sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Música do dia

Há quanto tempo não temos uma “música do dia”!

Pois bem, em homenagem ao diretor do único filme do Festival do Rio que devo ver: "Fados", de Carlos Saura.

Eu não assisti aos últimos trabalhos do Saura, mas é um diretor que, não tenho dúvida, merece vários votos de confiança. O último filme dele que vi, "Goya", é muito bom, e Saura consegue fazer com maestria algo que poderia cair no ridículo e no cafona com muita facilidade: transformar as imagens dos quadros do genial pintor em situações vividas, dando movimento às telas. É algo arriscado de ser feito no cinema, mas que rendeu belas imagens.

Meus "Sauras" preferidos ainda são os filmes de sua fase política, da década de 1970, principalmente “Ana y los lobos (1972)”, “Cria cuervos” (1975) e “Mamá cumple cien años” (1979). Eu não costumo gostar de filmes políticos. Na verdade, chamar estes filmes de “políticos” é até meio forçado. O que Saura faz são grandes alegorias e metáforas da situação que vivia a Espanha franquista. Mas os filmes podem ser vistos sob outros ângulos, e não perdem em qualidade quando ignorado o caráter conjuntural da obra.

O meu preferido, por exemplo, “Cria cuervos”, pode ser lido como um filme que apresenta uma visão dura da infância solitária de uma menina muito mais madura do que sua idade supõe, que perde a mãe e o pai muito cedo, vendo-se obrigada a morar com a tia, com quem não se identifica. Ana, a protagonista interpretada magistralmente (talvez a melhor atuação infantil que eu já tenha visto) pela adorável Ana Torrent, recorda, já adulta, sua infância da seguinte maneira:


No entiendo cómo hay personas que dicen que la infancia es la época más feliz de su vida. En todo caso para mí no lo fue, y quizás por eso no creo en el paraíso infantil, ni en la inocencia, ni en la bondad natural de los niños. Yo recuerdo mi infancia como un período largo, interminable, triste, donde el miedo lo llenaba todo : miedo a lo desconocido. Hay cosas que no puedo olvidar. Parece mentira que haya recuerdos que tengan tanta, tanta fuerza, tanta fuerza...


Desolador.

O filme também pode ser visto como a imagem de uma Espanha que se redemocratiza: a morte do pai de Ana, um militar servero que traia sua esposa, significaria o crepúsculo do franquismo, um regime autoritário, repressor e caduco; e a protagonista representaria a sociedade espanhola do porvir, que carrega ainda a tristeza e a culpa, fruto de anos de repressão, mas que deve, como na última palavra do filme, despertar.

“Cría cuervos”, assim como toda a filmografia de Saura dos anos 70, é tão rica em símbolos, possui tantas possibilidades de interpretação, que daria para ficar um tempão aqui discutindo isso, mas recomendo que todos procurem o filme e assistam.

Ah! A música do dia! Já ia esquecendo... Pois bem. Talvez, para quem não tenha visto “Cría cuervos”, essa música só aparente ser uma música pop espanhola dos anos 1970. E é mesmo. Mas quem já assistiu ao filme tenho certeza que sempre se emociona ao ouvir os primeiros acordes da canção.

Depois conto aqui o que achei de “Fados”.



- Se não me engano essa música toca ao longo de todo o filme, mas essa cena aqui é, sem dúvida, a mais marcante:
http://www.youtube.com/watch?v=25ckdkg1xCw

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Sobre morrer e a morte

Esse post era para ser um comentário do texto A proximidade da morte , escrito pelo Polzonoff. Ficou grande demais, então veio para cá. O texto do Polzonoff é uma reflexão a partir desse vídeo aqui. É a última palestra de um professor que sabe que vai morrer dentro de poucas semanas, atacado por um câncer.

Quando assisti ao vídeo, pensei apenas no professor indo embora da universidade. Solitário, pegando seu carro e dirigindo rumo a algum subúrbio. A adrenalina da palestra baixa, ele sente o silêncio dentro do carro e fica sozinho. Quantas vezes Randy Pausch ficou sozinho desde que descobriu ter câncer? O professor parece ter uma família grande (três filhos), muitos amigos e alunos. Lembra o americano pragmático típico, não lembra?

A palestra foi um espetáculo. Pausch fez flexão, contou piada, riu. Não tenho dúvida de que aquilo era um personagem. Há demanda por isso. Eu só não acredito que aquela seja sua atitude frente à morte. Não é. Pausch deixa os três filhos citados na palestra, por exemplo. Crianças pequenas. O Karma já não deu certo: não cuidou de tudo, mesmo tendo Pausch vivido a vida da “maneira correta”. Duvido muito que Pausch não pense nas tardes de domingo no parque que irá perder. Os jogos de baseball e futebol americano que não poderá jogar com as crianças.

As pessoas precisam de uma atitude positiva frente à morte, justamente por ela não ser natural, por ela ser anormal. Fosse normal, Pausch não estaria lá dando palestras e dizendo que era algo tranqüilo: seria um truísmo.

É claro que é impossível saber a reação frente à morte. Como diz lá o Bandeira:

Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
– Alô, iniludível!

No fundo eu acho que ninguém nunca vai estar preparado para morrer e é por isso mesmo que este tipo de palestra ou livros de auto-ajuda são tão importantes para algumas (muitas) pessoas. Exatamente porque eles tentam confortar e dar respostas, e é isso que a maioria das pessoas quer quando está à beira do precipício. Só isso. Poucos ligam para serem heróis. Quantos podem dizer que morreram como Zorba, feliz, admirando a paisagem? E isso não tem a ver com a vida que levamos, mas com o fato de não sabermos o que vai acontecer – a morte não traz garantia alguma. Não há margem para a sorte ou para o acaso.

Eu não sei se há posição digna frente à morte. Penso justamente no “Sétimo Selo”: mesmo com a iminência da Morte, com sua presença quase palpável, ainda há tempo para danças, risos e diversão. Talvez a diferença de Randy Pausch para Antonius Block seja que o protagonista do filme de Bergman procura adiar a morte (assim como Pausch ele também sabia que ia morrer, inapelavelmente) para conseguir respostas para suas últimas perguntas sobre a existência e sobre Deus. O professor americano, ao contrário, parece achar que já possui todas as respostas. Eu não sei se essas atitudes fazem alguma diferença. Nessas horas não me parece haver heroísmo, até porque ele será em vão.

