domingo, 9 de março de 2008

Auto-análise frustrada


Aqui na minha frente há o bilhete de “Bee Movie”. Segundo consta, assisti ao filme no dia 8 de dezembro de 2007. Três meses atrás. Porquê ele está aqui? Um pouco mais ao lado, uma pilha de livros. Livros que já li ou que nunca lerei. Sobre eles, folhas que cheiram a tinta barata, fotocópias do período atual, do período passado, do período retrasado... Um cd corrompido, um lápis sem ponta, uma ponta sem lápis. Uma etiquete adesiva, uma agenda de 2007 que nunca usei, um grampeador estropiado, um bilhete do metrô de São Paulo. A lâmpada da luminária está queimada há umas duas semanas. Poeira acumula-se sobre o monitor e sobre o mouse pad (que, aliás, é uma apostila, pois nunca me dei ao trabalho de comprar um).

É impressionante o quanto eu estou sem paciência e irritadiço nos últimos dias. O quanto eu estou destratando as pessoas que cruzam o meu caminho, uma por uma. Estou sem vontade de ler e de escrever, de ouvir e de falar. Na terça-feira eu fui absolutamente estúpido com um funcionário da minha faculdade. Esse foi o estopim para perceber que alguma coisa está errada. Não estou triste, não estou melancólico, não estou deprimido. A impaciência que me toma diariamente não pode ser explicada pelos problemas que normalmente eu escolheria em minha máquina de problemas (uma máquina como aquelas de refrigerante, mesmo: eu insiro uma moeda de desamparo e recebo uma lata de autocomiseração).

Mas, então, onde encontrar a explicação? Eu comecei procurando no primeiro parágrafo: nas pequenas coisas, nos pequenos incômodos. A desorganização, a sujeira, a preguiça – todos sinais de desleixo, de comodismo. Mas reparem: é apenas um sinal. Não adianta encontrar na desorganização, na sujeira e na preguiça as grandes vilãs do meu estado de espírito. Elas apenas apontam para algo mais profundo, mais entranhado. Não, também não é o desleixo e o comodismo, por mais que dizer isso seja tentador. Eles também são conseqüência, e não causa. As pessoas só são acomodadas quando estão satisfeitas, ou quando mudar dá trabalho demais. E se depois de pensar o quanto é necessário se mover continua-se na mesma, é quase certo: a posição atual não é considerada de todo incômoda.

Acho que a maioria das pessoas se acomoda e se prostra diante das situações por falta de um sentido, de uma meta. Mas eu não consigo me convencer de que me falte um objetivo. Eles existem, pelo menos a curto prazo, e são bastante estimulantes. Aliás, há muito tempo eu não tinha tantos objetivos, por pequenos que fossem, quanto agora. 2008 tem sido um ano bom, instigante, encorajador... e agora isso. Talvez passe logo. Talvez seja só uma semana ruim.

Se as coisas continuarem nesse balanço, devo fazer em breve uma nova sessão.

P.S.: Esse texto foi escrito na quarta-feira. As coisas não estão melhores.

18 comentários:

Chico disse...

puxa....talvez seja mal de fim de férias, costumava acontecer comigo, pelo menos. não pq as férias e a vadiagem estão acabando, mas justamente pq eu me sentia estranho vadiando por meses sem nenhum motivo pra comemorar com minha vadiagem e nem dinheiro para fazer dela uma vadiagem de respeito. na verdade acho q no fundo rolava um sentimento de "quero q a minha vida recomece logo pra eu poder voltar ao caminho de correr atrás dos meus objetivos".

muito auto-ajuda? foi só um palpite!

Rafael disse...

Com o conhecimento adquirido nas totalmente excelentes aulas de psicologia da educação, vou te "analisar":

Compartilho da sua prostração, da sua falta de paciência. Em parte, isso se chama, "fim de faculdade", nome popular da patologia faculdadis terminandus proximum.

Na verdade, essa falta de paciência não se dá por falta de objetivos, mas pela dessacralização deles. Aquilo que víamos como uma grande transformação passa a ser encarado como algo quase banal. Exagerando, é claro, como se o esforço não valesse o resultado.

Há aí um pouco de receio, mas acho que o principal, no meu caso, é a decepção progressiva que a rotina vai nos impondo.

E aí? Ajudei? Meu individualismo falou mais alto e acabei me auto-analisando. Serve pra você?

Grande abraço!

Ticous disse...

Não sou com bom essas coisas de análise, mas vou te dar um conselho que costuma funcionar comigo:
Dá umas porradas.
É sério!
Nada melhor pra aliviar tensões, descarregar frustrações e tudo mais que dar umas belas porradas. Arruma uma aula de uma luta qualquer na academia, ou pede pra usar uma sala com um saco de areia...

Ticous disse...

Tenho uma questão que esqueci de levantar no comentário anterior:
Por que diabos na foto desse post tem duas raparigas se bolinando?!?!
Quer nos passar uma mensagem implicita sobre o seu futuro "auto-descobrimento"???

