quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Meme

O negócio é que eu gosto de modinha. Então segue o meu primeiro meme, que peguei no As Metamorfoses de Psiquê.

Uma hora: Aurora – em parte por causa do filme, em parte porque eu quase nunca vejo (tenho o péssimo hábito de acordar tarde, porque tenho o péssimo hábito de dormir absurdamente tarde), e em boa parte porque me dá a esperança de que há esperança.

Um astro: Sempre tive uma fixação por Vênus, acho que por causa da deusa romana mesmo.

Um móvel: De uma cadeira aqui de casa na qual li alguns dos meus livros preferidos (depois disponibilizo a foto no Flickr).

Um líquido: Coca-cola, o líquido sagrado, o ouro negro.

Uma pedra preciosa: De verdade, meus conhecimentos sobre pedra preciosa tendem a zero.

Uma árvore: Ipê amarelo, porque é lindo, frágil e era o nome de uma produtora de desenhos infantis que eu adorava.

Uma flor: Gosto de hortências, porque me lembram as férias da minha infância em Teresópolis.

Uma cor: Azul, sempre azul.

Um animal: Peixes costumam me entreter.

Uma música: A Paixão Segundo São Mateus, do Bach, porque me lembra o filme O Sacrifício, do Andrei Tarkovski e eu fico todo arrepiado.

Um livro: Um só? Acho que O Vermelho e o Negro, do Stendhal, porque nunca consegui chegar perto de compreender Julien Sorel, mesmo tendo ele tão claro na minha mente.

Uma comida: Chocolate é comida, né?

Um lugar: There is no place like our home

Um verbo: Respirar, porque é algo que eu deveria fazer mais.

Uma expressão: “É batata!”

Um mês: Abril

Um número: 7, sei lá o motivo

Um instrumento musical: Clarinete, porque é o instrumento que o Woody Allen toca.

Estação do ano: Outono, porque gosto de folhas amarelas secas pelo chão e do clima agradável.

Um filme: Vixi... Aurora (1927), do Murnau, porque ele fala sobre todos os temas que me incomodam atualmente, e já era o meu filme preferido antes, por outros motivos.

Era pra passar o meme para cinco pessoas. Como não tenho nenhuma intimidade com qualquer blogueiro, fica em aberto.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

A falta de criatividade que assola a indústria de biscoitos

A única parte do supermercado que me interessa minimamente é a dos biscoitos. No entanto algo vem me chateando bastante: o que aconteceu com a criatividade das indústrias biscoiteiras? Há alguns anos não há nenhuma opção além dos tradicionais Oreo, Goiabinha (o tal do Roladinho de Goiaba), Trakinas, Bono, Passatempo, Chocolícia, Chocookie, o Biscoito da Vaquinha (de pomposo nome Leite Maltado), etc. As únicas variações são algumas misturas esdrúxulas de recheios ou uma certa onda maldita de chocolate branco. Parece-me que a última grande invenção do mundo dos biscoitos foi a Tortinha, mas isso já faz muito tempo. Em compensação, alguns clássicos não agüentaram a passagem dos anos. Falo, claro, do Mirabel e do Fofy, que fazem muita falta no mundo dos apreciadores de besteiras.



Enfim, fica aqui minha nota de preocupação com o vigor e inventividade desta tão necessária indústria, cujos produtos me acompanharam diariamente nas tardes modorrentas, enquanto, esparramado no sofá, assistia Sessão da Tarde.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Montaigne

Conheci Montaigne há pouco tempo, o que é uma pena. Recomendo a leitura dicumforça. Depois comento mais alguma coisa sobre ele, mas adianto que é uma das minhas leituras de cabeceira atualmente. Agora colo aqui apenas um trecho dos seus Ensaios (Ensaio I, cap. XXXIX, Da solidão), que tem muito a ver com o penúltimo post. Infelizmente não achei o texto em português, então vai em espanhol mesmo - não acredito que seja um problema.

Como dijeran a Sócrates que un individuo no había modificado su condición después de haber hecho un viaje: «Lo creo, respondió, sus vicios le acompañaron.». “¿Por qué ir en busca de regiones alumbradas por otro sol? ¿Acaso basta para huirse así mismo el huir de su país?”. Si el cuerpo y el alma no se desligan del peso que los oprime, el movimiento concentrará sólo la carga, como en un navío las mercancías ocupan menos espacio después del viaje. Mayor mal que bien se procura al enfermo haciéndole cambiar de lugar; el mal se comprime con el movimiento, como la estaca se introduce más en la tierra cuanto más se la empuja. No basta dejar el pueblo, no basta cambiar de sitio, es preciso apartarse de la general manera de ser que reside en nosotros, es necesario recogerse y entrar de lleno en la posesión de sí mismo. “He roto mis ligaduras, me diréis. ¿Pero acaso el perro que después de prolongados esfuerzos logra por fin escapar, no lleva casi siempre consigo buen trozo de su cadena?” Llevamos con nosotros la causa de nuestro tormento. No poseemos libertad completa; volvemos la vista hacia lo que hemos dejado y con ello llenamos nuestra imaginación: “Si nuestra alma no está bien gobernada, ¡cuántos son los combates que tenemos que sostener y cuántos los peligros que tenemos que afrontar! ¿Qué cuidados, qué temores, qué inquietudes no desgarran al hombre víctima de sus pasiones? ¿Qué estragos no producen en su alma el orgullo, la licencia, la cólera, el lujo y la ociosidad?”