No mundo da Última Instância (um mundo árido e infeliz) essas coisas são realmente relevantes? Quando muito revelam como a pessoa que morre encarou a vida – isso sim é importante. Quem está resignado é porque, possivelmente, acha que já encontrou todas as respostas, acha que já superou o abismo que o separa do Mundo. Muito provavelmente viveu a vida inteira assim. Talvez a banalidade da morte no mundo contemporâneo, expressa na palestra de Randy Pausch, passe por aí: um mundo que se apresenta desmistificado pela Ciência e pela Razão (Pausch trabalhava com informática), onde as respostas estão dadas em algumas poucas fórmulas (as mesmas que enfeitam as paredes do quarto dos filhos do professor) e onde nem mais a morte é algo misterioso e perturbador.

Mas eu queria voltar ao carro de Pausch, após a palestra. Ele, sozinho. Acho riquíssima a idéia do “fondo insobornable”, do Ortega y Gasset. Ele no carro não tem para quem discursar, não tem um público que, ele sabe, está sedento por palavras de conforto. Ele dirige para casa e se dá conta de que dentro de alguns dias não mais verá os filhos, não beijará mais sua mulher e nunca mais voltará para a universidade. “Sim, fiz muita coisa”, ele pensa. Mas e a viagem planejada, e o aniversário de Dylan, seu filho mais velho, que estava sendo preparado há um mês? Ele sabe que vai perder isso tudo e que, ao seu lado, no banco do carona, aparentemente vazio, está sentada a Morte, impávida. Talvez naqueles instantes o mundo tenha desabado sobre os ombros do professor. Talvez naquele momento ele tenha pensado que na sua palestra falou várias mentiras, várias superficialidades com o objetivo apenas de impressionar e, por que não?, ajudar aquela platéia.

Eu até prefiro imaginar que Randy Pausch não pensou em nada disso, apesar de achar que sim, isso lhe ocorreu. Não bastasse morrer, o mais duro deve ser começar a se questionar sobre isso apenas momentos antes do desaparecimento, porque o tempo pela busca de respostas (que possivelmente nunca chegariam mesmo) e o tempo de se preparar já não mais existirá: o jogo de xadrez está perdido.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Ahmadinejad nos US and A

Ontem foi um dia importante. O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, deu uma conferência na Universidade de Colúmbia, em Nova Iorque. É uma atitude corajosa, tanto da Universidade, que traz para dentro de suas paredes uma figura abjeta, odiada por mais de meio mundo (e, sobretudo, pelos EUA), quanto do próprio Ahmadinejad, que, talvez não tendo nada mais a perder, deu sua cara a toda sorte de possíveis humilhações e desprezos por parte daqueles que estavam lá para ouvi-lo. Olhem como Lee Bollinger, o presidente de Columbia e anfitrião de Ahmadinejad, apresentou seu convidado:


“Mr. President, you exhibit all the signs of a petty and cruel dictator (…) [sobre a negação do Holocausto] When you come to a place like this, this makes you, quite simply, ridiculous. You are either brazenly provocative or astonishingly uneducated.”*

Além disso, Lee Bollinger acusou o Irã de patrocinar o terrorismo, questionou porque o país havia se recusado a aderir padrões internacionais de segurança em seu programa nuclear e trouxe à baila a afirmação de Ahmadinejad de que o Holocausto seria uma invenção. Encerrou dizendo que duvidava que Ahmadinejad tivesse a coragem intelectual para responder tais questões. Como vemos, o presidente iraniano não foi recebido com um sorriso e um tapinha nas costas. Sua conferência não foi, como querem alguns direitistas, uma demonstração de que o Ocidente está se vendendo, “deslumbrado” e “apático”, aos “bárbaros”, como no poema de Konstantinos Kaváfis.

As respostas de Ahmadinejad foram polêmicas, como não poderia deixar de ser: negou que tenha dito que o Holocausto nunca existiu; pediu atenção urgente à causa Palestina; disse que seu programa nuclear é para energia, e não para armas; ressaltou mais uma vez que gostaria de ir até o Ground Zero; falou que as mulheres iranianas desfrutam dos melhores níveis de liberdade e que, ao contrário dos Estados Unidos, seu país não possuía homossexuais; e, quando perguntado sobre as execuções no Irã, saiu-se bem, questionando se nos Estados Unidos não havia pena capital.

Talvez seja delírio meu, mas continuo convicto de que o lugar no mundo onde a liberdade está mais segura é na América. É claro que é um país que possui doses cavalares de obscurantismo, que possui uma direita religiosa tacanha e ultra-reacionária, assim como uma esquerda alarmista e mentirosa. Mas é o único país do mundo que consegue, ainda, congregar correntes ideológicas tão diversas, que consegue revezar no poder dois partidos tão polarizados e ricos em divergências internas, que tem a coragem de proibir a visita de Ahmadinejad ao Ground Zero (mesmo estando legalmente permitido) e aceitar que ele fale livremente em um palco tão importante como é a Universidade de Columbia. Sempre que alguém ou algum grupo tenta solapar a liberdade há uma voz ativa e ressonante para defendê-la, e isso é o mais importante.

