segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Fim de ano

Até agora há pouco estava em um bar com um amigo. Ficamos lá mais de duas horas. Durante praticamente todo o tempo observamos um casal de senhores, que também lá estava. Eles simplesmente não trocaram uma palavra. No único momento em que a senhora esboçou algum diálogo, ouviu como resposta um “quê?” do marido e abaixou a cabeça com um misto de negação e resignação. Poucas coisas me deprimem mais do que casais ou famílias que não conversam.

A questão é: eu de certa forma acho uma bobagem essa história de votos de ano novo, mas saindo do bar e caminhando para casa fiquei com vontade de desejar a todas as pessoas que conheço que elas tentem se comunicar, cada vez mais e melhor, e que sejam mais honestas consigo mesmas e com os outros. Um casal que se senta em uma mesa e não tem o que conversar (ou não tem vontade de conversar) me dá a impressão de uma vida perdida, triste e sem expectativas. Relações humanas dependem de vontade e de sinceridade, de persistência e de dignidade. Que no ano que vem possamos todos nos sentar em mesas de bar metafóricas e ter assuntos e vontade de conversar. O inferno só são os outros se assim quisermos.

Até o ano que vem.

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Mensagem de natal

É natal. E como todo bom diário idiota é fundamental escrever um texto sobre essa data tão sublime. O texto podia seguir, pelo menos, três caminhos básicos: o primeiro seria falar sobre o amor ao próximo, a fraternidade, o espírito de doação e a esperança que esta época remete. Mas como eu não tenho a menor idéia do que seja o amor ao próximo, a fraternidade, o espírito de doação e a esperança evitarei falar sobre esses atributos tão nobres. A segunda opção seria escrever sobre como o natal se vendeu, sobre como o amor ao próximo, a fraternidade, o espírito de doação e a esperança foram travestidos pela cobiça capitalista de ganhar presentes e bajular os amigos e parentes. Mas todos os cronistas, de todos os jornais, já se deram a esse trabalho, o que me poupa alguma energia. A terceira via, que é a que eu resolvi adotar, versa sobre o principal personagem desse período de festas e perdição que é, como todos já devem saber, a “caixinha”.

Eu moro em apartamento. Além de ter que dar um “presentinho” para os porteiros, apareceram quatro pessoas para pedir uma “ajudinha”, mais conhecida como “caixinha”. Vieram o entregador de jornais, o lixeiro, o medidor de gás e o carteiro da rua. Tudo bem que não existe, ainda, um imposto que me obrigue a contribuir para que a ceia de natal do carteiro seja um pouco mais farta e que sua bebida etílica possa ser de uma qualidade um pouquinho superior. Também não tento impedir que o filho do lixeiro ganhe um brinquedinho novo. Não quero que me acusem, por favor, de ser contra a caridade. Não não,não, doar é uma virtude louvável e quem quiser dar uma esmolinha para o entregador de jornais será muito bem visto por mim e, já que estamos no natal, por Deus (se você crê Nele).

O grande problema das “caixinhas” de natal é que elas não se baseiam na caridade, no espírito filantropo e altruísta dos ofertantes. Muito pelo contrário. O fenômeno da mendicância que ocorre às vésperas do dia 25 de dezembro não é muito diferente do suborno, só que praticado de forma muito mais sutil e coberto com uma quimera de espírito natalino. É uma espécie de direito adquirido, sem nenhuma contra-prestação. Você não é obrigado contratualmente ou está sob qualquer tipo de lei que imponha dar 5 ou 10 reais para o medidor de gás, mas acaba sofrendo uma coerção bastante forte para fazê-lo, pois ele presta um serviço fundamental e, infelizmente, estamos em suas mãos. Além do mais, todo mundo dá, não é mesmo? Por que você seria diferente?

No momento em que o entregador de cartas interfona para meu apartamento e pergunta se não há dinheiro disponível para a "caixinha" ele está praticamente intimando meus pais a darem qualquer trocado, afinal, quem quer estar na lista negra do carteiro? “hã, hã... por causa dos caras do apartamento 503 não pude comprar um par de meias!!! Acho que essa conta de luz vai atrasar um pouquinho...”.

