segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Minha primeira vez

Caminhava tenso. Não conseguia esconder a ansiedade pelo que me aguardava. Sabia, no entanto, que teria que fazer isso mais cedo ou mais tarde – é da vida, como dizem. Não tinha, portanto, o que temer ou me envergonhar.

Cheguei ao prédio em cima da hora. Não queria chegar nem atrasado – seria deselegante – e nem adiantado – tinha um certo medo de que alguém me visse naquele lugar. Fui direto, com passo firme e sem olhar para os lados, em direção à recepção. A pessoa que lá estava perguntou para onde eu ia. Mostrei, com certo embaraço, o papel amassado com o nome da moça com quem eu deveria me encontrar. Ela não me olhou no rosto, com eu já imaginava. Só perguntou meu nome, o que me deixou ainda mais constrangido. Interfonou, falou umas poucas palavras e me mandou subir, dizendo que me esperavam. Foi bastante seca. Talvez fosse uma pessoa de poucas palavras, talvez apenas cumprisse ordens da casa. De qualquer modo, me apontou a direção e disse algo que não pude compreender muito bem (me pareceu um “boa sorte”).

Subi as estreitas escadas com vagar. Evitei o elevador porque temia encontrar algum conhecido. Conscientemente queria adiar aquele momento. A cada degrau que pisava, no entanto, apenas conseguia imaginar o olhar de reprovação de meus amigos, suas risadas histéricas e suas piadinhas infames: “você nunca fez isso, mané?”, “tá com medinha, é?”, “tú é homem ou o quê?”. Aquilo me apavorava. Minhas mãos e pernas tremiam. Eu, que nunca suo, já podia perceber uma gota escorrendo em minha testa. Pensei que isso podia atrapalhar o que estava por vir, e eu queria – precisava – ter um bom rendimento. Estava ainda no segundo andar quando sentei nas escadas. Refleti um pouco sobre aquele momento e me dei conta de que era tudo uma grande bobagem, que eu só deveria fazer isso quando chegasse a hora, quando me sentisse bem. Por outro lado, achei melhor enfrentar meus medos. Aquele instante poderia, de alguma forma, me tornar mais maduro. Conferi se tudo estava em seu devido lugar. Respirei fundo e me levantei.

Cheguei no andar indicado. Olhei atentamente para os lados e não vi ninguém. Sempre procurando olhar para baixo, segui até o meu destino. Trêmulo, toquei a campainha. “Como ela seria?” “Será que era simpática e delicada, ou fazia o estilo durona?” “E se, por algum acaso, não fosse uma mulher, que faria eu? Correria?”. Isso tudo me passou pela cabeça naqueles poucos segundos.

Rapidamente, a moça abriu a porta e me olhou de cima a baixo. A primeira coisa que me veio à mente foi se eu estava usando a roupa adequada. Havia esquecido de me informar sobre isso e vesti qualquer coisa bem confortável, afinal a roupa não duraria muito em meu corpo, imaginava. Ela, enfim, me convidou para entrar. Era como eu previa: poucas roupas, mas as que vestia eram curtas e apertadas. Tinha a pele morena e curvas bem torneadas. Era muito bonita, na verdade, mais do que eu pensava. Era simpática e foi logo me oferecendo um copo d’água.

Estava tão tenso que aceitei. Tive tempo de reparar no ambiente. Cheirava a produto de limpeza. O quarto era bem pequeno e uma espécie de cama ocupava praticamente todo o espaço, o que me pareceu bastante lógico. Ela retirou o copo e perguntou meu nome. Respondi e, quando ia perguntar o nome dela, percebi que seria um tanto indelicado, afinal eu deveria saber. Ela também deveria saber o meu, e penso que de fato sabia – fez isso apenas para quebrar o gelo. Perguntou minha idade (comentou que realmente já estava na hora de fazer aquilo) e onde eu morava. Fui bastante direto nas respostas, pois tudo que eu não queria era criar alguma intimidade. A moça me perguntou, então, o que eu desejava fazer. Hesitei um momento. Disse que não sabia, que haviam me dito que seria ela que indicaria o que devia ou não fazer. Depois pensei que isso só comprovava meu despreparo e até uma certa negligência. Pior é que acho que era verdade. Ela, no entanto, não demonstrou qualquer reação. Talvez fosse normal, ainda mais em pessoas da minha idade.

