sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Aquilo lá de cima

Estou pensando em mudar a imagem lá de cima do blog (eu deveria saber o nome daquilo, e acho que até sabia, mas esqueci). O que vocês acham? Eu sei que muita gente desistiu de comentar no blog, o que é compreensível, sem dúvida. Mas queria opiniões. Duas ou três... E sugestões de imagens interessantes também.

Para quem não sabe (não lembro se já comentei aqui), a atual imagem do cabeçalho (talvez seja esse o nome?) é uma parte do quadro "Caronte atravessando a lagoa Estígia", de Joachim Patinir.



quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Família

A minha avó contratou uma faxineira.
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E limpou a casa toda um dia antes dela aparecer, para não deixar uma má impressão.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Clipes

Eu não vejo MTV há muito tempo. Na verdade, desde que o M ainda fazia algum sentido. Não faz mais, dizem. Eu gostava de clipes. Podia nem gostar das músicas, mas gostava dos clipes, principalmente daqueles que contavam mini-historinhas. Normalmente eram coisas bestas, mas eu achava uma graça danada naquilo. Às vezes até tirava o som da tv e ficava bolando diálogos imaginários entre os personagens.

Outro dia um amigo me falou que ninguém mais produz clipe. Não são necessários. Daí a MTV praticamente não vinculá-los em sua programação. São caros demais e não trazem muitos resultados. Eu não sei quando isso começou. Várias das bandas que me interessam eu conheci a partir dos clipes que via na tv.

Vou postar aqui nesse blog alguns dos meus clipes preferidos. O critério é basicamente o visual mesmo. Gosto de clipes de bandas que abomino e de músicas que detesto. Começo hoje com “Everlong”, do Foo Fighters, que não é o caso. Na verdade, quase todos os clipes daqui poderiam ser dessa banda. Achei os últimos cd’s do Foo Fighters muito chatos e não conheço os últimos clipes, mas eles caprichavam, antigamente. Agora viraram uma banda chata, quase burocrática, e perderam o que tinham de melhor, que era a graça. Salvo exceções, o que me interessa em uma banda é que ela seja divertida e os clipes do Foo Fighters eram demais. E quando não eram exatamente divertidos eram muito originais. Foo Fighters foi a única coisa boa que o Kurt Cobain fez. Que descanse em paz.

Quem quiser pode sugerir clipes aí nos comentários, até porque eu não conheço os clipes dos últimos cinco ou seis anos, pelo menos.

Quem quiser aprender como se come Mentos, sugiro esse clipe do Foo Fighters

OBS: Eu não sei se por culpa do Blogger ou do Google Videos o clipe não estava abrindo. Prefiro culpar o Blogger sempre, porque é uma porcaria mesmo. Troquei para o Youtube, que tem uma resolução muito pior. Paciência. Em todo caso, quem quiser pode ver o clipe aqui.

OBS²: Tá bom, desisto. Acho que isso não vai funcionar. Parece que o clipe dessa vez foi retirado do ar. Tento pela última vez.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Notas mentais

- Nunca sair de casa no horário de uma partida do Flamengo.


- Nunca provocar crianças flamenguistas.


- Aprender a diferenciar fogos de tiros.


- Nunca sair correndo com um copo de café quente na mão.


- Nunca pedir um café tamanho grande só porque o copo é mais bacana.


- O Rio não é Londres.

sábado, 24 de novembro de 2007

Brevidades e obviedades

Pondo-se a ruminar (não era o Nietzsche que dizia que para compreender sua filosofia era necessário “ser quase uma vaca”?), Brás Cubas chega à brilhante conclusão de que fixar o olhar ao nariz é ensimesmar-se, perder de vista o mundo exterior. Se o amor é procriação, o nariz é o equilíbrio.

Há, no entanto, uma outra ponta fundamental para a humanidade, e eu não falo aqui de drogas, seus enfumaçados. É a ponta do sapato ou do tênis. Quantas conversas chatas, quantas broncas tomadas, quantas horas sem ter o que fazer, quantos momentos constrangedores foram amenizados simplesmente com esse breve movimento de olhar para baixo? O elevador! Como andar de elevador sem poder olhar para a ponta do sapato?!