É claro que nem todo mundo que pede a “caixinha” age assim – imagino que quase ninguém, aliás –, mas qualquer pessoa minimamente neurótica como eu já ficaria atemorizada só de pensar que o lixo pode não ser recolhido e ficar se amontoando na frente da minha casa por dias e dias e dias... E o pior de tudo, os prestadores de serviço têm esse poder. Já experimentou não dar? Eles te olham torto, não dão bom dia e viram as costas. Fazem questão de mostrar quem está no comando. Todos podem, um dia, se transformar em Newmans.

A “caixinha” de natal é o símbolo do Brasil. Nada de “ordem e progresso” ou coisa que o valha. No meio da bandeira nacional deveria ter um funcionário da Comlurb pedindo esmola com uma mão enquanto varre a sujeira para baixo do tapete verde-amarelo com a outra.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Natal...

Existe coisa mais boba do que postar poesias de Natal no... Natal? Talvez postar poesias de Natal em uma época aleatória do ano, não sei. Mas, vá, lá, esse poema, assim como conhaque, me deixa comovido como o diabo.

Natal... Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
’Stou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!


(Fernando Pessoa, In Cancioneiro, 1928)

sábado, 22 de dezembro de 2007

Música do dia

Eu estou muito resfriado e sem nenhuma disposição para escrever, então deixo aqui uma música. Posto ela porque ontem assisti ao filme do Almodóvar “A lei do desejo”, que está passando no Estação Botafogo, em cópias restauradas. Este é um dos melhores filmes do diretor espanhol, e talvez seu roteiro mais criativo, ao lado de “A má educação”. Estes dois filmes, por sinal, guardam várias semelhanças. Referências internas são muito comuns na filmografia de Almodóvar, e esse é um forte incentivo para ver seus filmes mais de uma vez. “A lei do desejo” também é um dos filmes que mais trata do homossexualismo, desde a chocante primeira cena até o trágico e exuberante final. Mas não é um filme gay, pois tanto o triângulo amoroso dos protagonistas quanto a história de Tina, uma transexual carola que possui uma relação paradoxal com seu passado, interpretada por uma maravilhosa Carmen Maura, poderiam muito bem ser heterossexuais: ciúme, desilusão, amor e vingança são temas humanos, demasiado humanos.

O filme possui todos os elementos de um típico Almodóvar: o kitsch alegórico (a camisa de Pablo e Antonio é o símbolo máximo disso), as cores sempre vibrantes, os personagens bizarros e complexos, paixões enlouquecidas, a sensualidade sempre à flor da pele (a famosa cena em que a personagem de Carmen Maura toma um banho de mangueira, por exemplo), a cultura alternativa espanhola, da qual o próprio Almodóvar fazia parte, marcada por muitas drogas e promiscuidade, um roteiro cheio de idas e vindas e diálogos recheados de um humor muito característico. Enfim, o filme é um prato cheio para quem gosta do diretor. A música que segue chama-se “Lo dudo”, interpretada por Los Panchos.


quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Planos

Entonces, eu estava pensando em fazer um podcast, que são aqueles arquivos de som, para quem não sabe. Ao invés de escrever um texto, vou improvisar alguma idéia na frente do microfone. Será que fica bom? Não faz muito sentido, eu sei, mas é só pra dar uma dinâmica nova ao blog. Uma vez ou outra ter alguma coisa sonora, e tal.