Radica el mal en nuestra alma, y por consiguiente de ella no puede desligarse. Así, pues, es inevitable que aquélla se recoja y se asile en sí misma: tal es lo que constituye la soledad verdadera, que puede gozarse en medio de las ciudades y de los palacios, pero que se disfruta, sin embargo, con mayor comodidad en el aislamiento. Y pues que tratamos de vivir solos, prescindiendo de toda compañía, hagamos que nuestro contentamiento dependa únicamente de nosotros; desprendámonos de todo lazo que nos sujete a los demás; ganemos conscientemente él arte de vivir conforme a nuestra satisfacción.

Verdades

There's no place like our home.

domingo, 21 de outubro de 2007

Vou-me embora pra Caxambu

Está bem, Caxambu não daria um poema*. Mas é pra lá que eu vou, no 31° encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS), que começa dia 22 de outubro, também conhecido como amanhã. A decisão de ir só foi tomada hoje (devido a vários inconvenientes), então não deu tempo de prepara nada. O blog vai ficar parado durante esse tempo, pois acho muito difícil postar alguma coisa de lá. Mas quem sabe eu não dou um alô para vocês?

Caxambu não vai ser minha Pasárgada. Nem a cama, vejam só, será a que escolherei! Mas acredito que a viagem será boa. Fujo um pouco do calor do Rio e deixo algumas coisas para trás, o que nem sempre é bom. Contudo, algumas vezes faz-se necessário. Não adianta só mudar de paisagem, pois as coisas estão dentro de nós. Assim como Gretta Conroy, do fabuloso conto The Dead, de James Joyce, carregamos sempre conosco os nossos vivos e os nossos mortos. Não importa onde estivermos, sempre nos farão companhia. Todos nós trazemos na alma o nosso Michael Furey.

Mas Caxambu (do tupi Catã-mbu, ou “água que borbulha”) vejam só, é o maior complexo hidromineral do mundo, seja lá o que isso signifique. Quem sabe eu não consigo tempo para me energizar e revitalizar um pouco? Dentre as principais atrações da cidade, encontra-se um agradável “city-tour” de charrete e a visita “à (sic) criatórios e exposições de cavalos mangalarga marchador”. Não posso deixar de perder! Além do mais, dei sorte com a data do Congresso. De 20 a 30 de outubro essa aprazível cidade mineira “recebe e hospeda o Mestre Internacional de Xadrez, o cubano Gerardo Lebrero, que realizará demonstrações e fará palestras divulgando o esporte dos mestres”. A viagem promete fortes emoções!

Por enquanto é isso.
Abs.

*Na verdade existe um poema de Rui Barbosa sobre Caxambu!


***

- Não deixem de ler o genial jornal Caxambu Notícias (essa edição é de 2006, mas não aposto em muitas novidades). Atenção especial na coluna do impagável erudito Olavo Onunlavo, e não esqueçam de anotar o nome do Victor Luiz Pereira da Silva, um top model infantil que ainda vai dar o que falar.

- Quem gosta do Manú Bandeira pode escutar aqui Vou-me embora pra Pasárgada sendo recitada pelo próprio autor.

- Há um belíssimo filme baseado no conto do James Joyce acima citado: Os vivos e os mortos (na tradução brasileira), do John Huston. É impossível dizer qual o melhor, se o livro ou o filme, mas essa me parece a mais bem sucedida adaptação de uma obra literária já feita para o cinema.

Saindo de uma celebração de Dia de Reis em Dublin – isso já no final do filme – Gretta Conroy (interpretada por uma formidável Anjelica Huston) ouve uma tradicional canção irlandesa, "The Lass of Aughrim", que evoca involuntariamente na personagem recordações de sua juventude, as lembranças de Michel Furey, um ex-namorado que morrera de pneumonia, ao tentar vê-la de noite, em um rigoroso inverno irlandês. O vídeo que segue é o momento exato em que Gretta ouve a música. Reparem nas expressões do rosto de Anjelica Huston, sua respiração lenta, como se a vida (perdida) estivesse passando na sua frente, com um misto de felicidade pelos momentos vividos e da angústia da perda, da impossibilidade de recuperar o que já passou (no verso mais triste da língua portuguesa, “A vida inteira que podia ter sido e que não foi”). Reparem isso, principalmente, quando seus olhos abrem e se enchem de lágrimas, para fecharem novamente, agora em um aparente tom de resignação. Não sabemos se Gretta balança a cabeça com a melodia da tradicional música irlandesa ou em negação e lamentação. Acredito que pelos dois motivos. Gabriel Conroy, marido de Gretta, observa tudo do pé da escada, sem compreender as emoções que atravessam sua mulher. É uma das cenas antológicas do cinema, das mais emocionantes, não tenho dúvida.


sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Alguém ainda quer ler alguma coisa sobre Tropa de Elite?

Eu dei, meio a contragosto, sete moedinhas de um real para a bilheteira. Até tentei pegar de volta as duas últimas, mas não deu certo – a moça me olhou com uma cara estranha e fiquei um pouco constrangido. Eu não vejo um filme brasileiro há uns dois anos, desde o bom Cinema, aspirinas e urubus. Não faço questão nenhuma de ver filmes nacionais e não sairia de casa para ver Tropa de Elite no cinema, não fosse toda a polêmica que gerou. Polêmica normalmente é bom sinal.

Ainda assim fui receoso. Na sala não havia mais ninguém. Claro, todo mundo no Rio já viu, seja na cópia pirata, seja na pré-estréia (quantas pessoas cabem no Odeon? É impressionante como todo mundo viu Tropa de Elite na pré-estréia). Eu era a única pessoa que não tinha visto o filme, o que explica a sala vazia. Imagino que eles tirem Tropa (para os íntimos) de cartaz na próxima semana.

