quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Sombras de Goya: o filme do quase

Saí de “Sombras de Goya” triste. Bom, talvez triste não seja bem a palavra, é forte demais. Deixei o cinema decepcionado, isso sim, com o sentimento de que algo havia se perdido. Estava tudo ali: um ótimo diretor, que já fez trabalhos brilhantes como “Amadeus” e “Um estranho no ninho”; um roteirista, Jean-Claude Carriére, que trabalhou com Buñuel em filmes do porte de “Esse obscuro objeto do desejo”, o “Fantasma da liberdade” e “O discreto charme da burguesia”; um ator estupidamente bom, que é o Javier Bardem; e uma boa atriz, Natalie Portman. Além do mais, o filme se pauta em um dos mais interessantes, polêmicos e férteis artistas de todos os tempos, o espanhol Francisco de Goya y Lucientes. Ainda há mais: o período histórico pelo qual passa a Espanha – esse país que é o verdadeiro fantasma de Goya – é simplesmente fascinante. De um lado, a Inquisição brutal, pautada no obscurantismo e na tradição, de outro, os nobres ideais iluministas da Revolução Francesa, e suas prerrogativas da Razão esclarecedora, e o gênio militar de Napoleão Bonaparte.


El sueño de la razón produce monstruos. Nesta frase e sua truncada compreensão sintetiza-se o espírito de uma época. Na figura de Goya resume-se um século de Espanha. Não parece ser despropositada a ambigüidade que a palavra “sueño” suscita na frase. Em espanhol, o termo tanto pode significar “sono” – o ato de dormir –, quanto “sonho” – a experiência onírica. Seria, portanto, bastante dúbio o seu sentido. Estaria Goya sugerindo que a Razão, quando adormecida, deixa espaço para que todo o tipo de obscurantismo e ignorância se aposse do mundo, ou, ao contrário, os sonhos da Razão, suas utopias e projetos, podem produzir as mais variadas aberrações? Se pensarmos que Goya era um fervoroso defensor da Ilustración espanhola, não seria difícil responder que a epígrafe diz respeito a uma Razão adormecida, aprisionada pela Espanha caduca e reacionária do Antigo Regime. Por outro lado, é inegável a obsessão de Goya pela mitologia, pela feitiçaria e pelas superstições. Os próprios “Caprichos”, a série de gravuras à qual “El sueño...” pertence, e principalmente suas “Pinturas Negras”, são prova da admiração que o pintor nutria pelas histórias extraordinárias, sendo diversas vezes tratado como louco por seus contemporâneos.

Milos Forman chega a esse paradoxo, talvez por linhas tortas, quando não enfatiza a figura do próprio Goya como protagonista. Lembremos que são os “fantasmas de Goya”, e não exatamente o artista aragonês, que está em jogo (ao contrário, por exemplo, do “Goya em Bordeaux” de Carlos Saura). Goya é “apenas” (como se fosse pouca coisa) um daqueles espíritos únicos, que só aparecem de tempos em tempos, e que conseguem captar essências. Ele, um gênio individual, foi capaz de transformar em imagens algo muito maior e mais raro: o fim de uma era e o início de outra. Suas pinceladas, por tanto, transcendem os limites do tempo. Goya, o pintor oficial da Corte e entusiasta dos ideais iluministas, não só marca uma etapa definitiva na passagem da arte clássica para a moderna, mas também registra, de forma exemplar e única, a mudança dos tempos.

Irmão Lorenzo (Bardem) e Inês (Portman), deveriam, ao menos teoricamente, representar as contradições inerentes a esta transição. Ele, um padre representante do Antigo Regime, que percebe a brutalidade das práticas inquisitoriais, e que, atraído – seja pelo poder, seja pela vingança, seja pelos ideais da Revolução Francesa – para o lado dos valores modernos, retorna à Espanha, e ajuda a instaurar um dos mais violentos planos de conquista do invencível exército napoleônico. Ela, pertencente a uma família da nobreza espanhola, sofre tanto nas mãos da Igreja quanto do Estado napoleônico. Seu destino não poderia ser outro, além da loucura. São, Lorenzo e Inês, portanto, personagens-síntese, são, não tenho dúvida, os genuínos fantasmas de Goya.


