
Eu dei, meio a contragosto, sete moedinhas de um real para a bilheteira. Até tentei pegar de volta as duas últimas, mas não deu certo – a moça me olhou com uma cara estranha e fiquei um pouco constrangido. Eu não vejo um filme brasileiro há uns dois anos, desde o bom
Cinema, aspirinas e urubus. Não faço questão nenhuma de ver filmes nacionais e não sairia de casa para ver
Tropa de Elite no cinema, não fosse toda a polêmica que gerou. Polêmica normalmente é bom sinal.
Ainda assim fui receoso. Na sala não havia mais ninguém. Claro, todo mundo no Rio já viu, seja na cópia pirata, seja na pré-estréia (quantas pessoas cabem no Odeon? É impressionante como todo mundo viu
Tropa de Elite na pré-estréia). Eu era a única pessoa que não tinha visto o filme, o que explica a sala vazia. Imagino que eles tirem
Tropa (para os íntimos) de cartaz na próxima semana.
Todos já comentaram sobre o filme. Eu não tenho muita coisa a acrescentar ao debate. Muito provavelmente não tenho nada. Acho uma besteira dizer que é fascista. Por que ele é narrado por um policial do Bope? Alguém precisava contar a história. Se não fosse o policial do Bope ia ser um drogadinho da PUC (ou da UFRJ, ou da UERJ...), um PM, um ongueiro ou um traficante (os personagens centrais). Não me parece que qualquer uma dessas visões fosse menos limitada do que a apresentada. Podia até ser interessante a presença de mais de um narrador, mas isso talvez inviabilizasse o filme. Havia ainda a opção de ser um narrador onisciente – panóptico?, para ficarmos em termos foucauldianos –, alguém que fosse dar a impressão de que o que está ali exposto é A Verdade, A Realidade. Aí sim,
Tropa poderia, sem maiores dificuldades, ser chamado de totalitário. Só o fato de ficar patente que o narrador é parcial já ajuda a desmontar a tese do “Tropa fascista”.
Ok, o filme é narrado de uma perspectiva favorável ao Bope, a tropa de elite da Polícia Militar carioca. O narrador, o Capitão Nascimento, procura a todo custo defender moralmente suas práticas, justificar seus atos e criticar o que não lhe convém. Se fizesse o contrário, aí sim não teria sentido. Sim, o Bope é apresentado como incorruptível, ainda mais se comparado à pífia Polícia Militar tout court exposta no filme – pequena, pobre, preguiçosa, desarticulada, corrupta.
Mas me parece um passo gigantesco afirmar que Tropa de Elite faz apologia do Bope, ou que é reacionário, ou que é fascista. Lembremos como são as operações da tropa de elite. O que marca suas ações é a virulência, a ação direta, a ilegalidade, a ausência completa de direitos humanos, o ódio. São várias as execuções sumárias. O tal saco de tortura é utilizado inúmeras vezes ao longo do filme. Um rapaz é espancado simplesmente por ter um tênis mais caro do que deveria. Quais são os cânticos da “seita”? “Homem de preto o que é que você faz? Faço coisas que assustam Satanás!” e “homem de preto qual é a sua missão? É invadir favela e deixar corpo no chão”. Que eu saiba a sociedade brasileira ainda não considera Satanás como padrão de moralidade.
O próprio Capitão Nascimento se arrepende de ter deixado morrer um “fogueteiro” (ou coisa que o valha), ao ver a mãe do menino chorando na sua frente. Aliás, o altivo e intransponível Capitão passa o filme inteiro em estado de depressão, tenso, com suadeiras e tomando remédios. No final, se descontrola e agride verbalmente sua esposa. Ele sabe que aquela vida não vale a pena, por mais que, em sua narração, não deixe isso transparecer.
Eu não assisti ao documentário Ônibus 174, do diretor de Tropa, José Padilha. Mas pelo que me contaram é uma tentativa de mostrar os condicionamentos sociais que levaram o seqüestrador a cometer seu crime. Possivelmente é um sociologismo barato, não sei. Mas foi isso que me veio à cabeça logo que li a epígrafe de Tropa de Elite, que indica o condicionamento do homem às suas circunstâncias. O que Padilha procura mostrar em seu novo filme, ao meu ver, é como se dá o condicionamento no interior de uma instituição policial, o Bope, a ponto de tornar seus membros em uma, as palavras são de Che Guevara, "efetiva, violenta, seletiva e fria máquina de matar". É só pensar no personagem André Matias.