Todos já comentaram sobre o filme. Eu não tenho muita coisa a acrescentar ao debate. Muito provavelmente não tenho nada. Acho uma besteira dizer que é fascista. Por que ele é narrado por um policial do Bope? Alguém precisava contar a história. Se não fosse o policial do Bope ia ser um drogadinho da PUC (ou da UFRJ, ou da UERJ...), um PM, um ongueiro ou um traficante (os personagens centrais). Não me parece que qualquer uma dessas visões fosse menos limitada do que a apresentada. Podia até ser interessante a presença de mais de um narrador, mas isso talvez inviabilizasse o filme. Havia ainda a opção de ser um narrador onisciente – panóptico?, para ficarmos em termos foucauldianos –, alguém que fosse dar a impressão de que o que está ali exposto é A Verdade, A Realidade. Aí sim, Tropa poderia, sem maiores dificuldades, ser chamado de totalitário. Só o fato de ficar patente que o narrador é parcial já ajuda a desmontar a tese do “Tropa fascista”.

Ok, o filme é narrado de uma perspectiva favorável ao Bope, a tropa de elite da Polícia Militar carioca. O narrador, o Capitão Nascimento, procura a todo custo defender moralmente suas práticas, justificar seus atos e criticar o que não lhe convém. Se fizesse o contrário, aí sim não teria sentido. Sim, o Bope é apresentado como incorruptível, ainda mais se comparado à pífia Polícia Militar tout court exposta no filme – pequena, pobre, preguiçosa, desarticulada, corrupta.

Mas me parece um passo gigantesco afirmar que Tropa de Elite faz apologia do Bope, ou que é reacionário, ou que é fascista. Lembremos como são as operações da tropa de elite. O que marca suas ações é a virulência, a ação direta, a ilegalidade, a ausência completa de direitos humanos, o ódio. São várias as execuções sumárias. O tal saco de tortura é utilizado inúmeras vezes ao longo do filme. Um rapaz é espancado simplesmente por ter um tênis mais caro do que deveria. Quais são os cânticos da “seita”? “Homem de preto o que é que você faz? Faço coisas que assustam Satanás!” e “homem de preto qual é a sua missão? É invadir favela e deixar corpo no chão”. Que eu saiba a sociedade brasileira ainda não considera Satanás como padrão de moralidade.

O próprio Capitão Nascimento se arrepende de ter deixado morrer um “fogueteiro” (ou coisa que o valha), ao ver a mãe do menino chorando na sua frente. Aliás, o altivo e intransponível Capitão passa o filme inteiro em estado de depressão, tenso, com suadeiras e tomando remédios. No final, se descontrola e agride verbalmente sua esposa. Ele sabe que aquela vida não vale a pena, por mais que, em sua narração, não deixe isso transparecer.

Eu não assisti ao documentário Ônibus 174, do diretor de Tropa, José Padilha. Mas pelo que me contaram é uma tentativa de mostrar os condicionamentos sociais que levaram o seqüestrador a cometer seu crime. Possivelmente é um sociologismo barato, não sei. Mas foi isso que me veio à cabeça logo que li a epígrafe de Tropa de Elite, que indica o condicionamento do homem às suas circunstâncias. O que Padilha procura mostrar em seu novo filme, ao meu ver, é como se dá o condicionamento no interior de uma instituição policial, o Bope, a ponto de tornar seus membros em uma, as palavras são de Che Guevara, "efetiva, violenta, seletiva e fria máquina de matar". É só pensar no personagem André Matias.

Antes de realizar o treinamento desumano dos “Caveiras” o rapaz era tranqüilo, convivia com os cabeças de fumaça e narinas de pó de sua faculdade (por mais que não compactuasse com aquilo), se apaixonou pela [belíssima] ongueira Maria, se comoveu com a criança cegueta... Tinha, enfim, uma certa ponderação em suas atitudes. No final do filme vemos um monstro, alguém impiedoso, tomado pelo ódio. Tropa termina com o outrora simpático Matias atirando a sangue frio na cara de um traficante. Mostrar isso é defender o Bope? Não me parece, realmente não me parece.

Eu não sou nenhum conhecedor de Michael Foucault, e me corrijam se eu estiver errado. Vou forçar a barra, admito. Mas o a princípio vilipendiado filósofo francês, esse Nietzsche calvo de Saint-Germain-des-Prés (Merquior), me parece, ajuda a sustentar o filme. Nada de Capitão “Kant” Nascimento versus Bonde do Foucault, como quer o Reinaldo Azevedo (fraquinho fraquinho o artigo dele). Em seu livro Vigiar e punir Foucault procura mostrar, dentre outras coisas, como a “disciplina”, através de um “microfísica” do poder, permite o controle das operações do corpo, tornando-o obediente e útil:

[Com as disciplinas] forma-se então uma política das coerções que são um trabalho sobre o corpo, uma manipulação calculada de seus elementos, de seus gestos, de seus comportamentos. O corpo humano entra numa maquinaria de poder que o esquadrinha, o desarticula e o recompõe. Uma "anatomia política", que é também igualmente uma "mecânica do poder", está nascendo; ela define como se ter domínio sobre o corpo dos outros, não simplesmente para que façam o que se quer, mas para que operem como se quer, com as técnicas, segundo a rapidez e a eficácia que se determina. A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, corpos "dóceis". (Vigiar e Punir, 2003: 119).