Se eu acho que Ahmadinejad deveria ter sido convidado? É claro que não. Com ditador e terrorista não se discute. Ele não merece uma tribuna para discorrer sobre suas sandices. Columbia também acha isso:


"this event has nothing whatsoever to do with any ‘rights’ of the speaker but only with our rights to listen and speak. We do it for ourselves. We do it in the great tradition of openness that has defined this nation for many decades now (…) In the moment, the arguments for free speech will never seem to match the power of the arguments against, but what we must remember is that this is precisely because free speech asks us to exercise extraordinary self- restraint against the very natural but often counter-productive impulses that lead us to retreat from engagement with ideas we dislike and fear. In this lies the genius of the American idea of free speech"

Acho elogiável o fato de o terem convidado. Isso demonstra que ainda há um espaço mínimo para o debate e para a comunicação. Não diálogo com Ahmadinejad – ele é irrelevante – mas com os próprios valores dessa vilipendiada nação do norte.
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* Para quem quiser conferir o que disse Bollinger, o seu texto de apresentação está disponível aqui

domingo, 23 de setembro de 2007

Algumas notas

Meus quatro leitores podem abrir um largo sorriso: até, pelo menos, final de semana que vem não conseguirei atualizar o blog com freqüência. A questão é muito simples: querendo ou não, o blog me toma um tempo considerável. Eu até escrevo rápido, mas passo muito tempo pensando em coisas para escrever aqui. A maioria não sai da minha cabeça, algumas viram esquemas num caderninho e podem, quem sabe num futuro breve, transformar-se em post. Mas, por esses dias conturbados, não posso nem querer pensar em escrever para cá. Mas continuem vindo, porque as músicas do dia continuarão e eu já tenho uma ou outra coisa escrita para postar ao longo da semana.

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Recebi um e-mail da minha amiga e leitora desse blog, Srta. Jones, em que ela dizia que meu tom aqui é muito mais pessimista do que deixo transparecer nas nossas conversas. Ela tem toda razão. Dois motivos: primeiro, estou em um momento pessimista e angustiado da minha vida. Essas coisas acontecem. Há épocas de completa nebulosidade, onde o sentido do mundo e das coisas parece opaco, turvo, obscuro e os obstáculos intransponíveis. Nessas horas tudo parece dar errado, e realmente dá. Há épocas de clareza, onde tudo se ilumina e a vida parece mais fácil, mais leve. Tudo dá certo, as coisas funcionam como engrenagens bem articuladas e o princípio da simplicidade impera sobre nossas condutas e ações. A vida, no entanto, não sei se felizmente ou infelizmente, corre a maior parte do tempo entre esses dois limites. Sem vitórias e sem derrotas, sem quedas e sem recuperações. As coisas apenas acontecem, o tempo passa. Aí vêm as marés de sorte (e mérito, claro. Mérito, sobretudo, mas não podemos esquecer que só em parte dependemos de nós mesmo – as circunstâncias jogam um papel crucial) e as épocas de frustração... E é para isso que vale a pena viver.


Melancolia, de Albert Dürer

O segundo motivo é que o blog é justamente para isso, como eu disse lá no primeiro post: para identificar os meus fantasmas, meus demônios, para torná-los mais claros para mim. É uma coisa quase psicanalítica mesmo. Não vou ficar falando sobre esses assuntos o tempo inteiro quando converso com meus amigos. Não faria sentido.

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Uma outra amiga, a Cla, pediu um relato do “fatídico dia” do meu aniversário. Pois bem, não fiz muita coisa não. Foi um dia tranqüilo, como era de se esperar. Acordei tarde e fui para a faculdade assistir uma aula sobre Freud. Ganhei um livro que estava querendo há muito tempo, recebi um adorável bolinho de aniversário (com direito a vela e tudo) da moça que me sugeriu escrever esse post, recebi vários parabéns, inclusive de gente que eu nem conheço, o que me deixa muito constrangido sempre. Recebi um número considerável de ligações e até mensagens de texto no celular. Conversei com praticamente todas as pessoas que são importantes na minha vida e percebi o quanto é bom poder conviver e contar com elas sempre. Percebi, não. É claro que eu já sabia disso, mas em alguns momentos (aniversário é um deles) tudo fica muito mais claro e cristalino. No momento reflexivo do dia, pensei nas várias pessoas importantes para mim cuja amizade se perdeu, pelos mais diversos motivos, ao longo do tempo. Cheguei à conclusão que a maioria delas é irrelevante. De fato não mereciam minha amizade e é bom que tenham se afastado, voluntária ou involuntariamente. Há, claro, pessoas que eu gostaria que estivessem ainda comigo, mas paciência. Nenhuma me faz falta verdadeiramente. Mais tarde saí para jantar, o que tem me deprimido muito ultimamente. Isso pode ser tema de um post, inclusive. Mas não é impressionante como as famílias não se falam? É triste, muito triste, observar esse distanciamento entre as pessoas. Os namorados não conversam! Apenas comem, falam no celular e, se o lugar tiver televisão, maravilha!, ficam todos com aquele olhar vegetativo assistindo a novela.

Enfim, foi um bom dia. Não fiquei triste. Claro que não. Não tinha nada para comemorar, mas normalmente não tenho mesmo. Aliás, tenho os meus amigos, poucos, mas bons, e isso já é o suficiente. O que importa é somente a qualidade, não é?

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Falando em aniversário e amizades, fiz uma retrospectiva do dia 20 de setembro para perceber se havia alguma coincidência constante dessa data na minha vida. E não é que há! Quase sempre, muito perto do meu aniversário, alguns dias antes, alguns dias depois ou no próprio dia, eu entro num período de inflexão, de mudança de direção de certas amizades muito próximas. Talvez sempre seja época de renovação ou, para soar ridículo, pode ter algo a ver com a primavera que se aproxima. Na verdade, a primavera começa hoje!

Printemps, de Claude Monet

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É a primeira ou a última impressão a que fica?

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Momento bíblico do dia:


Mas, o que sai da boca, procede do coração, e isso contamina o homem. Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias. (Mateus 15, 18 e 19)

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Momento “não ensinem isso para as crianças” do dia:

São estas coisas que contaminam o homem; mas comer sem lavar as mãos, isso não contamina o homem. (Mateus 15, 20)

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Sobre aniversários (e sobre hoje)

Desde que descobri Fernando Pessoa, por volta dos 13 ou 14 anos, me impressionei muito com a poesia “Aniversário”, do heterônimo Álvaro de Campos (ver post abaixo). Desde então, procuro relê-la, quase como um ritual, toda vez que eu ou um amigo próximo faz aniversário. Cada nova leitura é uma nova descoberta, como não poderia deixar de ser. Encontro sempre um verso diferente, que nunca imaginei que pudesse estar ali, uma palavra que apareceu como num passe de mágica, uma reflexão antes completamente ignorada.