Andre disse...

chico: também quero que a minha vida recomece logo... Mas recomeçar o quê exatamente? Nós a (re)construímos o tempo inteiro, afinal. Não há ponto de partida, nem de chegada. E, como eu disse, não tenho nenhum problema muito grave não. A não ser que seja alguma coisa que eu não consiga perceber (ou admitir).

Andre disse...

rafael: serve, sempre serve. Mas a faculdade até me anima (ou pelo menos a sociologia, a filosofia, etc.). Estudar me estimula, felizmente. Mas os estudos acabam indo, em maior ou menor grau, em compasso com esse desânimo mais geral.

Mas esse fim de faculdade é chato mesmo, né? E o pior é que eu sinto isso desde o início do ano passado.

Andre disse...

ticous: realmente, uma boa forma seria descontar fisicamente, desenvolver alguma forma de catarse. Lembra do Porradinha? Ele servia muito bem para isso, muito bem mesmo. Saudades daquele pingüim miserável. Aliás, você ressaltar isso me fez ver que eu já tive sentimentos parecidos no passado.

Sobre a foto, é do filme Persona, do Bergman, que trata, dentre outras coisas, das dificuldades da comunicação humana. Acho que no fundo a raiz do meu problema está por aí. Ou seria uma conseqüência?

m disse...

estou sempre aberta a qualquer forma de comunicação - mesmo as mais silenciosas ou barulhentas ou prolixas, alienígenas. Enfim.

vanessa disse...

aparentemente você já tem bons conselhos aí em cima. para mim fazer atividades diferentes ajudam quando estou frustrada ou fazer sei lá oq q estiver adiando no momento. será q arranjar uma garota aleatória poderia te ajudar? uma mulher poderia te tirar do comodismo e trazer novos problemas bem definidos para te alegrar.

Ticous disse...

Ratifico a sugestão da porradaria, e me voluntario como sparring.
Mas depois a gente troca. Se faz necessário um pouco de grosseria.

m disse...

Hmmm, pra sugerir "arranjar uma garota aleatória" você não deve conhecer bem o Andre. Ele não é esse tipo de cara e acho que procurar novos problemas dificilmente seja a solução pros problemas atuais. Mas concordo quanto a fazer coisas diferentes! Seja bater no Tiago ou dar uma volta na praia, diversifique-se.

Andre disse...

vanessa: ah, eu não quero novos problemas, mesmo que bem definidos! Uma garota que trouxesse mais soluções do que problemas, ai sim seria uma boa. Mas sim, fazer o que eu estou adiando ia tirar um peso absurdo das costas (e da cabeça).

m: pela chuva, talvez o melhor fosse andar de bote. Aliás, “bote” é uma palavra que eu sempre achei deveras divertida.

ticous: partiu brutalidade no fim de semana?

m disse...

sim! campanha pró-meninas/solução! candidatem-se!

Ms. Wuppertal :) disse...

1: saudade! =)

2: leia meu email ! meuS, alias.

3: vc acredita q eu pedi pra minha prima gravar bee movie pra eu trazer pra ca e quando eu cansei ontem de ver simpsons auf deutsch hehe aih eu fui ver e n tah funcionando´!! fiquei indescritivelmente frustrada...

4: apoio totalmente a ideia da vanessa! mas mulher nunca eh problema...eh solucao! hehehe =) to brincando mas eh valido eh valdido... so n precisa ser completamente aleatoria! pra mim pelo menos perde um pouco o valor...

anyway! campanha pro meninas solucao! e como figurinha repetida n completa album meu querido, va a luta...ou melhor...que venham a luta por vc hahahah...

beijinhos!

Andre disse...

ms. wuppertal:
também estou com saudades! Já li e respondi seus e-mails.
Você vai ter que arranjar uma locadora rapidamente aí, para ver Bee Movie, no duro.

Sobre a belíssima campanha, eu dou meu total e irrestrito apoio :-)

Heloisa disse...

André, é Helô.
O Antonio me enviou esse negócio aqui e eu tô morrendo de rir.
Eu sugiro a garota. Qual teu tipo?
Vamos dar um jeito de tomar a cerva na quarta e aí vc me conta.
Bjs

Andre disse...

Helô: presença incrível no blog! Mas, poxa, começando a ler logo num post deprê! ok, vários são assim...
Em todo caso, muito bem-vinda!
E sim, na quarta conversamos!

Heloisa disse...

Eu não comecei num deprê, não. A Paloma já tinha me enviado outro muito engraçado (alguma coisa sobre a primeira vez...). É que eu não tenho hábito de Blogs e muito menos de comentar. Nem os musicais que eu usufruo bastante, eu não comento. Enfim, talvez neste ano, q eu vou estar mais tranquila de trabalho, eu apareça mais por aqui. Ou não! Talvez a gente beba mais cerveja por aí. Bjkas