Eu fiquei pensando na importância da ponta do sapato ou do tênis para a civilização. Quantos vexames notórios, quantas brigas e guerras, quantos suicídios não foram evitados por conta dessa pontinha? Olhar para a ponta do sapato é conter boa parte da nossas pulsões, dos nossos instintos mais irracionais. A ponta do sapato é um dos pilares da civilização.



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Perguntar ofende [1]:

Por que diabos as pessoas dizem, após dar uma opinião, que “ninguém é obrigado a concordar com a minha opinião, claro”? Não é claro que alguém não precise acatar a sua opinião. É o óbvio ululante, evidente, intuitivo, patente, manifesto, incontestável. As pessoas que dizem isso devem levar suas opiniões muito a sério, devem se levar muito a sério, só pode ser.

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Perguntar ofende [2]:

Por que as pessoas sabem o que tem que fazer, sabem exatamente as conseqüências que o fazer ou o não fazer vão trazer e, mesmo assim, reclamam e dizem que o mundo conspira contra elas após o resultado evidente acontecer? Aliás, a pessoa que acha que o mundo e o universo vão ser dar ao trabalho de conspirar contra ela deve ser a mesma da pergunta [1]. A pessoa tem que se achar relevante demais.

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Boa parte das visitas desse blog são fruto do texto sobre a palestra do professor americano Randy Pausch. Ultimamente as visitas aumentaram – o que me surpreendeu bastante. Fui ver se ele havia morrido, mas não, ele está para escrever um livro. O mais inusitado é que o livro ainda não escrito já teve os seus direitos comprados!

Não é uma temeridade comprar os direitos de um paciente terminal, antes do livro ser concluído? Esse fato só demonstra a pressa e a falta de critérios das editoras. Depois não sabem os motivos da quantidade de porcarias publicadas por aí. Não que isso me interesse, porque não leio mais os autores contemporâneos. Aliás, que vontade me deu de reler Ilusões perdidas, do Balzac!

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Mas eu fiquei conjeturando sobre o que faria se soubesse da proximidade da morte. Sem dúvida não ia escrever um livro, de jeito nenhum. Mas depois pensei que é uma besteira esse tipo de raciocínio. Simplesmente não dá para se colocar nessa situação, não dá para imaginar o que é se sentir à beira da morte. Melhor ir tomar um sorvete de flocos.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Fundindo a cuca

Acabei de ler n’O Globo que o livro Fora de órbita, do Woody Allen, vai ser lançado no Brasil em dezembro. A notícia me deixou tenso. Fiquei andando de um lado para o outro na sala aqui de casa até me cansar. A pergunta que me atormentava era aparentemente simples: “que diabos eu faço com esse livro?”.

Eu cresci assistindo aos filmes do Woody Allen. Meus pais sempre alugavam e eu acaba vendo uma parte aqui, outra acolá. Dificilmente agüentava assistir tudo, porque os filmes dele – mesmo as comédias mais bobas – não são tão fáceis para uma criança de 10 anos. Mas a figura daquele nova-iorquino franzino e careca me chamava muito a atenção. Seu jeito peculiar de falar, de mover os braços, suas neuroses, tudo aquilo era atraente demais. Não tinha como não ser bom.

Aos treze anos experimentei meu primeiro Woody Allen sozinho. Foi um momento crucial, porque eu deveria decidir se gostava ou não daquilo. Uns dias antes havia visto no cinema “Celebridades”, e admito que não gostei. Achei o filme chato, sem graça. Precisava tirar a prova dos nove. Fui na locadora e voltei para casa com “Um misterioso assassinato em Manhattan”. Hoje em dia admito que não é dos melhores, mas é um excelente filme. Não desgrudei mais. Subi no sofá e gritei, segurando a caixa do VHS: “Preciso ver tudo desse sujeitinho!”.

Levei realmente a sério isso e durante anos me alimentei basicamente de Woody Allen e Sucrilhos Kellogg's®. Não há nenhum exagero em dizer que Woody Allen moldou meu caráter, assim como não há exagero em dizer que Sucrilhos Kellogg's® diminuiu drasticamente minhas expectativas de vida. Durante uma época eu até gesticulava e gaguejava como ele. Boa parte das minhas neuroses, dos meus hábitos, do meu humor, da minha visão sobre relacionamentos, dos meus interesses, das minhas referências, enfim, meus modos de agir e de ser, são provenientes de "Annie Hall", "Hannah e Suas Irmãs", et cetera. Durante um tempo até a Diane Keaton foi meu modelo de mulher interessante, vejam só.