Cada ano que passo vejo os aniversários de forma distinta, sempre com mais tristeza, com mais melancolia e lamento. Nunca consigo pensar em como é bom ter passado mais um ano, afinal foi um ano que vivi, mas sim que a cada momento as coisas passam, as coisas se perdem e isso não tem mais volta. Há coisas que vão embora para sempre e não há “nunca diga nunca” que resolva. E eu não falo aqui da morte, essa “indesejada das gentes” (Bandeira). Essa, ainda com o poeta, é iniludível. Tampouco penso na idade ou na beleza que vai embora com o tempo. Manuel Bandeira mais uma vez: “E a beleza é triste / Não é triste em si / Mas pelo que há nela / De fragilidade e incerteza”. Ainda não cheguei ao ponto em que isso me incomoda, nem nos outros e muito menos em mim.

O que me aflige, o que me tira o sono e quando, enfim, consigo dormir, a vontade de acordar, são as perdas do que “poderia ter sido e não foi”. Acho louvável e tenho profunda inveja de quem diz que não se arrependeu de nada na vida. Parece-me, no entanto, que quem diz isso mente. É claro que simplesmente se arrepender não vale de absolutamente nada, mas, pelo menos para mim, é inimaginável não pensar que as coisas poderiam ter sido de outra forma.

O que me angustia são as pequenas perdas do cotidiano. Pequenas em termos, porque estas é que são enormes e que fazem toda a diferença. A perda da ternura e da sensibilidade, da palavra certa na hora certa, a perda de um amigo querido, a perda do controle, a perda do momento exato do perdão. E é tudo tão insignificante! “Tudo influi, tudo transforma”. Um pequeno momento, uma palavra errada, uma exaltação momentânea, um desabafo indevido. Tudo pode colocar a perder coisas maiores, melhores, muito superiores às pequenas picuinhas do cotidiano, à vulgaridade do dia-a-dia. No entanto, “a alma não tem justiça” (Fernando Pessoa).

Claro que alguém pode vir com a tese do copo meio cheio, mas, hoje em dia (no dia de hoje?), nada me convence de que a vida não é constituída de perdas e que, encontrar alguma coisa nova, significa perdê-la mais adiante. Tempo para reler Uma arte, da Elizabeth Bishop. Talvez uma resolução para esse novo ano seja aprender a aceitar, austero, a perda. Mas haverá sempre alguém para dizer que Elizabeth Bishop, na verdade, está afirmando exatamente o contrário: a arte de perder é, sim, complicadíssima. Afinal, lidar bem com isso é uma arte, o que não é pouca coisa.

Esse texto é assumidamente pessimista. Estou, cada dia que passa, mais duro e, porque não, mais amargo. O que me consola, porém, é que as coisas ruins também se perdem. Sim, as coisas passam. Tudo passa. A tristeza também tem fim, para contrariar os poetas-compositores. Às vezes o melhor é se resignar. Pelo menos quando faltam forças, quando não se tem mais energia para correr atrás, para dialogar, para argumentar. Nesses momentos só resta imaginar Sísifo feliz, como sugere Camus.

Aniversário

A poesia Aniversário (1929), de Álvaro de Campos (leiam o post acima):

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhaslágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

O problema do narrador em “La lotería en Babilonia”

Minha contribuição (provocação, na verdade) para o Clube de leitura, promovido pelo Idelber. Quem quiser ler o conto, pode pegar o livro aqui. O Alex Castro também escreveu seu texto.

“La lotería en Babilonia”, conto que pertence ao livro Ficciones, de Jorge Luis Borges, narra a história de uma sociedade, Babilônia, como o título indica, onde há uma espécie de “instituição total”, que orienta a vida social e as condutas de todos os seus habitantes: a loteria.

Devido ao fracasso inicial da loteria, que apenas oferecia vantagens aos apostadores, os mercadores resolveram elaborar uma pequena mudança: além de ganhar, pode-se perder: “mediante esa reforma, los compradores de rectángulos numerados corrían el doble albur de ganar una suma y de pagar una multa a veces cuantiosa”. Ganhar ou perder passou a ser visto como símbolo de distinção social. Mais do que isso. O sucesso dessa nova fórmula foi tão grande que apenas o fato de não jogar já era suficiente para o não-apostador ser publicamente depreciado.

A impossibilidade dos perdedores de pagarem as multas fez com que a Companhia (assim era chamada a empresa que controlava as apostas) tomasse uma atitude drástica: quem não pagasse iria para a prisão. Mas isso também não foi suficiente. A solução foi a aparição de elementos não pecuniários, como torturas físicas, na premiação.

A loteria, no entanto, não era, ainda, universalizada. Revoltados com o fato de apenas uma elite endinheirada poder fazer as apostas, os barrios bajos entram em convulsão social: “algunos obstinados no comprendieron (o simularon no comprender) que se trataba de um orden nuevo, de una etapa histórica necesaria...”. Com a universalização da loteria, esta instituição passa a reger a sociedade babilônica. Na verdade, o azar passa a controlar a ordem social: a loteria passa a ser secreta, gratuita e universal, ou seja, as distinções sociais são, agora, aleatórias, as pessoas passam, em qualquer detalhe de suas vidas, a contar ou incluir o azar:

"el comprador de una docena de ánforas de vino damasceno no se maravillará si una de ellas encierra un talismán o una víbora; el escribano que redacta un contrato no deja casi nunca de introducir algún dato erróneo; yo mismo, en esta apresurada declaración, he falseado algún esplendor, alguna atrocidad."

