sábado, 23 de fevereiro de 2008

Trecho

A Eloqüência perguntou, nos comentários do último post, o que eu estava achando do “Memória de elefante”. Bem, é um livro realmente difícil e desafiador. A escrita de Lobo Antunes demora a ser digerida, o que não é ruim. Nietzsche aconselhava que para entender sua filosofia era necessário ser quase uma vaca, ou seja, era preciso ruminar. É exatamente isso que estou fazendo com o Lobo Antunes. Como eu disse, é um desafio, mas tem trazido deliciosas e agradáveis recompensas.

Segue um pequeno trecho:

“A gente, entendes, quero dizer eu e ela, gostava muito um do outro, continua a gostar muito um do outro e os tomates desta merda é eu não conseguir pôr-me outra vez direito, telefonar-lhe e dizer – Vamos lutar, porque se calhar perdi a gana de lutar, os braços não se movem, os tendões do pescoço não seguram a cabeça. E foda-se, é só isso que eu quero. Acho que nós os dois temos falhado por não saber perdoar, por não saber não ser completamente aceite, e entrementes, no ferir e no ser ferido, o nosso amor (é bom falar assim: o nosso amor) resiste e cresce sem que nenhum sopro até hoje o apague. É como se eu só pudesse amá-la longe dela com tanta vontade, catano, de a amar de perto, corpo a corpo, conforme desde que nos conhecemos o nosso combate tem sido. Dar-lhe o que até hoje lhe não soube dar e há em mim, congelado embora mas respirando sempre, sementinha escondida que aguarda. O que a partir do início lhe quis dar, lhe quero dar, a ternura, percebes, sem egoísmo, o quotidiano sem rotina, a entrega absoluta de um viver em partilha, total, quente e simples como um pinto na mão, animal pequeno assustado e trémulo, nosso”.

3 comentários:

Eloqüência disse...

Não terminei de ler a primeira frase do trecho publicado e tive um surto de riso. Acho que imaginei suas balançadas de cabeça tentando ver nexo na leitura.
Bonita a mensagem deste fragmento.
Mas ainda prefiro nosso português!

m disse...

adorei

tão bom ver que todo mundo tem problemas e nenhum elacionameto é fácil e tudo é mesmo difícil e confuso e sobretudo contraditório

adorei te ver, desculpa por ter ido embora bruscamente

tenho questões, você sabe

beijo

p.s. odiei lunes al sol, mas um pra nossa lista de discórdias

Andre disse...

eloqüencia: não sei se conseguiria dizer que prefiro um português ao outro. Depende muito do uso que dele se faz. A questão, me parece, é que nos falta intimidade com o português de Portugal. A relação que temos com ele é a mesma que temos com línguas estrangeiras, o que é uma pena.

m: pena que você não gostou do filme :-(
Quem sabe você não tenta os "filmes musicais" do Saura, agora?
De resto, comento mais em um post próprio.