***

Na dificuldade de encontrar alguma coisa do Aristófanes e do Rabelais nas bibliotecas públicas vou começar as minhas férias com a leitura de um livro do século XX, As brasas, do escritor eslovaco Sándor Márai. O livro é pequeno, e, pelas recomendações entusiasmadas que recebi, devo terminar em breve. Publico aqui o que achei, depois. Também comecei a ler hoje o recém-lançado Uma história da poesia brasileira, do Alexei Bueno. Expectativas grandes também. Pretendo que as férias sejam marcadas, em termos de literatura, não só pela leitura dos clássicos (em especial Aristófanes, Virgílio, Horácio e Rabelais), mas também uma grande revisão da poesia brasileira. Veremos o tamanho do abismo entre o dizer e o fazer.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Small talk

Eu tenho um monte de defeitos. Vários e vários. Conheço poucas pessoas que consigam reunir um número tão alto de defeitos e tão baixo de qualidades. Quando morrer, pretendo doar o meu corpo para a ciência, no intuito de conseguir uma explicação. Não pensei ainda em uma forma de ser avisado dos resultados, mas estou tentando bolar alguma coisa.

Mas o maior dos meus defeitos, aquele que mais me incomoda, é a minha incapacidade de ser um “small talker”, de jogar conversa fora e tal. Não sei qual seria a tradução mais exata para essa brilhante expressão forasteira, mas o fato é que simplesmente não consigo puxar esses pequenos assuntos, essas conversas que não dão em nada. Tampouco sei dar prosseguimento, caso alguém venha com small talk pra cima de mim. Acho que aí reside o meu principal problema em fazer amigos e influenciar pessoas. Daí também resulta, penso eu, a minha fixação por Seinfeld: ali está a genialidade de jogar conversa fora, de falar sobre o nada.

Tipo outro dia, eu estava tentando puxar assunto com uma menina e tal. A primeira prova de incompetência na arte do small talk é começar falando do tempo. Eu consegui entrar no assunto “clima” duas vezes em, sei lá, três minutos:

Eu: Opa, tá um calor infernal, né?
Ela: É, né.
Eu: Aqui no Rio não tem perdão. Faz calor toda hora, que desgraça.
Ela: É sim.
Eu: E eu ainda detesto praia, ou seja, fico só com o ponto negativo do verão. E a gente nem tá no verão, veja só.
Ela: Eu gosto de praia e do verão.

Percebendo que os rumos da conversa estavam equivocados, parti pra outro tópico:

Eu: Mas, heim, nunca entendi muito bem a coisa-em-si kantiana. Quer dizer que esse copo de guaraná está em uma espécie de dimensão fora do espaço-tempo, sem nenhuma materialidade, e na verdade são as categorias da minha mente que conferem a ele essas qualidades, que dão unidade a ele e que nos permite, comumente, chamar de “real”?
Ela: Quê?

Lá vou eu de novo tentar minha conversa mole e...

Eu: Mas acho engraçado que, quando faz calor, as pessoas reclamam que está quente, que se fica todo suado e tal, e vão pra praia, vão tomar banho... Aí chove e nego reclama que fica todo molhado porque, obviamente, a chuva é molhada. Qual é o problema que as pessoas tem com a água, por que elas sempre reclamam da água, mas logo depois a principal diversão é se molhar? Que obsessão é essa? Será que é um conflito do nosso ethos português com as nossas tradições indígenas?
Ela: Você tem algum problema?

Acho que eu deveria conhecer mais meteorologistas.

***

Tal qual na academia de ginástica. Lá só rola small talk mesmo. E eu nunca tenho nada pra dizer, afinal não sei o nome de nenhum músculo do corpo humano e de nenhum aparelho, que não o supino. Então só me resta falar coisas estúpidas como "pô, tá vendo aquele supino imenso ali?". Aí a menininha olha toda empolgada pra mim, já começa a suspirar quando eu digo "pois é, não consigo nem tirar do chão", e aí ela sai de perto como seu eu cheirasse mal. Alguns diriam que é o cheiro do fracasso, mas eu prefiro pensar, sei lá, eu não consigo pensar nada de muito melhor não.

Ah, outro dia eu também chamei a atenção de um bombadão lá, porque ele tinha deixado os pesos nos aparelhos. Eu posso até fazer tudo de errado na academia - e realmente faço - mas tirar os pesos quando eu termino é questão de honra.

Outro dia eu também chamei a atenção de uma menina. Ela soltou um peso (por sorte não era um supino) no meu pé e doeu um bocado.