Babilônia é uma sociedade regida pelo princípio da incerteza. Instaurado e internalizado o azar como modo de operação das condutas e das instituições sociais, não resta espaço algum para a confiança – confia-se apenas no acaso.O que chama atenção no conto, no entanto, é que todo e qualquer tipo de discussão sobre ele não é possível, o que torna ainda mais interessante a idéia desse clube de leitura. O narrador da história (e convém separar autor de narrador) nos dá pistas para que não acreditemos naquilo relatado em um só momento: conhece apenas a loteria como alguém não versado em astrologia conhece a lua; a narrativa parte de uma história que seu pai conta ignorando “si con verdad”; o povo da Babilônia aparece como “muy devoto de la lógica, y aun de la simetria”, mas tem como princípio de orientação a completa falta de ordenação; ainda sobre as características do povo babilônio, o narrador nos diz ser ele “poco especulativo”, e o que mais faz o narrador, ao nos contar essa a história sobre a loteria, do que especular?; é claro que a passagem decisiva foi a já aqui citada: “yo mismo, en esta apresurada declaración, he falseado algún esplendor, alguna atrocidad”; dentre os juramentos dos escribas desta sociedade aparecem “omitir”, “interpolar”, e “variar”; além do mais, não podemos esquecer que o narrador não está em Babilônia. Seria ele um fugitivo, um dissidente?

Nesse conto me parece haver algo próximo à discussão, introduzida por Helen Caldwell, sobre a traição ou não traição de Capitu, em Dom Casmurro. Esse debate simplesmente não pode ser colocado, porque o narrador é Bentinho, ou seja, parcial e interessado. Capitu não tem voz. Acho que Borges faz algo próximo. Parafraseando a última parte do conto, é indiferente afirmar se há simbolismo por trás da história (o próprio Borges no prólogo diz que esse conto "no es del todo inocente de simbolismo"), se ela é uma alegoria das distopias totalitárias ou qualquer coisa do tipo. Essa até pode ter sido a intenção do Autor, mas o relato não nos permite afirmar, por si mesmo, em momento algum, coisa alguma.

Música do dia

Pensei bastante se colocava uma música alegre ou triste para começar a semana. Acho que colocar uma música feliz seria desonesto da minha parte. Segue então, uma pequena jóia da música portuguesa: Madredeus, com a canção O labirinto parado. Eu ia colocar aqui O pastor mas essa música é fácil de conseguir, além de ser bem famosa (foi tema de minissérie e tudo). Quem quiser ver o clipe de O pastor, aqui: http://www.youtube.com/watch?v=mLIjV6VISJE. . Já O labirinto parado é mais difícil, apesar de também ser uma canção conhecida. E, além de linda e extremamente delicada, assim como todas as músicas dos Madredeus, tem um verso lapidar: “a saudade é prima afastada do vagar”.



O labirinto parado
perdi-me num labirinto de
saudade
senti
à montanha
dos sítios que não mudam
subi
e ao
abismo
do vertiginoso futuro
desci

procurei para o sol
procurei para o mar
mas sem ti
no céu da
paisagem daqui
afinal não saí
mas sem ti
no céu da
paisagem
perdi
a noção da viagem

na pedra já mais que branda da memória,
escrevi
com o
tempo
que o musgo vai levando a crescer

com o brilho que a esperança nos faz
no olhar
escrevi
que a
saudade é prima afastada do
vagar

mas sem ti
no céu da paisagem
perdi
a noção da viagem
mas
sem ti
no céu da paisagem
daqui
afinal não saí
mas sem ti
no céu
da paisagem
perdi
a noção da viagem


Quem quiser ver o clipe: http://www.youtube.com/watch?v=0-Wyo2knCMc

domingo, 16 de setembro de 2007

Lista de leituras

Quero controlar melhor e me empenhar mais nas minhas leituras a partir do fim de setembro. Vou usar o blog para isso. Minha lista é a seguinte:

- O pai Goriot, Balzac – o livro é ótimo, mas tenho enrolado tanto nessa leitura... dessa semana não pode passar.
- Mrs. Dalloway, Virginia Woolf
- Memória de elefante, António Lobo Antunes
- A queda, Albert Camus

Por enquanto são estes que tenho em vista (e na minha casa). Se alguém tiver sugestões, por favor, deixe aí nos comentários.

Algumas notas sobre a Bienal do Livro

Queria ter me dedicado ao blog nesse fim de semana, mas esses dias foram, do ponto de vista mental e intelectual, vergonhosos. Além do mais, foram muito exaustivos, tanto física quanto espiritualmente (na falta de termo melhor).

Mas dentre as coisas muito boas e muito ruins, vamos à Bienal do livro, que sem dúvida está no time das primeiras:

- Como de costume, o ponto alto do evento foi o estande de doces portugueses. O doce de nozes valeu meu domingo completamente. Aliás, já está se tornando uma tradição: daqui a dois anos acho que vou até o fim do mundo apenas para comer os docinhos. Andar cinco horas naquele galpão cansa demais.

- Outro ponto notável da Bienal foram as esfihas folheadas do Habbib's, de cheddar com pepperoni e de mussarela com tomate. Muito mais caras do que as esfihas clássicas, mas muito boas mesmo.

- Um dos momentos mais divertidos da tarde foi assistir uma partida de uma espécie de futebol virtual. Eram três crianças tentando fazer gol, jogando contra ninguém. Perderam o jogo.

- Dentre os momentos bizarros, tivemos a presença de um grupo de pessoas, com cerca de 20 anos de idade, vestindo roupas de Harry Potter. Lá também é grande demais, com coisas inúteis demais. E fica longe. Deus, como aquele lugar é longe. Foi uma hora e meia de viagem, mais tempo do que se leva para ir do Rio até Teresópolis.

- Ah! Também havia livros por lá. Comprei os seguintes:

Um mestre na periferia do capitalismo, Roberto Schwarz
Ao vencedor as batatas, Roberto Schwarz
O afeto que se encerra, Paulo Francis
Sobre o Islã, Ali Kamel
Memória de elefante, António Lobo Antunes

Todos comprados com seus devidos descontos, claro.

Agora, bastante cansado e um pouco mais pobre, resta esperar mais dois anos para comer novamente a deliciosa torta de nozes.

sábado, 15 de setembro de 2007

Lembranças...

Acho que é o Raymond Aron que diz, em suas Memórias, que, ao reler Proust, prefere pular certas partes que lhe trazem boas lembranças, justamente para ficar com a impressão que possuía.