Não sei se essa minha fixação por Woody Allen é boa ou não. Eu aprendi muito com ele, mas também me tornei uma pessoa mais difícil de se lidar. Volta e meia, quando não sei muito bem como reagir a uma situação, me pego imaginando como seus personagens iriam se sair da enrascada. O problema é que eles nunca se saem muito bem, eles nunca sabem ao certo o que fazer.

Mas eu falo mais de Woody Allen outro dia. O problema aqui é o livro dele que será lançado em dezembro. Por que eu fiquei ambulando (sim, essa palavra parece não existir, mas tento institucionalizá-la desde os meus doze anos) pela sala até a exaustão? Porque eu nunca li um livro do Woody Allen. Essa não é a frustração. Pelo contrário, isso é uma defesa para uma possível decepção. O lançamento desse livro, no entanto, recoloca algumas questões que me atormentaram por muito tempo. Sempre evitei ler os livros dele porque queria guardar alguma coisa para quando já tivesse visto todos os seus filmes. O momento chegou, eu acho. Claro que existem os filmes inéditos já que, graças aos deuses do cinema, o velhinho de 71 anos continua na ativa. Mas tudo que há na locadora eu já vi, a maioria mais de uma vez.

É sempre bom rever os filmes do Woody Allen, mas nunca é a mesma coisa, nunca é a mesma surpresa, por mais que, em muitas ocasiões, eu tenho gostado mais quando vi pela segunda vez. Há vantagens em rever filmes: você pode ficar mais atento às interpretações dos atores, às sutilezas da direção e da fotografia, às piadas, às referências externas e internas (se não tivesse visto “A flor do meu segredo” do Almodóvar após assistir “Volver” nunca saberia que a história deste já está posta naquele, por exemplo) e, claro, as percepções nunca são as mesmas, já que o espectador será sempre diferente, normalmente mais maduro, com um gosto mais apurado, com mais bagagem. Mas raramente é um filme completamente novo.

Será que chegou a hora de engolir o medo (covardia?) e ler os livros do Woody Allen? Não sei, vou lá andar mais um pouco.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Música do dia

Argh! Quanta teia de aranha nesse espaço! Mas vou retirando aos poucos esses bichos malditos daqui, prometo.

Vamos devagar, com uma Música do Dia (deveria ser música do mês, né?).

Como disse em algum lugar desse espaço, nunca gostei muito de música, ou pelo menos nunca liguei tanto. Poucas bandas me acompanham desde que eu era criança. Na verdade acho que não existe nenhum conjunto ou cantor que tenha ficado. Chico Buarque, por exemplo, eu ouvi quase tudo, na vitrola da minha avó. Hoje em dia simplesmente não suporto.

Durante uma época da minha adolescência eu ouvi muita música. “Jovens, envelheçam”. Este talvez seja um dos clichês rodriguianos máximos. Mas é verdade. Em música isso faz todo o sentido. O que eu ouvia na adolescência era, em boa parte, uma grande porcaria. Foi uma época ótima, e foi bom ter ouvido tantas coisas ruins e freqüentado tantos lugares insalubres, incluindo dimensões paralelas (não, eu nunca usei drogas).

A maioria das coisas que eu ouvia nessa fase me dá até certa vergonha hoje em dia, e eu realmente nunca mais tive a curiosidade de colocar os cd’s no aparelho de som (até porque eu não tenho aparelho de som). Outras eu ouço bem pouco, apenas por uma certa sensação besta de “volta às origens”, para achar graça do negócio todo. Mas algumas dessas bandas que eu ouvia ficaram. Coisas que eu realmente gosto. Uma delas é essa aí que segue, Fugazi. Na verdade não ouvia há algum tempo, mas tive um lapso mental e voltei a escutar algumas bandas de hardcore.





*Não sei bem o motivo (acho que problema no servidor), mas nem sempre a música está funcionando.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

O Pedro Sette Câmara, do blog O Indivíduo, fechou, nessa semana, um ciclo do “Domingo com poesia”, que só voltará depois do carnaval. Não poderia ser com poema melhor: “In Passim”, um dos meus preferidos do Bruno Tolentino. Deixo aqui a poesia e recomendo a todos que ouçam o áudio e leiam o texto do Pedro Sette Câmara lá no site.