Eu só falei isso pra dizer que, sinto muito mulheres de academia, mas eu acho muito pouca graça nas roupas que vocês usam. E, de verdade, aquela cara que vocês fazem quando estão levantando pesos muito fortes, tipo uma cara de dor, é muito pouco sensual. Muito pouco mesmo. Tem um aparelho lá, que eu dei o nome de "treme-cara de dor-treme" (a pessoa chega no aparelho, dá uma tremida, faz uma cara de dor, e depois dá uma outra tremida. Tenho certeza que não serve pra nada), que devia ser proibido, de tão constrangedor que é olhar alguém fazendo. Eu, por exemplo, prefiro não pegar peso nenhum a fazer cara de quem sente dor por levantar algo muito pesado. Tem dias, inclusive, que vou pra academia só pra dar um passeio, jogar uma conversa fora e tal. Qualquer coisa é melhor do que "treme-cara de dor-treme".

sábado, 15 de dezembro de 2007

FÉRIAS!

E aí, o que fazer?






A vacation from ourselves?

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Orkut sociológico e esquerdista

Eu sempre fiquei intrigado com a "sorte de hoje" oferecida pelo Orkut. É tipo comer um biscoito da sorte chinês diariamente, mas sem a azia do Yakisoba engordurado. Mas nessa quinta eu fiquei mais encafifado do que nunca. O conselho é o seguinte: "A sociedade prepara o crime, o criminoso o comete". Isso é uma tentativa do Orkut para me convencer que o sociologismo, que procura demonstrar as origens sociais de todas as ações humana, está correto? Ou será que alguém vai cometer um crime contra mim e eu vou ter que desculpar, porque o responsável é a sociedade, e não ele?

Esse Orkut está ficando cada vez mais esquerdista... Preferia quando dizia que eu ia ganhar muito dinheiro.

Felicidade é...

Uma tarde chuvosa, uma cerveja long neck e a bela voz de Amy Winehouse.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Mudo, mas não mudo muito? (II)

Lembro exatamente de quando e como escrevi o texto abaixo. Das circunstâncias que o geraram. Outro dia cheguei da Lapa, já de manhã, e, me olhando no espelho, percebi umas olheiras horrorosas. Recordei imediatamente deste texto. Peguei para ler. E nesse momento percebi muito claramente o quanto eu mudei e o quanto eu não mudei nos seis anos que separam a escrita desses rabiscos e como eu me sinto hoje em dia. Recuperando, mentalmente, aqueles momentos, sei que o que ali me afligia não é mais um problema. É algo que superei completamente, porque aprendi a compreender, aprendi como lidar. Foram noites de sono perdidas, foram dias e dias sem comer, sem fazer simplesmente nada. Eu só lia Fernando Pessoa, Edgar Allan Poe e Álvares de Azevedo. É o tipo de coisa que hoje em dia não tem mais nenhuma eficácia também. Eu até gosto destes autores, mas por motivos completamente diferentes daqueles lá dos meus 15 ou 16 anos.

Eu não sofro mais daquele jeito, não me entristeço pelos mesmos motivos, não me afeto por certos fatos que antes me deixariam na cama por dias. Não tenho também, e isso é fundamental, as mesmas reações, os mesmos descontroles. Aprendi a colocar as coisas em escalas novas, em novas perspectivas. Aí está uma palavra chave, aliás, perspectiva. Acho que é uma prova de amadurecimento, de crescimento, quando você consegue colocar tudo em outras bases, em um plano mais elevado, até porque a vida é feita de escolhas, e fazer escolhas implica escolher prioridades. Hierarquias são fundamentais – o difícil, mas necessário e recompensador, é saber o que deve estar no topo e o que deve estar na base, o que exige preocupação e cuidado e o que simplesmente você ignora e se afasta.

