quarta-feira, 16 de abril de 2008

Os livros e as horas

Uma discussão breve, mas interessante, que surge em “A insustentável leveza do ser” é se determinados livros são feitos para serem lidos de noite ou de dia. O exemplo dado é curiosamente Stendhal, um dos meus autores favoritos. Eu sempre preferi ler literatura à noite, então é normal que associe os autores ao período noturno. O dia está ligado aos estudos, a textos acadêmicos. No entanto, creio que associaria o realismo francês (Stendhal, Balzac, Flaubert...) ao cair da tarde. Não sei bem porque, mas acho o entardecer um pouco deprimente e sufocante. A noite se aproxima, o céu perde a vibração, o cheiro um pouco nauseante dos jantares que são preparados nas cozinhas dos apartamentos vizinhos invadem o quarto, assim como os barulhos dos talheres e das mesas sendo postas. As crianças saem da escola e as campainhas tocam, indicando a chegada dos maridos (e das esposas também, afinal estamos no século XXI, oras!). Não sei porque associo esses pequenos momentos ao grande realismo. Uma hipótese é pelo fato dessas pequenas formalidades representarem bem as condutas cotidianas da família burguesa, condutas estas cristalizadas pela pena de Flaubert e cia. Mas, vá saber.

Os tais livros de cabeceira já citados nesse blog devem ser lidos à noite, e só à noite. São textos de introspecção, de ensimesmamento, e só o silêncio e um certo isolamento podem proporcionar uma leitura prazerosa e frutífera.

Poesia eu prefiro ler de manhã, com a cabeça mais fresca, assim como o clima mais ameno. Talvez eu leia tão pouco poesia justamente por desperdiçar as minhas manhãs.

Mas, de modo geral, eu realmente me sinto melhor lendo à noite, quando todos já estão dormindo e quando não há mais incômodas influências externas. Ler, afinal, é voltar-se para dentro, não é?

E vocês, possuem alguma preferência de horário para leitura?

5 comentários:

Denis disse...
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Ticous disse...

Eu prefiro ler quando eu tenho tempo!
Tá, eu prefiro ler a noite, normalmente antes de dormir. Gosto de ler até ficar com bastante sono, pra dormir mais rápido.

Denis disse...

Bom, no momento o meu horário de leitura de livros literários é de manhã, pois é o horário em que pego o metrô (lotadíssimo, diga-se de passagem) para ir pra faculdade. É impressionante como que as pessoas em minha volta somem quando estou lendo. Quando menos vejo já estou pertinho da facul, e nem percebo... Mas a leitura na madrugada é simplesmente fascinante! É sem dúvida a melhor hora para viajar no mundo da literatura...

Uma coisa boa também é ver filmes à noite, principalemnente filmes que tratam sobre temas como amor, morte, decadência... "Tudo sobre minha mãe", de Almodóvar, e "Barry Lyndon", de Kubrick foram os últimos filmes que vi de madrugada. O primeiro trata de uma mãe que possue um passado tão cheio de emoções que o seu filho, se tivesse vivo, não acreditaria no quanto aquela mulher (interpretada maravilhosamente por Cecilia Roth) esconde em cada expressão do seu rosto uma vivência, uma marca da vida. Já o segundo trata das paixões, inconsequências, expontaneidades, ascensão e queda de um homem que conhece todos os prazeres da vida, mas também, todas as suas dores...

Os dois filmes me emocionaram muito. Mas creio que se minha mãe estivesse na cozinha batendo panelas o tempo todo (como de costume), ou se meu irmão estivesse mexendo no computador na sala (ele só sabe fazer isso quando está em casa) não teria tido a mesma sensibilidade para ver esses filmes...

Enfim, também acho que as madrugadas foram feitas para a introspecção. Então: viva as madrugadas e a calmaria inerente a elas!

Heloisa disse...

Adorei ler isso aqui. Estava pensando muito sobre ler Balzac estes dias. Estava lendo umas coisas que se referiam a ele e que me deram muita vontade de conhecer. Não sei ainda quando vou começar a ler de fato, mas já sei com certeza que vou ler no cair da tarde...
Bjs

Andre disse...

ticous: ah sim, tempo é o fator determinante. Mas sobre ler à noite, comigo acontece o contrário: literatura me tira o sono, ao invés de me fazer dormir mais rápido.

denis: também gosto muito de ler no metrô, porque a viagem realmente parece ficar muito mais curta. O problema é que acho que minha leitura rende um pouco menos.

Engraçado, mas filmes eu não gosto tanto de ver de noite, porque eles me dão muito mais sono do que livros.

helô: dou todo o apoio à leitura do Balzac, é um dos meus preferidos!