In Passim

Tudo vai-se acabando, tudo passa
do que é ao que era. É tudo mais
ou menos uns vestígios de fumaça
no espaço do que deixas para trás.

E tudo o que deixaste ou deixarás
de manso ou de repente, sem que faça
diferença nenhuma no fugaz,
é assim como a garoa na vidraça:

intimações de lágrima delida.
Não valeu chorar nada. Nem te atrevas
a lamentar-te à porta da saída,

pois pouco importa a vida como a levas,
que ela te leva a ti, de despedida
em despedida, a uma lição de trevas.

(In)Segurança ontológica

Só o passado verdadeiramente nos pertence.
O presente... O presente não existe:
Le moment où je parle est déjà loin de moi.
O futuro diz o povo que a Deus pertence.
A Deus... Ora, adeus!
(Manuel Bandeira)

Gostaria de ter a confiança de Manuel Bandeira no passado, mas é impossível. Cada vez mais me convenço de que não é possível confiar em nada, de que coisa alguma possui um mínimo de estabilidade, de segurança.

Não, o passado não nos pertence. Se o futuro não está ao nosso alcance, e portanto não podemos ter controle sobre ele, e o presente é sempre fugidio, o passado tampouco existe em si. E mesmo que exista, isso é irrelevante, porque ele não pode ser apreendido como algo estável, uma vez que o passado está em nós, e não no mundo. O que vale mesmo é a impressão do passado.

Não importa se o seu primeiro beijo foi deste ou daquele jeito, se a sua festa de aniversário de 3 anos foi animadíssima ou um saco, se aquela garota que você conheceu no carnaval era de fato deslumbrante ou assustadora. No final, o que conta é a lembrança que trazemos daqueles momentos, a forma como moldamos, em nós mesmos, a situação vivida. Pensando assim, me sinto tentado até concluir que o Passado, com pê maiúsculo, não existe, pois tudo são reelaborações presentes, de momentos que, a seu tempo, também foram presentes.

Mas voltemos ao objetivo desse texto. O grande problema de se dar conta de que a todo tempo estamos reelaborando o passado, de forma involuntária, diga-se, é perceber que até aquilo que tínhamos de mais precioso, e a princípio seguro, pode perder-se, pode tornar-se uma lembrança ruim ou ao menos pior do que aquela original. E o mais duro é que sabemos que dificilmente haverá volta, pois os fatos jamais se repetirão e novamente dependeremos de nossas elaborações mentais.

E eu não falo aqui da substituição de uma lembrança por outra, quando, por exemplo, relemos um livro ou revemos uma paisagem e essa segunda impressão acaba afetando nossa memória e tomando o lugar da anterior. Há livros, por exemplo (e não necessariamente os que mais gosto, mas normalmente aqueles que me trazem algum tipo de recordação extra-leitura, além do prazer do livro em si), que simplesmente não releio ou sequer penso sobre, como uma espécie de auto-defesa.

A coisa, me parece, fica mais grave quando, por alguma outro motivo – como uma informação nova, uma outra lembrança antes adormecida, uma revelação no presente ou, para ficarmos em termos mais gerais, simplesmente uma nova perspectiva das situações, como aquela que temos após um longo período de reflexão ou amadurecimento – esse passado é alterado e tudo aquilo em que se acreditava vira fumaça. E aí, o que você faz? O passado não é algo simples de esquecer, cobra seu preço e somos obrigados a carregá-lo, querendo ou não.

Eu não sei como lidar com essa situação. Ver o passado que você conhecia, aquele que “verdadeiramente nos pertence”, como diz o Bandeira, indo embora, desmoronando e se tornando algo pior é muito duro, muito penoso. “Perder” o passado é, também, perder uma parte da sua vida, sem maiores perspectivas de recuperação.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

O céu

Não sei bem o motivo, mas o céu vem me incomodando muito ultimamente. Incomodando no bom sentido, de instigar. É uma mistura estranha de medo, assombro e mistério. O céu do Rio anda muito estranho por esses dias, e eu tenho dedicado um bom tempo a ficar parado, só observando a movimentação das nuvens, coisa que nunca fui de fazer.