No fundo, me pareço muito com o que era, é inegável. Interesso-me por coisas muito próximas, tenho o mesmo tipo de humor, as mesmas referências. Mas cada vez menos me reconheço naqueles textos escritos no começo desta década. A maioria daqueles pensamentos não mais me afeta, não mais me dá dor de cabeça. Aprendi a lidar com aquilo, aprendi a por as coisas em seus devidos lugares. Hoje eu tenho vários problemas novos, não sei lidar com um monte de situações e extravaso as tristezas e frustrações ao meu modo – muitas vezes nocivo a mim e aos outros. Mas quando li o texto abaixo me senti mais leve. Eu acho – e essa é apenas uma suspeita – que é a sensação da mudança, um pouco associada a um certo ganho de liberdade. Mudei para melhor. Superei vários obstáculos que há alguns anos atrás pareciam intransponíveis. Me libertei, afinal de alguns dos meus fantasmas.

Enquanto escrevia esse post pensei o tempo todo no quanto é ruim cometer sempre os mesmos erros, again and again. É uma das piores coisas que podem acontecer com alguém. É trágico não superar nada, não mudar nunca e se equivocar sempre da mesma forma, pelos mesmos motivos. Ler o texto antigo me fez ter um pouco mais de esperança em mim mesmo, mesmo sabendo que ninguém aprende sempre, ninguém supera sempre. Mas também me deixou muito triste, porque notei mais claramente o quanto algumas pessoas próximas – e outras nem tanto – vêm tendo dificuldades em mudar, ou seja, fazem sempre as mesmas escolhas e caem sempre no mesmo buraco, mesmo sabendo que estão cometendo um erro gigante, muitas vezes irreparável. Eu sei que em breve também vou cair em um buraco metafórico desses, mas agora não quero pensar nisso. Quero permanecer com essa sensação de leveza, que é tão boa. Quero continuar andando na rua aleatoriamente, com a cabeça levantada, e com os pés uns centímetros acima do chão.

No fundo, Brás Cubas está certíssimo: o menino é sim o pai do homem. Ou, para colocar nos termos do Alberto Caeiro em seu Guardador de rebanhos:

"Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
De que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra.
Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.

(...)

Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés -

O mesmo sempre, graças ao céu e à terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma..."

Não dá para fugir de certas coisas, assim como não é bom se reinventar tanto – você acaba perdendo em conteúdo, pois perde o que realmente importa, que é o processo. Mas algumas vezes é fundamental o homem dar umas boas chineladas no menino.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Mudo, mas não mudo muito? (I)

Há uns poucos meses atrás eu estava com a obsessão nem um pouco saudável de olhar perfis no Orkut, perfis de pessoas que estudaram comigo no colégio. Eu não fazia a menor questão de saber como elas estavam hoje em dia. Eu queria saber como eu estava hoje em dia. Estava pensando muito em quanto eu mudei – ou não mudei – do colégio para cá.

Achava que tinha mudado muito e resolvi conferir como as pessoas que conviveram comigo na adolescência estavam, saber se era normal mudar tanto em um tempo aparentemente tão curto (na verdade não dá para medir a passagem do tempo simplesmente pela passagem do tempo...). E as pessoas estavam exatamente iguais. O mesmo estilo, os mesmos filmes, as mesmas músicas, as comunidades que eu imaginava, as fotos esperadas, os (as) namorado (as) padrão... Eu sei que o Orkut não dá base suficiente para julgar ninguém. Mas anos e anos de convívio + Orkut dão. Pelo menos pra mim, que não ruborizo ao deixar meus preconceitos fluírem.

“Mas ninguém mudou! Não é possível que só eu tenha mudado, não é possível”, pensava. Fiquei alguns dias e noites atormentado com a frase lapidar de Brás Cubas (originalmente do poeta inglês William Wordsworth): “O menino é o pai do homem”. Será que todo mundo é para sempre aquilo que foi na infância? Será que nunca poderei fugir dos meus fantasmas passados? Olhando aqueles perfis e pensando em Machado de Assis, tive a terrível imagem de que também eu não havia mudado rigorosamente nada.

