quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

A solidão, mais uma vez



O escritor argentino Julio Cortazar, no vídeo acima, fala de uma estranha necessidade que sente de ficar sozinho, mesmo em situações sociais que lhe são agradáveis. È um impulso mais forte, imagino que uma espécie de comichão. Ele diz, também, que é um tipo de pessoa de natureza solitária, que gosta e valoriza seu espaço, o seu pequeno universo.

Viver sozinho é algo que se aprende. É muito tentador viver em bandos. É muito fácil depender de outras pessoas, porque isso exime de responsabilidades. Estar sozinho –e fica-se muito sozinho mesmo rodeado de amigos queridos – não deixa de ser doloroso, por mais que seja muito recompensador. É doloroso porque não há fuga: a consciência é a realidade última, radical. Por mais que se possa mentir para o outro, enganar o próximo, fingir algum sentimento, transformar uma dor em desfaçatez, é impossível escapar de si mesmo. Pode-se até adiar – e o Outro costuma ser uma forma eficiente de realizar isso – mas é como lutar com o inescapável, com o iniludível.

Por isso a importância do aprendizado. Quando o pêndulo volta, ele te acerta, mais forte, e você já não consegue lidar com isso. O peso das próprias verdades pode ser insustentável, esmagador. É duro admitir certos defeitos, perceber grandes falhas e aceitar derrotas e incapacidades. Mas não consigo ver outra opção a não ser admitir. Não admitir para melhorar, obrigatoriamente. Sem querer parecer derrotista, e realmente não estou sendo, mas há certas “coisas” – para usar propositalmente um termo bem genérico – que não mudam, ou mudam apenas de tempos em tempos, de forma quase imperceptível. Um defeito pode não ser exatamente um defeito, mas apenas você. E por mais que sartrianamente eu admita que as pessoas se constroem, eu também não consigo conceber que elas possam sempre se construir do zero. Há um passado, um sem número de histórias, de hábitos, de práticas firmemente estabelecidas. Que nós construímos. Criar-se todos os dias é, no fundo, também levantar uma prisão.

Esse texto era para ser sobre o quanto eu sinto, volta e meia, uma vontade de falar muito forte, uma comichão contrária à do Cortazar. Muitas vezes entro no MSN no meio da noite, apenas na expectativa de que alguém possa conversar comigo. Como passo praticamente a madrugada toda acordado, tenho muita vontade de pegar o telefone e ligar para alguém, apenas para ouvir uma voz, contar uma idéia idiota, ou falar sobre um livro que estava lendo. Na verdade, um dos motivos pelos quais criei esse blog foi exatamente este: saciar essa ausência, tão incômoda, que volta e meia sinto. Escrever, nessa circunstância, é como tentar dialogar com alguma pessoa imaginária, independente dela me ouvir ou não. E isso me levou a um outro raciocino estranho: até que ponto isso é realmente um diálogo? Digo, com duas pessoas de verdade, por exemplo. A impressão que eu tenho é que simplesmente não percebo o quanto aborreço os outros, principalmente quando me ponho a falar compulsivamente. Mas simplesmente não consigo evitar, porque só me dou conta disso tarde demais.

Normalmente, quando estou sozinho outra vez. E, então, quero continuar sozinho, porque me sinto bem assim, sinto que estou sendo compreendido, que não estou chateando ou sendo incômodo. Às vezes eu chego em casa, no meio da noite, e tudo o que quero é esquecer o que aconteceu, por mais agradável que tenha sido. Às vezes, penso que nunca fico satisfeito com nada, basicamente porque nunca consigo ficar satisfeito comigo mesmo.

E aí o texto recomeça.

Um comentário:

Srta. Jones disse...

Eu acho possível reconstruir-se do zero, aprendendo com práticas antigas e lutando todos os dias para não repetí-las, até que isso se torne natural. É assim, por exemplo, que nós damos segundas chances às pessoas e a nós mesmos.

Quanto à solidão, a minha infame experiência recente de independência auto-imposta no exterior me mostrou que não há nada melhor do que ter a companhia de alguém. Imagine se, na situação pavorosa por que passei, eu não tivesse familiares ou amigos (que, mesmo longe de mim, conseguiram salvar a minha pele)? Provavelmente estaria agora numa prisão portenha ou exilada num consulado brasileiro.