Aliás, olhar para cima é algo que muda completamente a sua perspectiva das coisas. Na pressa do dia-a-dia nunca olhamos para o alto, para os edifícios, para as árvores. Outro dia me dei conta de que nem o meu prédio eu sabia direito como era, porque simplesmente chego e olho direto para a portaria. Agora tenho observado muito os prédios (horrorosos, deus, como são feios os prédios), e isso dá, de verdade, uma nova visão das coisas, espacialmente falando. O céu muda de acordo com os tamanhos e as formas, as ruas ficam mais ou menos estreitas, o clima fica diferente. É muito pouco olhar só pra frente e para baixo.

Deixo aqui algumas das imagens do céu que mais gosto.










quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Tradicionalismo culinário e um pouco de Gilberto Freyre

Eu não vou aqui discutir se o povo brasileiro é ou não conservador. Esse tema é um topos clássico das ciências sociais brasileiras e me meter a falar desse assunto neste blog implicaria, ou uma simplificação muito grosseira do tema, ou um debate acadêmico demais, pouco adequado para esse espaço.

Mas achei no mínimo curiosas as propagandas do restaurante carioca La Mole, que, como vocês podem ver, apelam para o antigo em detrimento do novo, para o tradicional e já conhecido no lugar das modernosas experimentações. Isso não é nada comum no meio da publicidade. Muito pelo contrário, as propagandas procuram sempre mostrar o quanto o produto apresentado é inovador e diferente, e que está aí para revolucionar as mesmices de sempre. Os propagandistas fazem isso porque partem do princípio de que as pessoas querem coisas novas e inusitadas, ou porque querem nos convencer de que seus produtos são capazes de superar o que já nos é oferecido. As propagandas, então, nos exortam a experimentar, a viver a vida perigosamente e essas coisas todas que vocês já sabem.

Mas não é tão óbvio assim que as pessoas sempre queiram as novidades. Pelo contrário, acredito que os pratos clássicos e típicos ainda possuem uma força poderosa em nossa cultura gastronômica. Por isso acho interessante a propaganda do La Mole, que investe em parodiar as invencionices para marcar as qualidades do “arroz com feijão”, para ficarmos em expressões culinárias. Tenho curiosidade de saber quais foram os resultados que o restaurante já colheu com sua publicidade, mas acredito que tenham sido positivos, independente do povo brasileiro ser ou não conservador.

Agora, reparem só na propaganda do “Avestruz à piamontesa”. Eles dizem que o arroz à piamontesa deles é uma adaptação da receita original! Eu até pensei em ir ao La Mole, só por causa da propaganda que eles fizeram, mas sabem como é, sou um reacionário da culinária, sou um tradicionalista gastronômico, sou um purista do arroz à piemontese.

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Logo que vi as propagandas do La Mole fiquei com vontade de reler o “Manifesto Regionalista”, do Gilberto Frerye. O tema principal do “Manifesto” consiste na discussão das tensões entre tradição e modernidade no Brasil do princípio do século passado. O texto, lido no Primeiro Congresso Regionalista do Recife (1926), procura enfatizar a “reabilitação de valores regionais e tradicionais” da região nordestina, que estariam, segundo o Autor, desaparecendo por conta do “furor neófilo de dirigentes que, entre nós, passam por adiantados e progressistas, pelo fato de imitarem cega e desbragadamente a novidade estrangeira”. O Mestre de Apipucos debruça-se particularmente na perda das tradições culinárias: “toda essa tradição [culinária] está em declínio ou, pelo menos, em crise, no Nordeste. E uma cozinha em crise significa uma civilização inteira em perigo: o perigo de descaracterizar-se”, diz o Autor.

Deixo aqui alguns dos trechos mais interessantes (curiosos, na verdade):

E sempre muito lírico, o português foi dando aos seus doces e quitutes, no Brasil, nomes tão delicados como os de alguns de seus poemas ou de seus madrigais: Pudim de Iáiá, Arrufos de Sinhá, Bolo de Noiva, Pudim de Veludo. Nomes macios como os próprios doces. E não apenas nomes de um cru realismo, ás vezes lúbricos, como "barrigas de freira"

Sobre as negras baianas:
mulheres, quase sempre imensas de gordas que, sentadas á esquina de uma rua ou á sombra de uma igreja, pareciam tornar-se, de tão corpulentas, o centro da rua ou do páteo da igreja. Sua majestade era ás vezes a de monumentos. Estátuas gigantescas de carne. E não simples mulheres iguais ás outras.