Obcecado por essa questão ingrata e insolúvel, resolvi dar uma olhada nos meus cadernos de anotação antigos. Lendo aquelas páginas e rindo das besteiras todas que eu escrevia, dos amores platônicos pela menina loirinha que sentava na primeira fileira, do meu ódio profundo por certos professores e colegas, das minhas aflições tão adolescentes e graves, das minhas reflexões que pareciam tão suntuosas e admiráveis, das minhas tentativas de imitar o Fernando Pessoa... Enfim, olhando tudo aquilo que eu era, encontrei alguém que eu realmente não sou mais, ou em parte não sou mais. Encontrei, por exemplo, esse pequeno texto. Depois de amanhã volto com a parte final desse post. (E, por favor, tentem conter o riso pelos rabiscos que seguem).

***

Não ouso mais me olhar no espelho. A imagem que aparece do outro lado não me agrada nem um pouco. Não apenas fisicamente, mas, sobretudo, psicologicamente. As olheiras não significam simplesmente horas perdidas em noites mal dormidas. Representam todas as idéias e lembranças que as madrugadas me reservam.

Dormir tem se tornado um longo e cansativo jogo de paciência. É nas horas que antecedem meus sonos mais profundos (um sono sem sonhos, diga-se de passagem) que reflito mais exaustivamente sobre a vida e a existência. Existência, essa, insuportável, um fardo pesado demais para o meu já debilitado esqueleto. Torna-se humanamente impossível agüentar tamanha pressão exercida por mim em mim.

Mas com o passar das horas meus pensamentos vão se transformando. Passam de claras reflexões mundanas para conceitos abstratos e sombrios. Minhas idéias parecem acompanhar a necessidade de descanso de meu corpo fatigado. Recordações de coisas que sequer lembro de ter vivido irrompem em minha mente. Todas as noções se misturam e uma sensação de tontura é percebida. Já não consigo encontrar palavras para descrever o que se sucede. Desespero, talvez? Não. Também não é uma aflição. Já não sei se estou dormindo. Sinto meu corpo mais leve, mas, como o sinto, julgo ainda estar acordado. Olho no relógio. Sim, estou acordado. Findam-se as abstrações. O relógio de ponteiro ao meu lado faz um barulho não muito agradável. Sinto um vento abafado vindo da janela semi-abeta. Carros passam esporadicamente lá fora. Seus ruídos, porém, não me incomodam. Mesmo com o calor puxo o lençol até o pescoço. Meus pés agora estão descobertos. Sinto frio. Envolvo-me no tecido. Agora já não penso em nada além do lençol. Olho para o relógio uma última vez. Não sei o que ocorre depois. Não penso mais.

domingo, 9 de dezembro de 2007

E a palavra do dia é...

Procrastinação



Afinal, domingo é domingo, né? Diazinho arrastaaaaado... Deixa pra lá.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Bee Movie!

Hoje é sexta-feira e estréia no Rio Bee Movie, com roteiro e voz do Jerry Seinfeld!




Você sabe quem ele é? Então, veja o filme.

Não entendeu? Veja aqui o vídeo original.

É isso, já ganhei o meu jabá.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Clipe do dia

Aqui está um exemplo de uma banda que eu detesto e de uma música que eu abomino. Mas, vá lá, o clipe é muito bom. Sugiro que façam como eu: tirem o som do vídeo e coloquem alguma outra coisa para tocar.





Duvido que alguém do Pearl Jam conheça a Dialética do esclarecimento, dos teóricos da Escola de Frankfurt, Theodor Adorno & Max Horkheimer, mas o livro e o clipe, ao meu ver, guardam certas semelhanças.

O vídeo inicia com as forças irracionais da natureza, que trazem perigo e medo para os homens. Em conseqüência disso, o homem, em uso da Razão, passa a procurar dominá-la, criando, assim, tecnologia, técnica. No entanto, essa tecnologia, que traria o domínio e o controle do homem sobre a natureza, acaba acarretando no domínio do homem sobre o próprio homem. A Razão emancipadora gera, portanto, o seu oposto: ao invés da liberdade, o que se vê é a Inquisição, guerras, o Holocausto. Nas palavras de Adorno & Horkheimer: “o Esclarecimento é totalitário”.