Eu posso ter tido uma visão muito distorcida do filme, mas apesar do narrador ser alguém do Bope, alguém que defenda e nunca questione seus ideais, a obra de Padilha é um retrato horripilante do que as tais condições podem fazer com uma pessoa. No caso, as condições são várias: a pobreza da sociedade, a hipocrisia de seus agentes sociais, o despreparo e a falta de condições materiais da polícia, mas principalmente a brutalidade que se exige para a preparação da tropa de elite, a ausência completa de limites morais: a violência desproporcional e 'irracional' é um código de condutas, tanto para os bandidos quanto para a polícia. É um código de condutas da sociedade brasileira, aliás. Como esperar alguma coisa diferente? A preparação do Bope, inclusive, assemelha-se muito com os procedimentos disciplinares relatados por Foucault. Matias e Neto saem completamente outros da preparação: saem espumando ódio e intransigência, sedentos por sangue e vingança, atropelando sem puderes os direitos humanos e a legalidade. São corpos, agora, a serviço do Bope. O corpo e a alma deles pertencem ao Bope a partir daquele momento, como alguém anuncia no treinamento.

Eu saí do cinema com a mesma impressão que tinha antes sobre a hipocrisia criminosa dos cabeças de fumaça da classe média carioca, sobre a corrupção sistemática e o despreparo da PM e sobre o discurso vazio e contraditório das Ongs. Mas voltei para casa com horror às práticas do Bope, com sua covardia e seu cinismo. Os assassinatos a sangue frio e as torturas perpetradas pela “tropa de elite” em pouco se diferem daquelas praticadas pelos traficantes – não me satisfaço com a idéia de que um lado faz isso para proteger e o outro por maldade. E para justificar isso é possível, inclusive, usar o mesmo argumento (só que em sentido contrário) do Reinaldo Azevedo: Kant. Só devemos agir (moralmente) segundo máximas universalizáveis: “qualquer ação é justa se for capaz de coexistir com a liberdade de todos de acordo com uma lei universal, ou se na sua máxima a liberdade de escolha de cada um puder coexistir com a liberdade de todos de acordo com uma lei universal” (A metafísica dos costumes, 2003: 76-7). Isso não permite, portanto, que alguém, em nome da Justiça, cometa atrocidades, por mais que possua o “monopólio legítimo da violência”. O direito à coerção existe sim, mas não pode trazer consigo o solapamento dos direitos humanos.

Eu não vi fascismo nenhum no filme de Padilha. É uma história sem mocinhos, ninguém é poupado e todos são responsáveis. O fato de haver um narrador parcial não permite que a obra seja taxada de pró-Bope. É como aquela história, ou a piada é mal contada ou foi você que não entendeu. Eu achei o filme muito bem contado, logo... Mas aí a responsabilidade não é mais do diretor.

***

Fora isso, acho que vocês deveriam ler o texto do Idelber sobre o assunto, o melhor que li na Internet. Na verdade, eu deveria ter colocado o link antes do meu texto, para que vocês não precisassem ler isso aqui e fossem direto para o que já foi bem escrito sobre o filme. Lá no Idelber também há vários links com outras análises de Tropa de Elite.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Limpando a casa

Muitas vezes é bom arrumar as coisas. Colocar algumas no lugar, tirar outras da gaveta e jogar fora o que não serve mais.

Pois resolvi começar pelo meu quarto. Achei que fosse fácil. Não, não é. De verdade, deveria ter tentado começar com algo mais simples do que o meu quarto. Agora estou aqui, com a minha mesa arrumada, mas descobrindo que não tenho espaço para guardar os livros. Então, eles estão no chão e em cima da minha cama. Também não tenho pasta para guardar as folhas e fotocópias da faculdade. Meu quarto ficou muito mais bagunçado do que era antes de tentar arrumar. E eu, ao invés de colocar a mão na massa, estou aqui, de camiseta sem manga (nunca usei isso na minha vida, por deus!, mas convenhamos, é fresquinho), comendo o biscoito da vaquinha, tentando postar uma foto do Flickr e vendo Seinfeld na tv. Tudo ao mesmo tempo.

Aliás, quem quiser ver a minha mesa antes e depois da desastrosa arrumação no quarto, clique aqui. (não, eu não consegui postar a foto do Flickr)

E sim, eu estou olhando para a tela do computador e sentindo um baita constrangimento por estar postando esse momento diarinho.

Questão

É a primeira ou a última impressão a que fica?

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Como ser conservador, liberal e socialista

O texto que segue é em inglês, mas, para quem se interessa pelo tema, vale muito a pena a leitura. Seu autor, Leszek Kolakowski, escreveu uma das melhores (muito provavelmente a melhor) obras sobre o marxismo já publicadas, a monumental Main Currents of Marxism (1976-8). "How to be a Conservative-Liberal-Socialist" é um texto inteligente, e que procura mostrar como não há ambigüidades em perfilhar um pluralismo ideológico. Em tempos em que as posições políticas e ideológicas têm se polarizado tanto entre "esquerda" e "direita", esse pequeno artigo de Kolakowski serve como um documento importante de reflexão.

***

How to be a Conservative-Liberal-Socialist

Motto: "Please step forward to the rear!" This is an approximate translation of a request I once heard on a tram-car in Warsaw. I propose it as a slogan for the mighty International that will never exist.

A Conservative Believes:

1. That in human life there never have been and never will be improvements that are not paid for with deteriorations and evils; thus, in considering each project of reform and amelioration, its price has to be assessed. Put another way, innumerable evils are compatible (i.e. we can suffer them comprehensively and simultaneously); but many goods limit or cancel each other, and therefore we will never enjoy them fully at the same time. A society in which there is no equality and no liberty of any kind is perfectly possible, yet a social order combining total equality and freedom is not. The same applies to the compatibility of planning and the principle of autonomy, to security and technical progress. Put yet another way, there is no happy ending in human history.