O próprio côco verde é aqui considerado tão vergonhoso como a gameleira, que os estetas municipais vêm substituindo pelo "ficus benjamin" (...) Ao voltar da Europa há três anos, um dos meus primeiros desapontamentos foi o de saber que a água de côco verde era refresco que não se servia nos cafés elegantes do Recife”.

Raras são hoje, as casas do Nordeste onde ainda se encontrem mesa e sobremesa ortodoxamente regionais: fôrno e fogão onde se cosinhem os quitutes tradicionais á boa moda antiga. O doce de lata domina. A conserva impera. O pastel afrancesado reina.

As novas gerações de moças já não sabem, entre nós, a não ser entre a gente mais modesta, fazer um doce ou guisado tradicional e regional. Já não têm gôsto nem tempo para lêr os velhos livros de receitas de família. Quando a verdade é que, depois dos livros de missa, são os livros de receitas de doces e de guisados os que devem receber das mulheres leitura mais atenta. O senso de devoção e o de obrigação devem completar-se nas mulheres do Brasil, tornando-as boas cristãs e ao mesmo tempo boas quituteiras para assim criarem melhor os filhos e concorrerem para a felicidade nacional. Não há povo feliz quando ás suas mulheres falta a arte culinária. É uma falta quase tão grave como a de fé religiosa.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Ah, o céu...

Sob o céu de Teresópolis

Digamos que ando sem vontade de escrever. Ou falta de criatividade. Ou falta de tempo. Ou falta de assunto. Vocês escolhem.

Deixo por hoje essa fotografia, tirada nesse último fim de semana, em Teresópolis, no cair da tarde. Eu achei bonita. Acho céu uma coisa muito bonita. Escrevi, aliás, um texto sobre a luz do céu nos quadros do pintor flamengo Joachim Patinir. É um dos primeiros textos desse blog. Se alguém se interessar, está aqui.

Algumas fotos novas lá no Flickr

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Dá-lhe Montaigne!

Trecho do “plano-piloto para poesia concreta” (1958), de Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos.

poesia concreta: produto de uma evolução crítica de formas dando por encerrado o ciclo histórico do verso (unidade rítmico-formal), a poesia concreta começa por tomar conhecimento do espaço gráfico como agente estrutura. espaço qualificado: estrutura espácio-temporal, em vez de desenvolvimento meramente temporístico-linear, daí a importância da idéia de ideograma, desde o seu sentido geral de sintaxe espacial ou visual, até o seu sentido específico (fenollosa/pound) de método de compor baseado na justaposição direta – analógica, não lógico-discursiva – de elementos. “il faut que notre intelligence s’habitue à comprendre synthético-ideographiquement au lieu de anlytico-discursivement” (apollinaire). eisenstein: ideograma e montagem.

*bocejo*

Poesia "beba coca cola" (1957), de Décio Pignatari



Poesia "O ovo" (300 a.C), de Simias de Rodes




Poesia "ovonovelo" (1956), de Augusto de Campos



Dá-lhe Montaigne!

Ensaios, vol. 1, cap. LIV, “Das vãs sutilezas” (aprox. 1580), de Michel de Montaigne:

“Os homens recorrem por vezes a sutilezas fúteis e vãs para atrair nossa atenção. Assim, os que escrevem poemas inteiros em que todos os versos começam pela mesma letra. Na antiga literatura grega deparamos com poemas em forma de ovo, de bola, de asa, de machadinha, obtidos mediante a variação das medidas dos versos que se encurtam ou alongam para, em conjunto, representar tal ou qual imagem (...) É prova irrefutável da fraqueza de nosso julgamento apaixonarmo-nos pelas coisas só porque são raras e inéditas, ou ainda porque apresentam alguma dificuldade, muito embora não sejam nem boas nem úteis em si”.

domingo, 4 de novembro de 2007

Onde foram parar meus princípios?

Não é que desde que comecei a estudar Freud lembro dos meus sonhos, tento analisá-los e tudo faz um sentido danado? Eu heim!

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Academia de ginástica

Hoje eu me matriculei pela terceira vez em uma academia de ginástica.

