Eu tenho um monte de defeitos. Vários e vários. Conheço poucas pessoas que consigam reunir um número tão alto de defeitos e tão baixo de qualidades. Quando morrer, pretendo doar o meu corpo para a ciência, no intuito de conseguir uma explicação. Não pensei ainda em uma forma de ser avisado dos resultados, mas estou tentando bolar alguma coisa.
Mas o maior dos meus defeitos, aquele que mais me incomoda, é a minha incapacidade de ser um “small talker”, de jogar conversa fora e tal. Não sei qual seria a tradução mais exata para essa brilhante expressão forasteira, mas o fato é que simplesmente não consigo puxar esses pequenos assuntos, essas conversas que não dão em nada. Tampouco sei dar prosseguimento, caso alguém venha com small talk pra cima de mim. Acho que aí reside o meu principal problema em fazer amigos e influenciar pessoas. Daí também resulta, penso eu, a minha fixação por Seinfeld: ali está a genialidade de jogar conversa fora, de falar sobre o nada.
Tipo outro dia, eu estava tentando puxar assunto com uma menina e tal. A primeira prova de incompetência na arte do small talk é começar falando do tempo. Eu consegui entrar no assunto “clima” duas vezes em, sei lá, três minutos:
Eu: Opa, tá um calor infernal, né?
Ela: É, né.
Eu: Aqui no Rio não tem perdão. Faz calor toda hora, que desgraça.
Ela: É sim.
Eu: E eu ainda detesto praia, ou seja, fico só com o ponto negativo do verão. E a gente nem tá no verão, veja só.
Ela: Eu gosto de praia e do verão.
Percebendo que os rumos da conversa estavam equivocados, parti pra outro tópico:
Eu: Mas, heim, nunca entendi muito bem a coisa-em-si kantiana. Quer dizer que esse copo de guaraná está em uma espécie de dimensão fora do espaço-tempo, sem nenhuma materialidade, e na verdade são as categorias da minha mente que conferem a ele essas qualidades, que dão unidade a ele e que nos permite, comumente, chamar de “real”?
Ela: Quê?
Lá vou eu de novo tentar minha conversa mole e...
Eu: Mas acho engraçado que, quando faz calor, as pessoas reclamam que está quente, que se fica todo suado e tal, e vão pra praia, vão tomar banho... Aí chove e nego reclama que fica todo molhado porque, obviamente, a chuva é molhada. Qual é o problema que as pessoas tem com a água, por que elas sempre reclamam da água, mas logo depois a principal diversão é se molhar? Que obsessão é essa? Será que é um conflito do nosso
ethos português com as nossas tradições indígenas?
Ela: Você tem algum problema?
Acho que eu deveria conhecer mais meteorologistas.
***
Tal qual na academia de ginástica. Lá só rola small talk mesmo. E eu nunca tenho nada pra dizer, afinal não sei o nome de nenhum músculo do corpo humano e de nenhum aparelho, que não o supino. Então só me resta falar coisas estúpidas como "pô, tá vendo aquele supino imenso ali?". Aí a menininha olha toda empolgada pra mim, já começa a suspirar quando eu digo "pois é, não consigo nem tirar do chão", e aí ela sai de perto como seu eu cheirasse mal. Alguns diriam que é o cheiro do fracasso, mas eu prefiro pensar, sei lá, eu não consigo pensar nada de muito melhor não.
Ah, outro dia eu também chamei a atenção de um bombadão lá, porque ele tinha deixado os pesos nos aparelhos. Eu posso até fazer tudo de errado na academia - e realmente faço - mas tirar os pesos quando eu termino é questão de honra.
Outro dia eu também chamei a atenção de uma menina. Ela soltou um peso (por sorte não era um supino) no meu pé e doeu um bocado.
Eu só falei isso pra dizer que, sinto muito mulheres de academia, mas eu acho muito pouca graça nas roupas que vocês usam. E, de verdade, aquela cara que vocês fazem quando estão levantando pesos muito fortes, tipo uma cara de dor, é muito pouco sensual. Muito pouco mesmo. Tem um aparelho lá, que eu dei o nome de "treme-cara de dor-treme" (a pessoa chega no aparelho, dá uma tremida, faz uma cara de dor, e depois dá uma outra tremida. Tenho certeza que não serve pra nada), que devia ser proibido, de tão constrangedor que é olhar alguém fazendo. Eu, por exemplo, prefiro não pegar peso nenhum a fazer cara de quem sente dor por levantar algo muito pesado. Tem dias, inclusive, que vou pra academia só pra dar um passeio, jogar uma conversa fora e tal. Qualquer coisa é melhor do que "treme-cara de dor-treme".