2. That we do not know the extent to which various traditional forms of social life--families, rituals, nations, religious communities--are indispensable if life in a society is to be tolerable or even possible. There are no grounds for believing that when we destroy these forms, or brand them as irrational, we increase the chance of happiness, peace, security, or freedom. We have no certain knowledge of what might occur if, for example, the monogamous family was abrogated, or if the time-honored custom of burying the dead were to give way to the rational recycling of corpses for industrial purposes. But we would do well to expect the worst.

3. That the idee fixe of the Enlightenment--that envy, vanity, greed, and aggression are all caused by the deficiencies of social institutions and that they will be swept away once these institutions are reformed-- is not only utterly incredible and contrary to all experience, but is highly dangerous. How on earth did all these institutions arise if they were so contrary to the true nature of man? To hope that we can institutionalize brotherhood, love, and altruism is already to have a reliable blueprint for despotism.

A Liberal Believes:

1. That the ancient idea that the purpose of the State is security still remains valid. It remains valid even if the notion of "security" is expanded to include not only the protection of persons and property by means of the law, but also various provisions of insurance: that people should not starve if they are jobless; that the poor should not be condemned to die through lack of medical help; that children should have free access to education--all these are also part of security. Yet security should never be confused with liberty. The State does not guarantee freedom by action and by regulating various areas of life, but by doing nothing. In fact security can be expanded only at the expense of liberty. In any event, to make people happy is not the function of the State.

2. That human communities are threatened not only by stagnation but also by degradation when they are so organized that there is no longer room for individual initiative and inventiveness. The collective suicide of mankind is conceivable, but a permanent human ant-heap is not, for the simple reason that we are not ants.

3. That it is highly improbable that a society in which all forms of competitiveness have been done away with would continue to have the necessary stimuli for creativity and progress. More equaliity is not an end in itself, but only a means. In other words, there is no point to the struggle for more equality if it results only in the leveling down off those who are better off, and not in the raising up of the underprivileged. Perfect equality is a self-defeating ideal.

A Socialist Believes:

1. That societies in which the pursuit of profit is the sole regulator of the productive system are threatened with as grievous--perhaps more grievous--catastrophes as are societies in which the profit motive has been entirely eliminated from the production-regulating forces. There are good reasons why freedom of economic activity should be limited for the sake of security, and why money should not automatically produce more money. But the limitation of freedom should be called precisely that, and should not be called a higher form of freedom.

2. That it is absurd and hypocritical to conclude that, simply because a perfect, conflictless society is impossible, every existing form of inequality is inevitable and all ways of profit-making justified. The kind of conservative anthropological pessimism which led to the astonishing belief that a progressive income tax was an inhuman abomination is just as suspect as the kind of historical optimism on which the Gulag Archipelago was based.

3. That the tendency to subject the economy to important social controls should be encouraged, even though the price to be paid is an increase in bureaucracy. Such controls, however, must be exercised within representative democracy. Thus it is essential to plan institutions that counteract the menace to freedom which is produced by the growth of these very controls.

So far as I can see, this set of regulative ideas is not self-contradictory. And therefore it is possible to be a conservative-liberal-socialist. This is equivalent to saying that those three particular designations are no longer mutually exclusive options.

As for the great and powerful International which I mentioned at the outset--it will never exist, because it cannot promise people that they will be happy.

From Leszek Kolakowski, Modernity on Endless Trial (University of Chicago, 1990).

domingo, 14 de outubro de 2007

Valores

Por que violência explícita, corpos mutilados, cabeças decepadas e sangue jorrando não são proibidos para menores de 18 anos e cenas de sexo são? Por que as pessoas normalmente se sentem mais desconfortáveis em cenas envolvendo conteúdo sexual do que mortes e assassinatos?

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Fados

Escrevi isso aqui há um tempão e não sei porque esqueci de postar. São as minhas impressões do filme Fados, do Carlos Saura, que vi no Festival de Cinema do Rio.



Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

[Fernando Pessoa]


Não há dúvida de que a música é a paixão de Carlos Saura. Desde a década de 1980 esse instigante diretor espanhol dedica-se quase exclusivamente a filmes que tenham a música não apenas como pano de fundo, mas como protagonista. E não somente no cinema. No dia da estréia de Fados, no Cine Odeon, seu filho desculpou-se pela ausência do pai, sob a justificativa de que este estava dirigindo uma ópera (Carmen, de Bizet) no moderníssimo Palau de les Arts, em Valência. O IMDb nos informa que o próximo trabalho de Saura em tela grande será Don Giovanni, e li por esses dias que o diretor pretende estudar as tradições musicais brasileiras para uma futura produção.

Fados é uma homenagem à música portuguesa. Não pretende contar a história do fado, retratar seus grandes nomes e muito menos resgatar suas raízes, por mais que acabe, de forma indireta, fazendo tudo isso. O filme não possui narrador e a única informação que recebemos aparece logo no início, quando uma legenda informa que o fado surgiu no século XIX. Apenas isso. O documentário (se é que podemos chamar Fados de documentário) não conta com nenhuma entrevista ou com qualquer linha narrativa central: são apenas seqüências em estúdio de conjuntos e cantores interpretando canções, além de dançarinos encenando ao fundo.

O que interessa ao diretor é retratar como esse popular e tradicional gênero musical é relido e reelaborado nos dias de hoje, seja em Portugal, no Brasil, na Espanha ou na África (não é à toa que o filme chama-se Fados, no plural). Logo na primeira cena percebe-se claramente a intenção de criar um impacto inicial. Um conjunto africano, cheio de crianças com roupas coloridas, faz, alegremente, algo bem próximo a um samba. Mas o fado não é uma música triste? Sim, o filme vai mostrar que, em sua maioria, a melancolia e a tristeza marcam o gênero. O que não faltam são típicas senhoras portuguesas debulhando-se em lágrimas ao cantar músicas que fariam nossos moderninhos emos chorarem... de vergonha! Mas Saura preocupa-se em indicar como o fado não é, de modo algum, unívoco. São várias as possibilidade de interpretação, por mais que mantenha uma certa tradição. Algo que me impressionou, aliás, foi a ampla variedade de faixas etárias entre os intérpretes.