Antes de realizar o treinamento desumano dos “Caveiras” o rapaz era tranqüilo, convivia com os cabeças de fumaça e narinas de pó de sua faculdade (por mais que não compactuasse com aquilo), se apaixonou pela [belíssima] ongueira Maria, se comoveu com a criança cegueta... Tinha, enfim, uma certa ponderação em suas atitudes. No final do filme vemos um monstro, alguém impiedoso, tomado pelo ódio. Tropa termina com o outrora simpático Matias atirando a sangue frio na cara de um traficante. Mostrar isso é defender o Bope? Não me parece, realmente não me parece.
Eu não sou nenhum conhecedor de Michael Foucault, e me corrijam se eu estiver errado. Vou forçar a barra, admito. Mas o a princípio vilipendiado filósofo francês, esse Nietzsche calvo de Saint-Germain-des-Prés (Merquior), me parece, ajuda a sustentar o filme. Nada de Capitão “Kant” Nascimento versus Bonde do Foucault, como quer o
Reinaldo Azevedo (fraquinho fraquinho o artigo dele). Em seu livro
Vigiar e punir Foucault procura mostrar, dentre outras coisas, como a “disciplina”, através de um “microfísica” do poder, permite o controle das operações do corpo, tornando-o obediente e útil:
[Com as disciplinas] forma-se então uma política das coerções que são um trabalho sobre o corpo, uma manipulação calculada de seus elementos, de seus gestos, de seus comportamentos. O corpo humano entra numa maquinaria de poder que o esquadrinha, o desarticula e o recompõe. Uma "anatomia política", que é também igualmente uma "mecânica do poder", está nascendo; ela define como se ter domínio sobre o corpo dos outros, não simplesmente para que façam o que se quer, mas para que operem como se quer, com as técnicas, segundo a rapidez e a eficácia que se determina. A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, corpos "dóceis". (Vigiar e Punir, 2003: 119).
Eu posso ter tido uma visão muito distorcida do filme, mas apesar do narrador ser alguém do Bope, alguém que defenda e nunca questione seus ideais, a obra de Padilha é um retrato horripilante do que as tais condições podem fazer com uma pessoa. No caso, as condições são várias: a pobreza da sociedade, a hipocrisia de seus agentes sociais, o despreparo e a falta de condições materiais da polícia, mas principalmente a brutalidade que se exige para a preparação da tropa de elite, a ausência completa de limites morais: a violência desproporcional e 'irracional' é um código de condutas, tanto para os bandidos quanto para a polícia. É um código de condutas da sociedade brasileira, aliás. Como esperar alguma coisa diferente? A preparação do Bope, inclusive, assemelha-se muito com os procedimentos disciplinares relatados por Foucault. Matias e Neto saem completamente outros da preparação: saem espumando ódio e intransigência, sedentos por sangue e vingança, atropelando sem puderes os direitos humanos e a legalidade. São corpos, agora, a serviço do Bope. O corpo e a alma deles pertencem ao Bope a partir daquele momento, como alguém anuncia no treinamento.
Eu saí do cinema com a mesma impressão que tinha antes sobre a hipocrisia criminosa dos cabeças de fumaça da classe média carioca, sobre a corrupção sistemática e o despreparo da PM e sobre o discurso vazio e contraditório das Ongs. Mas voltei para casa com horror às práticas do Bope, com sua covardia e seu cinismo. Os assassinatos a sangue frio e as torturas perpetradas pela “tropa de elite” em pouco se diferem daquelas praticadas pelos traficantes – não me satisfaço com a idéia de que um lado faz isso para proteger e o outro por maldade. E para justificar isso é possível, inclusive, usar o mesmo argumento (só que em sentido contrário) do Reinaldo Azevedo: Kant. Só devemos agir (moralmente) segundo máximas universalizáveis: “qualquer ação é justa se for capaz de coexistir com a liberdade de todos de acordo com uma lei universal, ou se na sua máxima a liberdade de escolha de cada um puder coexistir com a liberdade de todos de acordo com uma lei universal” (A metafísica dos costumes, 2003: 76-7). Isso não permite, portanto, que alguém, em nome da Justiça, cometa atrocidades, por mais que possua o “monopólio legítimo da violência”. O direito à coerção existe sim, mas não pode trazer consigo o solapamento dos direitos humanos.
Eu não vi fascismo nenhum no filme de Padilha. É uma história sem mocinhos, ninguém é poupado e todos são responsáveis. O fato de haver um narrador parcial não permite que a obra seja taxada de pró-Bope. É como aquela história, ou a piada é mal contada ou foi você que não entendeu. Eu achei o filme muito bem contado, logo... Mas aí a responsabilidade não é mais do diretor.
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Fora isso, acho que vocês deveriam ler o
texto do Idelber sobre o assunto, o melhor que li na Internet. Na verdade, eu deveria ter colocado o link antes do meu texto, para que vocês não precisassem ler isso aqui e fossem direto para o que já foi bem escrito sobre o filme. Lá no Idelber também há vários links com outras análises de
Tropa de Elite.