Essa é uma questão que vem me incomodando muito: se vale mais a pena se ater a certas lembranças, afinal, depois que algo ocorre, tudo são lembranças, não? Independentemente de essas lembranças corresponderem ou não com os fatos; ou colocar tudo isso em risco em nome de uma nova experiência, de um novo contato com aquela mesma coisa que, como sabemos, será inevitavelmente diferente, pois tudo muda com o tempo e o momento. É claro que é fácil dizer, “viva, homem, tenha coragem! Arrisque!”. Mas a vida também é o que trazemos conosco, nossos vivos e nossos mortos, nossas memórias e nossas experiências. Abrir mão da lembrança, seja ela o sorriso de uma menina, a comida de um restaurante ou uma poesia, não é, também, abrir mão do que nós somos?

UPDATE

Só agora percebi que esse post tem tudo a ver com o último. Juro que não era nisso que estava pensando quando escrevi isso aqui.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Anos incríveis

Podem falar o que quiserem da televisão. Podem rolar por aí, em espasmos de fúria, afirmando que é o ópio moderno, que destrói a inteligência, que dissemina a solidão e a incomunicabilidade entre pessoas. Podem dizer que é uma forma de controle da mente, uma arma política, um signo da mais vil dominação.Tudo balela. Quem se recusa a ver tv não sabe o que está perdendo.

Eu sou um admirador incontestável da televisão americana. Assisto, como um monte de gente, Seinfeld diariamente, há mais de cinco anos. Fazendo as contas, isso significa que eu já assisti, aproximadamente, todos os episódios um montão de vezes. E isso é um bocado de vezes, como vocês podem perceber. Acho que é o humor mais inteligente desde os bons tempos do Woody Allen. Aliás, cinema hoje em dia não está com nada. Quem quer ver coisa de qualidade tem que assistir televisão mesmo. Lá estão os grandes atores, as grandes produções, os roteiros mais inteligentes.

Quem viveu nos anos 90 e não assistia tv perdeu um momento único da infância ou da adolescência: Anos incríveis, seriado que acompanhava as aventuras e desventuras do mítico Kevin Arnold no conturbado EUA dos anos 1960 e 1970. O cuidado e delicadeza da produção são de fazer arrepiar. Eu lembro da tristeza profunda que me dava ver a senhora Norma Arnold, a mãe do Kevin, naquela vida cujo único sentido era cuidar dos filhos e do marido mau-humorado. Era impossível não se envolver de corpo-e-alma (estou enganado ou essa expressão está no ranking das mais clichês do mundo?) nas crises do Kevin; suas desilusões amorosas com a Winnie Cooper; seu dia-a-dia na escola: aulas de educação física, amigos panacas, sua relação com os professores, as notas; sua dificuldade de relacionamento com o irmão, o bobão Wayne, e com o pai, o típico americano-de-classe-média-patriota-veterano-de-guerra-que-adora-materiais-de-construção-assistir-televisão-e-beber-cerveja.

Kevin tinha uma sensibilidade tão diferente daqueles valores, se sentia por vezes tão sozinho em meio àquelas pessoas... Mas sempre tinha um episódio em que ele se dava bem com o pai, em que um entendia, finalmente, o outro, e isso me dava uma felicidade e um alívio tão grandes! Sem contar, claro, o Paul Pfeiffer, seu grande amigo. Poucas vezes uma amizade da ficção foi tão verdadeira quanto aquela.

E o mais interessante em Anos incríveis foi o fato de seguir cronologicamente a vida daquelas pessoas: os atores envelhecem, os personagens tornam-se mais maduros, suas relações se complexificam. Há mortes e nascimentos, namoros começam e terminam, novas pessoas surgem... Anos incríveis é uma vida.

Além disso, há a abertura. Ah... a clássica abertura! Não quero escrever nada sobre ela. Nem conseguiria: poucas músicas e imagens me emocionam mais.



Veja aqui como estão, hoje em dia, os atores que fizeram o seriado:

Lembro de uma série que o Fred Savage fez, já mais velho. Foi uma das maiores tristezas televisivas da minha vida. Aquele não era, de modo algum, Kevin Arnold. Não chegava nem perto. Preferia nunca mais ter visto estes atores. Algumas coisas são preferíveis guardar apenas na lembrança.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Música do dia

A música do dia continua sendo de uma cantora de voz potente. Muito potente. Mas de um estilo completamente diferente – da distância que vai da sociedade estadunidense para a latina: Lola Beltrán, espetacular, interpretando (vivendo?) Soy infeliz, música tema do ótimo Mulheres à beira de um ataque de nervos, do Almodóvar.



¡que me sirvan otra trago, cantinero, yo los pago
p’a calmar este surfrir!

terça-feira, 11 de setembro de 2007

11 de setembro

O Alexandre Inagaki (se vocês não conhecem o Pensar Enlouquece parem de ler isso aqui e corram pra lá) publicou um post sobre o 11 de setembro de 2001 contando o que ele fazia no momento do atentado. Acho que é uma questão que surge todos os anos, mas que é interessante relembrar, afinal, é sem dúvida o acontecimento internacional mais importante em décadas e décadas. Muita gente fala até em marco de uma Era. Talvez seja exagero. Mas a quantidade e a importância dos resultados deste dia (sejam eles práticos – como a invasão do Afeganistão e Iraque, a histeria coletiva em relação ao oriente – ou intelectuais – a interminável discussão sobre o ‘choque das civilizações, o papel do oriente no mundo ocidental e vice-versa) não arrefecerá tão cedo. Ainda virão os romances e os filmes, os livros escolares terão que ser atualizados... Apenas com o distanciamento histórico necessário, a partir de uma nova perspectiva, menos inflamada, poderemos avaliar a importância deste acontecimento. Seis anos não são nada.

Vou publicar o que comentei lá no Pensar Enlouquece, um pouco ampliado.

Eu estava no colégio, assistindo uma aula de matemática. Ligam para um amigo meu e dizem que a tia dele podia ter morrido em um acidente de avião nos EUA. Até aí tudo bem, essas coisas acontecem. Alguns minutos depois ligam para uma outra pessoa da sala e avisam que estava saindo fogo dos bueiros de Nova Iorque, e que a cidade inteira poderia estar em chamas. Ok, ainda é aceitável. Só no intervalo alguém que presta mais atenção nos noticiários avisa que um avião havia se chocado com o World Trade Center. Aí sim, inacreditável.