Nesse sentido é um filme muito feliz. As canções escolhidas são belíssimas, idem as interpretações dos músicos e dançarinos, e saímos do cinema com um bom panorama da diversidade fadista e emocionados com o poder e carga emocional que as músicas trazem.

Fados, no entanto, peca em alguns aspectos. O fato de mostrar uma série ininterrupta de apresentações do início ao fim, sem narrador, sem diálogos e sem história pode cansar o espectador a partir de um certo momento. Por mais que mantenha um bom equilíbrio, há algumas apresentações fracas (a pior é a do brasileiro Toni Garrido, na minha opinião). O cenário também é muito repetitivo. Como em Tango (1998) (com o qual Fados guarda uma série de semelhanças), o diretor abusa do uso de telas, sombras e projeções – isso não é exatamente ruim, mas acaba tornando tudo muito monotemático. Talvez a idéia seja justamente dedicar atenção apenas à variedade dos fados ali cantados, sem importar muito o cenário.

Creio que Saura também poderia ter dado mais atenção à cidade de Lisboa. Não é possível compreender o fado sem a histórica capital portuguesa como referência, sem os segredos que guardam as ruelas de Alfama e do Bairro Alto. Talvez no intuito de mostrar que o gênero não se restringe apenas ao seu lugar de origem, o diretor tenha preferido não se dedicar a Lisboa. Uma pena. Na única cena em que imagens da cidade aparecem a sensação é de que aquilo que está sendo ali cantado ganha muito mais em significado.

Todavia, isso que trato como defeitos, tenho certeza, não incomodaria Saura. O trecho do poema que serve de epígrafe a este texto me parece a explicação de todo filme. Essa conhecida poesia de Fernando Pessoa é cantada em um certo momento de Fados. Parece-me que o que Carlos Saura procurou fazer foi justamente isso: na incapacidade de expressar em palavras todo o seu amor pela música em geral e pelo fado em particular, o diretor procurou simplesmente mostrar o fado em essência, inteiramente. E nada além das violas e da voz emocionada dos fadistas era necessário. As próprias apresentações de dança parecem, sob esse aspecto, um certo exagero frente ao “essencialismo” do diretor.

Apesar de uma certa irregularidade do filme, me parece que o maestro espanhol é plenamente feliz em suas intenções. A última estrofe da poesia de Fernando Pessoa é a seguinte: “Mas se isto puder contar-lhe / O que não lhe ouso contar, / Já não terei que falar-lhe / Porque lhe estou a falar...”. Sem falar uma palavra sequer Carlos Saura é capaz de revelar, na tela, todo seu amor pelo fado, pela música e, porque não, pelo cinema.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

“O Brasil virou um chiqueiro. Gostava mais dele quando era apenas pardieiro”

Eu tinha até começado a escrever um texto sobre esse tal de Ferréz (?), que cometeu um artigo na Folha de São Paulo de hoje sobre o assalto sofrido pelo apresentador Luciano Huck. Dentre as muitas sandices que o tal “rapper e escritor” (é assim que ele é apresentado pela FSP) rabiscou, ele diz, por exemplo, que:
No final das contas, todos saíram ganhando, o assaltado ficou com o que tinha de mais valioso, que é sua vida, e o correria ficou com o relógio.
Não vejo motivo pra reclamação, afinal, num mundo indefensável, até que o rolo
(sic) foi justo pra ambas as partes.
É isso mesmo que vocês estão lendo. Esse é o novo significado de justiça, defendido por Ferréz, o nosso grande cientista político, o nosso Rousseau das quebradas. Exatos quarenta anos depois de Che Guevara ser capturado na Bolívia, após ser delatado pelos próprios camponeses locais, Ferréz, o nosso justiceiro, mostra que a chama terrorista del chancho continua acesa. Nas selvas da Bolívia o guerrilheiro não encontrou piedade ou compreensão quando, humilhado e maltrapilho, implorou para não ser fuzilado. Mas Ferréz pode dormir tranqüilo. Tenho certeza que nas matas verdejantes do jornalismo tupiniquim o “rapper e escritor” vai encontrar condescendência e apoio suficientes para sair carregado nos ombros do povo.

Pois bem, eu disse que havia começado a escrever um texto sobre o assunto. Mas não tenho nada a acrescentar a essa discussão. Não vale a pena perder tempo com caso perdido. Recomendo que leiam esse texto aqui (do qual tiro o título deste post) do Lefebvre de Saboya. Lá está o melhor resumo do artigo de nosso justiceiro da periferia: “Férrez faz questão de se tornar a vanguarda do atraso”. Sem mais.

domingo, 7 de outubro de 2007

Plano de leituras

Após ler esse texto aqui do Paulo Polzonoff (aliás, para quem ainda não conhece o Polzonoff, leia aqui no Digestivo Cultural uma boa entrevista com ele) e refletir sobre as minhas futuras leituras, decidi que tenho que ler algumas coisas antes de mais nada, prioritariamente. Não volto ao mundo moderno (da Renascença para cá) sem antes dedicar um bom tempo aos gregos, latinos, à Bíblia e à Idade Média. Vou começar com o teatro grego: Ésquilo, Eurípides e Aristófanes (Sófocles eu já li). Acho que em outubro eu consigo ler o mais importante desses autores. Também pretendo dar uma estudada na poesia de Píndaro e na obra historiográfica de Heródoto. Depois, penso nos romanos. Paralelamente a essas leituras vou estudando a História da Literatura Ocidental, do Otto Maria Carpeaux (o primeiro dos oito livros – na minha edição da Alhambra – é dedicado justamente à “herança” grega e romana e ao mundo cristão), e, quando precisar, alguns livros e ensaios de especialistas nos autores ou no período.