Na primeira vez, na hora de fazer o exame físico, o instrutor pediu que eu tirasse a camisa: não fazia isso em público há uns cinco anos. Observei o balançar de sua cabeça, em negação. Ele olhava para a ficha que tinha em mãos e para as minhas costelas, quando lançou um: “você é todo errado, heim”. Tomei isso como um elogio: “vai ver que por errado ele quis dizer diferente, e por diferente alguma coisa especial, que foge do padrão”. Eu, o rapaz especial da academia, fui todo feliz no dia seguinte, completamente a fim de levantar uns supinos (supino é alguma coisa que se levanta?). Percebi que o instrutor não tirava os olhos da minha camiseta. Num dado momento ele vira pra mim e pergunta o que estava escrito nela. Era uma camiseta da banda californiana Black Flag:

- Black Flag

- Que quer dizer...

- Bandeira negra

- É racista essa coisa aí?

- De jeito nenhum!

- Tu é racista, né? Aí, se tu for racista eu vou chamar os meus colegas pra te encher de porrada.

- Que isso! Deve ser algum mal entendido! Longe de mim!

E assim terminou minha primeira saga em busca do corpo perfeito.

Ano passado resolvi tentar outra vez. Escolhi uma roupa que não pudesse afetar qualquer minoria. Por coincidência, quando cheguei no instrutor, havia um senhor de 72 anos também fazendo sua série. Talvez para poupar tempo o professor de ginástica deu a mesma série para nós dois. Achei estranho: um rapaz de 20 anos e um senhor de 72 fazendo os mesmos exercícios? Olhei com pena para o vovô: sabia que ele não resistiria. Nossos horários eram bastante próximos e pude perceber que meu colega de cabelos brancos era um bocado persistente. Passado um mês era hora de renovar a série. Fomos vovô e eu falar com o Jim Carrey (eu dou nomes aleatórios para os instrutores). O que aquele senhor tão esforçado pensaria quando Jim diminuísse sua carga e aumentasse vertiginosamente a minha? Mas não é que, para minha surpresa, O Máscara resolveu aumentar a série do Costinha (eu também dou nomes aleatórios aos alunos)? A minha seria tão forte que possivelmente eu teria que pedir para que o instrutor pegasse mais leve. Ele olhou para mim de forma estranha – logo imaginei que minha camisa pudesse conter alguma referência racista – e disse: “é, vamos manter assim um pouco mais?”. Na hora juro que não entendi direito, e simplesmente consenti. Depois, enquanto levantava alguns (poucos) supinos (supino é alguma coisa que se levanta?), é que me dei conta que o desempenho do senhor de 72 anos havia sido melhor do que o meu. Ainda continuei na academia por mais um mês, mas acabei desistindo ao perceber que aquele simpático senhor de cabelos brancos além de fazer uma série esmagadoramente mais pesada do que a minha ainda por cima conseguia correr o dobro de tempo na esteira.

Pois bem, hoje, como já disse, fui estrear a minha terceira academia. E não é que, na hora de fazer a série, dei de cara com uma menina branquinha e magrinha, bonitinha mesmo, com um livro do Goethe debaixo do braço (Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister – espirituosamente ainda perguntei se ela utilizaria esse “tijolinho” como peso)?! Ao explicar que fazia ciências sociais, ficamos um tempo discutindo o conceito lukácsiano de reificação enquanto fazíamos abdominais em uma bola gigante de borracha amarela. O resto você já imaginam: passamos horas andando na esteira e recitando Virgílio e nos questionando sobre a superioridade ou não de Balzac sobre Stendhal – ela argumentava que O vermelho e o negro fluía melhor, que a narrativa era menos truncada, e eu insistia em ressaltar as qualidades sociológicas do autor da Comédia Humana. Depois, enquanto levantávamos nossos respectivos supinos (supino é alguma coisa que se levanta?), relembramos alguns apelidos divertidos que o José Guilherme Merquior dava a certos filósofos, tais como Derridá-ou-desce e Foucault, o Nietzsche calvo de Saint-Germain-des-Prés, e ficamos nós também dando apelidos engraçadinhos aos instrutores e aos alunos.








*Tá bom, tirando o trecho que envolve a menina branquinha e magrinha juro que todo o resto é verdade.