Mas nem tudo é o que parece, nem tudo que promete vem a ser. O filme de Milos Forman é raso, descuidado. Com todos os componentes na mão para um filme inesquecível, o cineasta tcheco faz besteiras inimagináveis. Para começar, esteticamente o filme é pobre. Algumas cenas lembram, como disse uma amiga (a quem devo uma mousse de chocolate), os filmes do Monty Python (o que seria um baita elogio, não ficasse patético em um filme dramático), de tão ridículas. A tentativa de misturar inglês com espanhol (nos figurantes) é risível e indigna de uma obra que se pretenda séria. A bizarra aparição de Natalie Portman como mãe e filha não merece nem comentários. Madri parece uma pequena vila do interior, os cenários se repetem exaustivamente, os personagens se encontram em todos os lugares, em coincidência incríveis (afinal, só existem umas duas ruas e uma praça, além da população local beirar, o que, os 30 habitantes?).

Há, ainda, omissões históricas imperdoáveis, como a supreendente reação do povo espanhol à invasão de Napoleão - de onde surge, pela primeira vez, o sentimento de nacionalismo naquele país. Lembremos que Napoleão esperava uma vitória tranqüila, pois contava com o apoio dos “ilustrados” espanhóis (medidas liberalizantes já vinham sendo tomadas há pelo menos um par de décadas), e, mais do que isso, com a submissão do povo, que, vivendo na mais plena miséria, supostamente se encantaria pelo discurso da Revolução. O irmão de Napoleão, José I, porém, foi incapaz de se estabilizar no poder. Na parte final do filme, no entanto, os ingleses aparecem como os grandes libertadores, que, sozinhos, derrotaram o exército (ou mais bem, a carroça) napoleônico.

As possibilidades de fazer o filme eram muitas. Podia ser um filme histórico, um filme voltado para os demônios (ou fantasmas) do pintor, ou mesmo um drama romântico. Milos Forman não faz nada disso, não discute nenhum tema relevante com a profundidade necessária e, obviamente, peca pela displicência. Em 2008, exatos duzentos anos após as cenas aterradoras do quadro mais famoso de Goya, as execuções 3 de maio, estamos em um bom momento para rever a figura do pintor espanhol, suas conquistas e seu legado. Forman joga na lata do lixo uma grande chance.

6 comentários:

Andre disse...

Não gostei do resultado, mas era isso ou nada, e eu queria deixar alguma coisa registrada sobre o filme.

m disse...

Adorei o resultado!
Proposta: troco a mousse por um pic-nic na floresta da Tijuca! Podemos chamar IFCSianos e ou tijucanos! Assim que passar a chuva, é claro.

Vanessa disse...

gostei sim do texto. Criticou bem o filme tocando em vários pontos que eu não tinha reparado bem. Só que fazer duzentos anos desde o evento do quadro, não cem.
Também fiquei bem decepcionada com o filme. Esperei até o fim que mostrasse mais sobre o Goya e por isso o final me pareceu súbito demais. E a Portman não convencia ter 14 anos de modo algum...
Uma das coisas que mais me irritou no filme foi terem dado tanta ênfase a um história ficticia quando há tantos fatos verídicos que dariam bons filmes. Quando vi o Goya pintando a Inês pensei que ela era a moça de um retrato famoso dele, mas depois vi o nome original que é Francisca Sabasa y Garcia. Olhe esse retrato e me diga se acha parecido ou não.

Andre disse...

m: acho a idéia muito boa. Mas que tal um pic-nic com mousse?

vanessa: obrigado pela correção. Escrever de madrugada dá nisso.
Concordo, acho que a própria vida do Goya, e os personagens que o cercaram, são tema para várias histórias, vide o filme do Carlos Saura. As escolhas foram ruins.

Chico disse...

q merda, tava afinzão de ver esse filme, mas agora q vc me deu 73 razões para mudar de idéia....é, desisti mesmo!

m, faça scrumble de maçã e sirva com sorvete no pic nic!!!

m disse...

Que ótima idéia, Chico! Tô com saudade de vocês! Beijão!