É óbvio que os geléias da vovó Pearl não tinham nada disso na cabeça (até porque não têm nada nela) quando pensaram o clipe, mas mesmo assim, me parece, é uma boa imagem da distopia do Esclarecimento descrita quase 30 anos antes.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Banner

Bom, parece que o banner ficou certo. Coloquei um trecho da linda poesia do T.S. Eliot "The Love Song of J. Alfred Prufrock". O contraste está péssimo, mas a ferramenta do Blogger que altera isso não está funcionando.

Agradeço à Srta. Jones pela ajuda.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Mulher moderna e outras besteiras

Uma mulher moderna é feita dos asteriscos da Leila Diniz, da sabedoria de Simone de Beauvoir, do soco na mesa da Heloisa Helena, da curiosidade da Marília Gabriela, dos dribles de corpo da Marta - e todas usam henna, vão usar ou já pensaram como seria divertido pensar no assunto.
(Joaquim Ferreira dos Santos, in O Globo, 3 de dezembro de 2007)

Eu heim! Deus me livre! Só se for a sua mulher moderna, cara pálida! Nunca vi alguém pensar em uma combinação tão esdrúxula como esta.

***
Já que estou falando dos colunistas d'O Globo, acho que já era hora de pelo menos dois deles pedirem o chapéu: Artur Xexéo e Zuenir Ventura. Pra que ter alguém que só fala banalidades, que só comenta o que qualquer velhinho que você pegar na rua vai comentar? Uma das últimas colunas do Xexéo foi simplesmente sobre a falta de assunto. Quer truque mais velho e rasteiro do que esse? Parece até o Jabor! (Que volta e meia republica colunas inteiras). Fora aquelas colunas em que mais da metade é ocupada com um convite mandado por um assessor de imprensa de alguma pseudo-famosa. No soup for you, Xexéo!

Eu ainda ia escrever uma gracinha como "agora só falta ele chegar ao nível escrever em tópicos divididos por asteriscos para não precisar pensar muito e ter menos trabalho", mas aí lembrei que ele já faz isso...

***

Uma das partes mais divertidas de qualquer jornal é a das cartas de reclamação do consumidor. No Rio Show de sexta-feira passada, uma moça reclamava que a vendedora do McDonald's lambia os sorvetes para saber se eles estavam duros ou moles. A resposta da assessoria da rede de lanchonetes foi: "Os funcionários da filial foram reorientados".

Peraí! Antes eles eram realmente orientados a lamber o sorvete? Será essa uma prática comum nas sorveterias? Ou, pelo contrário, agora a nova recomendação é o método lambe-lambe? De qualquer forma, melhor evitar as deliciosas casquinhas de lá por um tempo. Ou não.


***

O blog mais divertido que já existiu sobre notícias é o finado Carlos Comenta. Corram lá e leiam o blog todo. É rápido e vale a pena. Se não forem, puta que pariu, minha senhora!

Ficha


Dica do Alessandro Martins. Se você também quiser fazer uma ficha, vá aqui.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Paul Johnson: as contradições de um intelectual

Eu gosto do Paul Johnson. Discordo de muito do que ele diz e não conheço as suas pesquisas na área da religião, que são o seu trabalho mais substantivo. Mas seus artigos na Spectator são quase sempre muito bons e sempre muito ricos – e polêmicos, diga-se. Aliás, uma das coisas que mais me atrai nesse senhor britânico é o seu estilo provocador, aliado a uma erudição impressionante. As duas obra de Johnson que já li, Tempos modernos (1984) e Os intelectuais (1988) têm muitos defeitos, mas são livros importantes e muito bem escritos. Essa é uma grande e rara capacidade desse historiador: consegue trazer uma massa impressionante de informações de uma forma admiravelmente simples, sem ser simplório.