Após mais alguma (pouca) conversa, ela pediu que tirasse a camisa. Achei normal. O nervosismo, no entanto, me deixou atrapalhado, mas ela me ajudou. Com delicadeza, passou as mãos nas minhas costas e no meu ombro. Perguntou se eu fazia natação. Pensei nisso como um elogio e falei, contente, que sim (na época eu realmente fazia natação). Ela, então, segurou meus braços e minha cintura, olhando com cuidado todo o resto. Mandou que eu me sentasse na cama. Respirei fundo – ainda estava muito tenso – e sentei. Ela disse para eu relaxar, que isso era importante. Mandou, agora, que retirasse a bermuda e o tênis. Gelei mais uma vez. Não esperava que fosse tão rápido. Pensei em puxar alguma conversa, mas nada me veio à mente. O mesmo procedimento dos braços e costas se repetiu em minhas pernas, panturrilhas e pés: ela segurava e apalpava vagarosamente.

Quando imaginei que fosse deitar na cama, eis a surpresa: “agora, para o chão”. Achei aquilo bastante impositivo. Fiquei atônito. “No chão?! Meu deus! Ele é tão gelado e desconfortável! Já estou arrependido de ter vindo aqui...”, pensei. Ela, no entanto, não se comovia com o meu olhar. E era um olhar de desespero, não tenho dúvida. Percebendo que eu não me movia, repetiu, ainda mais agressiva: “para o chão, por favor”. Lembrei de algo importante naquele momento: ela tinha hora. Não podia exceder aquele limite. Aturdido, corri para o chão. “Quanto mais rápido melhor” passou a ser minha palavra de ordem.

Deitei ali, naquele chão gélido. Ela se aproximou. Minha ansiedade, somada ao desgaste físico intenso daquele momento, me fez desfalecer por alguns instantes. A verdade é que não lembro de mais nada. Quando me restabeleci estava já na cama. Não sabia como havia parado ali, e muito menos o que tinha feito durante aquele tempo todo. Só sei que meus braços, minhas pernas e sobretudo minha barriga doíam um bocado (dores que duraram dias). Fosse o que fosse, deve ter sido algo bem pesado e intenso.

Ela me olhou impávida, como se nada houvesse ocorrido ali. Disse que tinha ido tudo muito bem e que eu estava preparado. Achei gozado ela não ter reparado no meu mal-estar, mas preferi não comentar. Olhei para ela e, não sabendo o que dizer, simplesmente lhe entreguei o cheque. Sim, também achei rude, mas estava tão cansado que não conseguia pensar em nada mais. Despedi-me com um “tchau” bastante simplório. Ela também não queria muito assunto, possivelmente minha hora (modo de dizer, pois era bem menos tempo do que isso) já havia passado e ela precisava arrumar as coisas para a próxima pessoa que chegasse.


Saí dolorido, mas muito mais relaxado. Continuava, no entanto, ainda muito preocupado. Não queria que ninguém me visse ali. Eu, alguém que sempre respeitou os bons costumes, a discrição e o decoro, estava usando bermudas (não era o Francis que dizia que “bermuda e boné caracterizam um idiota”?), naquele ambiente que nada tinha a ver com a minha personalidade. Andei rapidamente, sempre olhando para baixo, claro. Olhava para os lados apenas para ter certeza de que nenhum conhecido estava por perto. Cheguei na recepção e fiz um gesto para a recepcionista, pois achei que seria delicado. Saí na rua e me misturei na multidão, andando como se nada houvesse acontecido, e pensando, com um certo sorriso bobo nos lábios, que, enfim, havia passado pelo meu primeiro exame médico da academia de ginástica.

6 comentários:

Denis disse...

Bem que tentastes, mas não conseguistes me enganar. Desde o segundo parágrafo desconfiava que o texto não se tratava do assunto o qual ele sugeria.

Mas a forma que escrevestes foi belíssima! As leituras de Dostoiévski surtiram o seu efeito na sua arte, meu caro amigo. Parabéns!

m disse...

Denis é muito figura!
Adorei o texto!
Beijão!

p.s. contei pro papai do chatanato, ele disse que vai correndo se internar!

m disse...

A., por que você sumiu? Seu cel só dá ocupado! Por favor dê notícias!

Chico disse...

gostei muito! muito, muito bom! ao contrário do denis aí de cima, nem desconfiei de q não se tratava do q parecia se tratar! belo texto, meu amigo!

Ticous disse...

O texto está realmente excelente, mas te conhecendo um pouco, tinha certeza de que você jamais escreveria sobre algo assim.
E eu já li um texto com a idéia parecida (mas não tão bem escrito), o que me fez desconfiar...
Mas de qualquer forma, parabéns!

Eloqüência disse...

Fiquei confusa!
No início também achei que nos enganaria. Depois conclui que fiz mau juízo de você. Por fim, adorei ser enganada.
Parabéns! Muito bom!