Ninguém tinha muita noção da magnitude destes acontecimentos. Eu lembro que mal sabia o que era o World Trade Center, mas pela minha idade, 15 anos, já deveria saber. (Meu deus, eu tinha 15 anos. Inacreditável como o tempo passa). Saí do colégio e fui para um supermercado que ficava ao lado, para almoçar. Não consegui. Fiquei todo o tempo olhando a tv e resolvi que era melhor ir para casa. Nunca assisti tanta televisão como naquele dia. Ficava mudando de canal o tempo inteiro, treinando meu inglês fajuto na CNN e afins. Ninguém entendia nada, ninguém sabia o que era. Só lembro que eu pensava que, pela primeira vez na minha vida, estava vendo a História ser feita na minha frente, ali, em tempo real. E isso é muito emocionante para quem sempre adorou história.

Lembro que na época eu era um leitor compulsivo do Noam Chomsky. Comprei, logo que saiu aqui no Brasil, o seu livro sobre os atentados, 11 de setembro. Levava o livrinho para todos os lugares. Olhando o livro no momento em que escrevo essas linhas encontro um artigo dele publicado n’O Globo, dois anos depois. Os assuntos são os mesmo abordados em 2007. Hoje em dia não leio mais Noam Chomsky. É incrível como a história passa e não passa ao mesmo tempo.

Música do dia

Resolvi criar a “música do dia” porque gostei dos recursos do IJigg. No entanto, quando escolhia quais músicas entrariam aqui, comecei a refletir um pouco sobre a importância da música na minha vida. Normalmente, quando estou conversando com alguém sobre esse assunto, digo que é irrelevante. Não é verdade. Mas só me dei conta disso agora. Não tenho uma banda preferida ou uma música especial, não sei sequer uma letra inteira de cabeça. Não entendo nada de instrumentos musicais ou de escala. Mas dizer que a música não tem qualquer importância para mim é um grande exagero.

Muita gente associa a lembrança a cheiros, sabores, cores, pessoas, idade, etc. Pois eu associo diversas fases, locais e momentos especiais (tanto bons quanto péssimos) da minha vida a músicas. Determinadas melodias me fazem, imediatamente, reviver momentos que eu não mais lembrava. A música é a minha madeleine. Vou escrever alguns posts sobre isso ainda.

Por hoje, deixo a primeira música do dia da fase “mulheres cantando”. Para começar, claro, Ella, “The First Lady of Song”.

domingo, 9 de setembro de 2007

Duas notas

  • A partir dessa semana vou passar a usar o IJigg para publicar algumas músicas que eu gosto muito e / ou estou ouvindo no momento. De início vou postar músicas cantadas por mulheres. Se alguém tiver sugestões, manifeste-se.

  • Alguns posts já estão na outra página. Portanto, usem os arquivos:

O mistério de Patinir: http://oritmodissoluto.blogspot.com/2007/09/o-mistrio-de-patinir.html
Ensimesmado: http://oritmodissoluto.blogspot.com/2007/08/ensimesmado-i.html
Um blog: http://oritmodissoluto.blogspot.com/2007/08/um-blog_26.html

O mundo é mágico?

Tomei gosto pela leitura lendo, essencialmente, Monteiro Lobato, Agatha Christie, história em quadrinhos de super-herói e o genial Bill Watterson e seu “Calvin e Haroldo”. Os três primeiros eu lia basicamente em Teresópolis, nas minhas férias de verão e inverno. Calvin e Haroldo, no entanto, sempre foram minha leitura urbana, de cabeceira. Sempre que eu estava triste ou me sentindo sozinho eu pegava alguma revista da dupla e passava a madrugada lendo (madrugada naquele tempo era dormir um pouco depois de onze horas). Esses personagens me influenciaram muito, mas isso é tema para um outro post. Basta dizer que até uma idade onde isso já é considerado vergonhoso eu tinha um bichinho de pelúcia de companhia. Ok, ele era uma forma de catarse, e pelo seu nome carinhoso já se pode imaginar o que eu fazia com ele: Porradinha. Mas depois falo das influências mais substantivas que os personagens do Bill Watterson me legaram, e como a sentença de Brás Cubas (do poeta britânico William Wordsworth, na verdade), “o menino é o pai do homem” é quase insofismável. O Porradinha (que era um pingüim) também merece algum espaço no futuro.

Nesse fim de semana, em uma livraria, decidi que vou me dar um presente de aniversário esse ano: o livro “O mundo é mágico”, que reúne diversas tirinhas desenhadas pelo Bill Watterson. Escrevi isso tudo para postar uma tirinha que nem é do Watterson, via um post antigo do Alexandre Inagaki. Não é, mas poderia ser, uma vez que traz uma sensibilidade tremenda – típica do cartunista americano. É, como o Inagaki mesmo diz, a tirinha mais triste de todos os tempos. A poesia e a criatividade vêm sendo enterradas continuamente em nome da verossimilhança e do determinismo: cada vez mais sentimos a constante racionalização do mundo, cada vez mais olhamos a vida de forma mais dura e “realista”, ou seja, mais amarga e mais vulgar. Uma amiga da minha mãe proíbe a filha de conversar sozinha e de ter amigos imaginários. Diz que isso não faz bem para a cabeça. Pessoas assim deveriam ser proibidas de ter contato com crianças.


p.s: a resolução ficou péssima, mas eu não faço idéia de como alterar isso. Vejam a tira com letras decentes lá no post do Inagaki.

sábado, 8 de setembro de 2007

Música do dia

Vamos ver se funciona...

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

A

Alguns chamariam de homenagem. Outros de plágio. Totalmente baseado nos saudosos Textículos de uma letra, do Utopia Dilucular:

Aborrecido, arrancou a artéria aorta abruptamente. Arrependeu-se. Arranjou a argumentação ardilosa:

- Arre! Apoquentado arrebatei a angústia amarga. Agora ampara-me!
- A ação abismou-me! Acalma-te e agüenta!
- A apoplexia atroz atacou-me. Alcança uma atadura!
- Arrumei o atilho.
- Anda, a acerba ardência arrefeceu! Aproveita!
- Acabei. Apruma-te altivo e avalia a avaria
- Agradecido!
- Andas aflito e amargo, atarantado amigo?
- A arte de amanhar amoras é árdua. Arrasou-me!