E aí, alguém tem sugestões de leituras, de como organizar um plano de estudos, de livros sobre teatro e poseia grega?

É isso. Vou lá terminar, enfim, o Pai Goriot, do Balzac. O livro é ótimo, e o tempo absurdo que levei para lê-lo nada tem a ver com suas qualidades. O problema é do leitor aqui, claro. Amanhã começo Prometeu acorrentado, do Ésquilo.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

O Comunismo em cinco lições

Desde o século XIX milhares de intelectuais se debatem (até a morte, em alguns casos) para entender o que é, afinal, o Comunismo. De tudo que li até hoje, não vi definições melhores do que estas:

1ª lição: Como identificar um comunista, segundo George Costanza.

GEORGE: Well, does he wear bland, drab, olive colored clothing?

ELAINE: Yes, . . . yes he does dress a little drab.

GEORGE: Huh, he's a communist.

2ª lição: As vantagens do comunismo, segundo George Costanza.

[George lê os classificados do Daily Worker, um jornal esquerdista americano]

GEORGE: Look at this. "Exciting uninhibited woman seeks forward thinking comrade and appearance not important." . . . Appearance Not Important! This is unbelievable. Finally this is an ideology I can embrace.

3ª lição: Guerra fria e geopolítica pós-queda do Muro de Berlin, segundo Elaine Benes.

ELAINE: OH, AH! OH! WOW! WHOA! A COMMIE! Wow, gee, man it must be a bummer for you guys what with the fall of the soviet empire and everything .

NED: Yeah, well, we still got China, and Cuba.

ELAINE: Yeah, but come on . . .

NED: I know it's not the same.

ELAINE: Well, you had a good run, what was it 75, 80 years? Wreaking havoc, making everybody nervous.

NED: Yeah, we had a good run.

4ª lição: A explicação da famosa frase de Karl Marx, "De cada um, de acordo com suas habilidades, a cada um, de acordo com suas necessidades", segundo Cosmo Kramer.

KRAMER: Well, if you've got needs and abilities that's a pretty good combination.


5ª lição: A divisão de classes, segundo Cosmo Kramer.

MICKEY: So what if I want to open up a delicatessen?

KRAMER: There are no delicatessens under Communism.

MICKEY: Why not?

KRAMER: Well, because the meats are divided into a class system. You got Pastrami and Corned Beef in one class and Salami and Bologna in another. That's not right.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Burradas

Possíveis leituras:

a) Isso é que dá querer resumo de livro, ao invés de ler! Quem quer resumo tem mais é que se ferrar mesmo!

b) As ciências sociais caminham para um buraco sem fundo, onde nem mais os clássicos são conhecidos.

c) Ué, não entendi, qual o problema do site? Vai dizer que agora Curitiba não fica no Paraná...

d) Isso é mais uma prova da Revolução Gramsciana! Tudo faz parte de um complô mundial orquestrado pelas esquerdas para confundir o léxico corrente e transformar todos os autores em marxistas e materialistas.

e) Na verdade o que está sendo vendido é um fichamento que o próprio Max Weber fez, nos idos de 1900, do famoso livro de Karl Marx.

f) Marx, Weber, Marx Weber... Tudo a mesma coisa, o importante é ir bem na prova.
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*Quer conferir, clique aqui.


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Já que estamos falando em erros, essa eu não podia deixar paçar:



Mais, aqui.


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Bom, se é para falar em burradas, vale aqui a nota (tardia) da última polêmica na blogosfera. O jornalista Fausto Wolff plagiou na cara dura esse texto do Marconi Leal no domingo passado (o plágio está aqui). Após muitos apelos e discussões, hoje veio a esdrúxula retratação . O texto é absolutamente pífio, e Wolff procura ainda fazer graça do caso, tentando bancar uma de coitado desavisado. A justificativa é brilhante: o jornalista pensava que "se tratasse de uma piada de domínio público ou de autoria de outrem". Quer dizer que agora pode sair por aí pegando textos sem nome na web (se é que foi isso que ele realmente fez) e publicar como se fossem seus? Fausto Wolff deve estar gagá, só poder ser.

Leiam no site do Marconi Leal a saga completa dessa polêmica e o ótimo texto do Idelber sobre o assunto.
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Para completar a série de descalabros, muito preocupante essa notícia divulgada no blog As Metamorfoses de Psiquê. Como a Ollie McGee diz lá, é incrível que isso esteja acontecendo em pleno século XXI, com todas as informações que temos sobre o assunto.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Billy Wilder e um diálogo

Ninguém escreveu melhores diálogos do que Billy Wilder. Nem mesmo Joseph Mankiewicz. O diretor e roteirista (melhor roteirista do que diretor, talvez) austro-americano tem o feeling exato para o humor rápido, direto. Cria e distribui muito bem gags geniais ao longo de todos os seus filmes. Os filmes de Wilder têm dinâmica, tudo ocorre no tempo certo, as (inúmeras) piadas de humor negro são sempre bem encaixadas, sem soar deselegante. Billy Wilder, aliás, possui a elegância da época áurea do cinema de estúdio americano. Aprendendo a dirigir com Ernst Lubitsch (e poderia ser com alguém mais competente? Ele é um dos roteiristas de Ninotchka, inclusive ), lembremos que o diretor é contemporâneo de Orson Welles, John Huston, John Ford, Joseph Mankiewicz, Fritz Lang, Kubrick, Hitchcock... A lista não termina. E todos estes no auge de sua forma, claro.

