sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Reaprendendo a andar

Às vezes, não sei por que, bate uma melancolia muito chata. Acho que é melancolia, sei lá. Hoje, aqui em São Paulo, fui ver um filme – muito fraco – chamado “Em Paris”. O filme em si não tem nada a ver com isso. A história é ruim, os atores são fracos, a direção é pretensiosa e falha. Quase não prestei atenção. Já estava assim antes do filme, enquanto tomava um café no Starbucks. Saí da sala de cinema ansioso, não sei com que. Atravessei a Paulista onde não devia, passei da rua que teria que entrar, deixei de jantar no restaurante que havia planejado e peguei um taxi – e isso tudo propositalmente, porque eu sabia exatamente para onde deveria ir. Mas, não sei como explicar, fazia a escolha errada.

Talvez a melancolia seja exatamente por isso: eu fico cada vez mais com impressão de que tenho as opções certas, tanto as que crio quanto as que aparecem “por acaso”, mas, na hora de executar, faço coisas estranhas ou, o que é ainda pior, não faço nada (que também é uma escolha). No fundo, não sei se isso faz alguma diferença. Hamlet, por exemplo, tinha certeza que estava fazendo a coisa certa. Resolveu “ser”, afinal. Mostrou-se um desastre, um herói fracassado, precipitado, que entregou ao inimigo seu valioso reino. Hamlet, em tempos sombrios e angustiados, sempre me vem à mente, mas nunca consigo chegar a qualquer conclusão ou resposta. Só sei que estou cansado. Vale lembrar que há três dias não falo com nenhum amigo, com ninguém mais próximo. Talvez seja o duro (re)aprendizado da solidão, que, no fundo, é bom e necessário. Muito necessário.

Os dias aqui em São Paulo estão ótimos, tenho feito muitas e muitas coisas, conhecido muitos lugares novos, tenho andado sem parar e seguido a recomendação de Camus: a única forma de conhecer uma cidade é perdendo-se nela. Sempre que viajo gosto de levar o aforismo a sério. Entro em ruas aleatórias e ando, ando e ando. Descubro um pouco mais da cidade e - lugar comum mor - um pouco mais de mim mesmo. Às vezes paro, tomo um café, leio um livro ou o jornal. E penso, penso como não fazia há meses. Tenho dormido umas cinco horas por dia, pois deito na cama, reflito sobre o que passou, sobre o amanhã, sobre mim. Acordo cedo e bem disposto. Os machucados e bolhas no pé, que fiz de tanto andar, não incomodam.

Se alguém estivesse aqui comigo possivelmente sairia correndo, porque tenho opiniões sobre tudo, comentários constantes sobre o tempo, os prédios, os quadros dos museus, as pessoas. Estou com uma vontade enorme de escrever e faço apontamentos constantes. Mas volta e meia essa melancolia, ou coisa do tipo, bate, e me incomoda demais. Vamos ver como lido com ela amanhã.

6 comentários:

vanessa disse...

hum.. olá
eu acabei comentando num post q eu pensava q era o mais recente mas não era. Se quiser ver, comentei um texto seu sobre uma mulher q ia contar sua vida ao maçambicano e ele não quis ouvir.
Uma pena estar tão triste. As vezes me sinto assim também, mas tento ser alegre a maior parte do tempo. Queria me perder numa cidade assim...
Não concordo com oq disse sobre o Rio, não com tudo. Mas também não gostaria de fazer meu futuro aqui. è uma cidade decadente, porém ainda me atrai.

João Paulo disse...

Oi, André!

Estava viajando e fazia um bom tempo que não vinha ao blog. Fiquei surpreso de te encontrar em São Paulo.
Interessantes os últimos posts. Não lembrava deste tom tão enfático (e como!) do Retrato do Brasil. Assim como são enfáticos seus textos.
Esse contraste entre RJ-SP é de fato fascinante e algo em que penso constantemente. Dá muito pano pra manga e eu não me alongarei aqui. Mas deve ser doce se perder em São Paulo (também quero!). Tomara que esses apontamentos e reflexões deêm origem a mais textos...
No mais, acho que compartilho um tanto das suas angústias e opiniões. Quando voltar desta ridícula cidade provinciana vamos à Lapa aprofundar estes temas e celebrar a carioquice.

Grande Abraço,

João Paulo.

Bruno disse...

Pelo menos teremos muito assunto para conversar...
abraço!

Andre disse...

vanessa: muito bem-vinda por aqui!
Veja bem, eu não estou exatamente triste. Aliás, posso dizer que estou até bastante feliz. São Paulo me fez bem. No entanto, em alguns momentos eu sinto um frio na barriga, uma tensão estranha e começo a pensar em problemas, pendências, escolhas. Principalmente escolhas. E isso é sempre desconfortável, no mínimo. Escrevi o texto quando minha cabeça mais pesava, portanto o tom pode ter ficado mais obscuro do que gostaria. Mas o desconforto pode ser bom, né? Pelo menos nos incentiva a mudar de lugar.

joão paulo: que ótimo você aparecer por aqui! Haverá, muito provavelmente, mais textos sobre SP sim. E sem dúvida vamos marcar alguma coisa! Que viva a carioquice!

bruno: muitos assuntos mesmo! Melancolia e reflexão são boas por causa disso: sempre rendem ótimas mesas de bar!

Ticous disse...

Que bom que você gostou. Eu realmente não vejo atrativos em São Paulo.
Tá, eu até vejo atrativos, mas vejo MUITAS outras coisas que me irritam.

Eloqüência disse...

Que bom que existem pessoas "estranhas" como eu!