sábado, 22 de março de 2008

O encanto dos bares

“Já reparou que a esta hora da noite e a este nível do álcool o corpo se começa a emancipar de nós, a recusar-se a acender o cigarro, a segurar o copo numa incerteza tacteante, a vaguear dentro da roupa oscilações de gelatina? O encanto dos bares, não é, consiste em, a partir das duas da manhã, não ser a alma a libertar-se do seu invólucro terrestre e a seguir verticalmente para o céu no esvoaçar místico de cortinas branca das mortes do missal, mas a carne que se livra, um pouco espantada, do espírito, e inicia uma dança pastosa de estátua de cera que se funde até terminar nas lágrimas de remorso da aurora, quando a primeira luz oblíqua nos revela, com implacabilidade radioscópica, o triste esqueleto da solidão sem remédio. Se nos observamos bem, aliás, podemos principiar a entrever já o perfil dos nossos ossos, que as vírgulas das olheiras e o acento circunflexo da boca disfarçam de sorrisos melancólicos de que pendem restos murchos de ironia idênticos ao braço inerte de um ferido”.

(Antonio Lobo Antunes, “Os cus de Judas”).

Um comentário:

Ticous disse...

Não entendi muito bem esse texto, mas deu pra pegar a idéia de que o sujeito tava de álcool até a tampa!
Quer contar alguma coisa??? hahahahaa
E lembre-se: até o fim de abril, hein! hohoho