Uma breve passada de olhos na filmografia de Wilder já é suficiente para notar a quantidade impressionante de obras-primas: The lost weekend (o título da tradução ficou “Farrapo humano”), vencedor do Oscar de melhor filme e melhor diretor em 1945 é o filme mais estranho do diretor que conheço, onde o humor passa longe; Sunset Boulevard (o meu filme americano preferido); Ace in the hole; Sabrina; The seven year itch (o filme da famosa cena da saia esvoaçante de Marilyn Monroe). Em 1959 dirige Some like it hot, talvez o filme mais divertido que já tenha assistido, com Marilyn Monroe, Tony Curtis e o ator queridinho de Wilder, Jack Lemon

Em 1960 é a vez do magnífico The Apartment, novamente com Jack Lemon no elenco e com a adorável Shirley MacLaine, novíssima. O filme é trágico, e conta a história extremamente dramática de um sujeito (C.C. Baxter, talvez na melhor atuação de Lemon) que possui um emprego detestável e que aluga seu apartamento para que os patrões possam levar suas amantes, em troca de uma promoção no trabalho. Mas Billy Wilder é mestre em trazer humor mesmo para aquilo que parece mais sem graça. The Apartment é também uma comédia genial, com cenas impagáveis como a de Jack Lemon escorrendo macarrão com uma raquete de tênis.

No Oscar de 1960, The Apartment levou cinco estatuetas, entre elas as de melhor filme, diretor e roteiro original. Essa obra-prima foi, no entanto, o ponto de inflexão na carreira de Billy Wilder. Conta-se que na noite da entrega dos Oscar o diretor e roteirista Moss Hart recomendou que aquele seria o momento certo de parar de filmar. Wilder não seguiu o conselho de Hart e continuou a dirigir até 1981. Mesmo depois de The Apartment Wilder ainda fez filmes regulares, como o correto Irma la Douce, e reuniu pela primeira vez, em 1966, uma das duplas de ouro da comédia: Jack Lemon (claro!) e Walter Matthau.

De sua fase realmente decadente, o único que assisti foi The front page, que conta com a dupla Lemon-Matthau, além de uma jovenzinha Susan Sarandon. Nota-se claramente que o diretor está fora de forma. As piadas já não fluem tão bem, as cenas são todas mais longas do que deveriam, o filme poderia ter uns vinte minutos a menos. Se pensarmos que a obra é de 1974, o mesmo ano do segundo Poderoso Chefão, do Coppola, Chinatown, de Roman Polanski e de O Espelho, de Andrei Tarkovski, percebemos que é um filme anacrônico. Vemos um diretor decadente e agonizante, incapaz de se conformar que uma era do cinema – a que pertencia e da qual foi um dos maiores mestres – havia terminado. Não havia mais espaço para Billy Wilder.

Eu escrevi esse texto todo apenas para postar aqui um diálogo de The front page. Relendo agora, nem é um diálogo muito bom. É muito abaixo dos momentos inesquecíveis de Some like it hot e Sunset Boulevard. Ironicamente (aliás, acho que propositalmente), em “Crepúsculo dos Deuses” (título em português), a personagem Norma Desmond (interpretada por Glória Swanson), uma atriz famosa na era do cinema mudo e agora decadente, devido ao início do cinema falado, diz que naquele tempo “we didn't need dialogue. We had faces!”. Irônico porque vindo de um dos melhores criadores de diálogos da história da sétima arte. Como quem é rei..., aqui vai um humilde (se comparado com a monumental obra do diretor) mas espirituoso diálogo entre Earl Williams, um baderneiro acusado de assassinar um policial, e Dr. Max J. Eggelhofer, um engraçadíssimo psiquiatra austríaco.


Dr. Max J. Eggelhofer: Tell me, Mr. Williams, were you unhappy as a child?

Earl Williams: Not really. I had a perfectly normal childhood.

Dr. Max J. Eggelhofer: I see. You wanted to kill your father and sleep with you mother.

Earl Williams: [to Sheriff Hartman] If he's gonna talk dirty

Dr. Max J. Eggelhofer: When you were in grammar school, did you practice self-abuse?

Earl Williams: No, sir. I don't believe in it. I would never abuse myself or anybody else. I love people. I love all people.

'Honest Pete' Hartman Sheriff of Clark County: I suppose that cop committed suicide!

Dr. Max J. Eggelhofer: Let us get back to masturbation. Did your father ever catch you in the act?

Earl Williams: Oh, my father was - was never home. He was a conductor on the Chicago-Northwestern.

Dr. Max J. Eggelhofer: Very significant. Your father wore a uniform, just like that policeman. And when he pulled out that gun, an obvious phallic symbol, you thought he was your father, and he was going to use it to hurt your mother!

Earl Williams: [to Sheriff Hartman] He's crazy!

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Rembrandt


Rembrandt se recusa a subtrair os fatos humanos ao fluxo do tempo para transportá-los à pura espacialidade da forma: ele recoloca a história no tempo, e na continuidade e mutabilidade do tempo não pode ter lugar ou existência uma forma incorruptível, eterna. E, se a história já não é o “finito”, mas sim o “não-finito”, o contínuo, o não-acabado formal de Rembrandt deve ser considerado, mais que uma nova experiência de visão, a expressão de uma nova dimensão, de um novo valor da história: aquele sobre o qual se funda a moderna cultura européia.

(Giulio Carlo Argan, Imagem e pesuasão: ensaios sobre o barroco).