circunstância. Só não sei até que ponto é legal objetificar as coisas (foi mais isso que eu quis ressaltar no texto, por isso usei palavras como "descartável" e "bibelô"). Muitas vezes o que me parece estar por trás de supostas necessidades é nada mais do que um desejo conspícuo.

Mas interessante você ter falado em mágoas, porque é exatamente o que acontece nesses seriados: normalmente o motivo para alguém dar o fora no outro, seja a mulher no homem ou o homem na mulher (não vejo seriados homossexuais, pelo visto, e não lembro direito como era em Will and Grace), é um motivo tão banal e vago quanto o que serviu para unir as pessoas.