Semana passada, acho, o Paulo Polzonoff linkou um artigo do Paul Johnson bem interessante, sobre o que devemos e o que não devemos saber sobre os homens (e mulheres) por trás dos livros que lemos. É melhor conhecer ou não a vida privada de nossos autores preferidos?

Eu particularmente não leio muitas biografias. Na verdade, no Brasil, o mercado editorial para biografias é bem restrito. Se as pessoas já não lêem os autores, imagina só se vão ler sobre a vida deles. Mas é impossível não cair na tentação de buscar pelo menos uma informaçãozinha, nem que seja na Internet. E é quase sempre decepcionante.

Grandes gênios costumam ser pessoas difíceis, que acabam tendo uma vida miserável. De certa forma, a arte mata a vida dessas pessoas. Ou então, no oposto, elas escrevem justamente para se salvarem de seus problemas. Um sábio doutor vienense já dizia que o artista é aquele capaz de direcionar, para sua arte, a sua neurose, aliviando, assim, suas tensões pulsionais, não é mesmo?

Pois Paul Johnson é bem claro em seu artigo da Spectator : “The truth is, an author and his works are best kept separate”. Um pouco antes, logo na primeira frase do texto, ele já havia observado que “I don’t want to know too much about writers”. Achei estranho, muito estranho. Para quem não sabe, o livro citado acima, Os intelectuais, parte de uma premissa muito interessante, e sociologicamente muito relevante: “Ao longo dos últimos 200 anos, a influência dos intelectuais vem crescendo regularmente. Na verdade, o surgimento do intelectual secular foi um fator decisivo para dar forma ao mundo moderno” (p. 11). Nada mais verdadeiro. O que Johnson procura mostrar em seu livro é o perigo que confiar o destino humano a essas “figuras seculares” pode trazer. O Autor busca, portanto, na biografia de muitos dos mais proeminentes intelectuais modernos – de Rousseau a Edmund Wilson, passando por Marx, Ibsen e Tolstoi, dentre outros –, as contradições daquilo que de fato faziam com o que escreviam em seus livros, para procurar desconstruir, assim, a moral que promulgavam.

Daí minha incompreensão do artigo publicado na Spectator Magazine de outubro. Afinal, é ou não é importante conhecer a vida dos intelectuais? Ainda pensei que poderia ser possível fazer uma distinção entre escritores de literatura e ideólogos ou teóricos, mas em “Os intelectuais” Johnson escrutina a vida de um Ibsen, um Shelley, um Tolstoi, um Brecht e outros literatos. Ainda pode-se argumentar que todos estes autores possuem um claro vezo ideológico, um claro engajamento político. É verdade. Mas mesmo assim, qual é exatamente a relevância ou, mais do que isso, em que medida trazer essas informações contribui para uma suposta desmoralização de suas obras? Se Tolstoi era um péssimo administrador, se maltratava os seus cavalos, se era ou não gnóstico, se tinha uma vida sexual conturbada, se arruinou sua família, até que ponto isso interfere no fato de “Guerra e paz” ser uma obra-prima?

Até compreendo que em alguns casos conhecer os fatos expostos por Johnson seja bem importante. Por exemplo, no caso de Karl Marx, descobrir que o filósofo alemão falsificava os Livros Azuis da biblioteca do British Museum, utilizava dados fabris ultrapassados ou lia mal as estatísticas, isso sim ajuda a por em xeque a sua análise do sistema capitalista. Mas saber se ele era um mau amigo, mau marido e um péssimo pai, isso, sinceramente, não tem relevância nenhuma para entender o legado de Marx. Pelo contrário, só me deixa mais receoso em relação às informações sérias apresentadas: Johnson quer desmoralizar a obra ou simplesmente mostrar os furúnculos do traseiro do barbudão?

Acho tudo muito contraditório em Paul Johnson, apesar de gostar de muita coisa do que ele escreve, e achar importante o papel que cumpre no mundo intelectual. Mas se é para mostrar as contradições dos intelectuais, estudar o próprio Paul Johnson pode ser um bom começo.