Oba! Desenho animado!

Ainda sobre as traduções... Agora como uma má tradução pode estragar até a melhor música do melhor desenho animado:


Spider pig
Spider pig
Does whatever a Spider pig does
Can he swing from a web
No he can’t
He's a pig
Look ooouuttt!!!
He is a Spider pig!!
Porco aranha: http://www.youtube.com/watch?v=Nh88ZkS0J6A

Porco aranha,
Porco aranha,
Pouco porco e mais aranha,
Vai tecendo a sua teia,
Mas chouriço não faz isso,
Cuidaaaado!
Ele é o Porco aranha!

Puerco araña
Puerco araña
Al mal ataca con su telaraña
Su colita retorcida
Da besitos con su trompita
Miraaaaa!!!!
Es el puerco araña”

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Segunda com poesia

Sensacional a leitura e melhor ainda os comentários do Pedro Sette Câmara sobre o magnífico poema One Art, da Elizabeth Bishop, em seu já tradicional Domingo com poesia.

Ouçam e leiam aqui: http://www.oindividuo.com/2007/09/02/uma-arte

Segue o poema

Uma arte

A arte de perder não é nenhum mistério;
tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

— Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

[tradução de Paulo Henriques Britto]

UPDATE

Outro dia estava conversando com uma menina da minha faculdade sobre a importância das traduções: uma tradução bem feita é mais necessária em textos acadêmicos, afinal cada conceito possui sua precisão analítica para ter valor, ou em um texto literário, onde o escritor passa dias para escolher a melhor palavra, aquela que melhor completa uma frase ou dá ritmo a uma poesia? Esse é o tipo de discussão que nunca terá fim. O que importa é que a tradução seja a melhor possível, no caso de não ler no original, claro. Abaixo segue uma outra tradução do poema One Art, da Elizabeth Bishop. Acho que fica bem clara a importância fundamental de uma boa tradução em poesia.

Uma arte

A arte de perder não tarda aprender;
tantas coisas parecem feitas com o molde
da perda que o perdê-las não traz desastre.

Perca algo a cada dia. Aceita o susto
de perder chaves, e a hora passada embalde.
A arte de perder não tarda aprender.

Pratica perder mais rápido mil coisas mais:
lugares, nomes, onde pensaste de férias
ir. Nenhuma perda trará desastre.

Perdi o relógio de minha mãe. A última,
ou a penúltima, de minhas casas queridas
foi-se. Não tarda aprender, a arte de perder.

Perdi duas cidades, eram deliciosas. E,
pior, alguns reinos que tive, dois rios, um
continente. Sinto sua falta, nenhum desastre.

- Mesmo perder-te a ti (a voz que ria, um ente
amado), mentir não posso. É evidente:
a arte de perder muito não tarda aprender,
embora a perda - escreva tudo! - lembre desastre.

[tradução de Horácio Costa]

Diálogos improváveis

Livraria da ECO, Praia Vermelha. Um rapaz estrangeiro procura um livro sobre cinema. Uma moça puxa assunto.

- De onde você é?

- Moçambique.

- Ah... Muito bonito o seu colar. De onde é?

- É de Moçambique, da minha cidade.

- Ah... Sabe como é, isso me trás algumas lembranças que não consigo falar. Tenho alguns problemas para conversar sobre certos assuntos, tenho problemas para me socializar.

- Verdade? Mas você já esteve no meu país?

- Não, muito longe! Mas isso me lembra uma viagem que fiz. Uma viagem que mudou muito a minha vida. Eu era muito pior, depois dessa viagem tudo se alterou.

- E para onde você foi?

- Paraty. Passei um tempo lá. Larguei tudo aqui, toda minha vida, e fui pra lá, foi uma experiência dessas que mudam a vida completamente. Mas eu não consigo falar sobre isso. Tenho muitas dificuldades para conversar com as pessoas, você nem imagina. E isso meu, é muito grave, muito sério, você nem faz idéia. Mas eu não consigo conversar, de verdade.

- É claro que você consegue conversar sobre isso. É porque você não tenta. Qual seu nome?

- Meu nome é L.

- Então, L., me conte alguma coisa, pode ser bom para você.

- Hmmm, não sei, realmente não sei. Eu já disse, tenho muitas dificuldades nisso... Mas, vá lá. Acho que chegou a hora de falar. Esse seu cordão e as suas origens me fazem lembrar muito dessa minha história... Sinto que devo contar para você, vai ser mais um processo de libertação dessas minhas dificuldades, vai ser uma nova abertura. E você é estrangeiro, da África, talvez me compreenda melhor, talvez consiga me ajudar e dar uma perspectiva diferente, uma perspectiva de vida mesmo, radicalmente diferente... OK, vou tentar falar sobre isso. Bom, tudo começou quando eu...

[Chega o vendedor e interrompe a moça.]

- Ei! Encontrei seu livro sobre cinema.

- Ah! Que ótimo! Tchau L. Bom conversar com você.

- ...

domingo, 2 de setembro de 2007

O mistério de Patinir

É surpreendente o papel que o acaso joga em nossas vidas. Conhecemos pessoas, livros e lugares que mudam os nossos destinos simplesmente por acaso, por estarmos em um determinado lugar, em uma determinada hora; por falarmos uma frase certeira e bem colocada; por um determinado gestual ou um olhar. Muitas vezes são estas pequenas coisas que mudam todo um ciclo de eventos: uma nova amizade, um namoro que “poderia ter sido e não foi”, um emprego conquistado ou perdido.

Conheci a obra de um dos meus pintores preferidos assim, de forma completamente fortuita. Morava na Espanha e estava, então, com uns 12 ou 13 anos. Resolvi comprar um livro, destes de bolso, de edição vagabunda, para praticar meu espanhol. Comprei pela aura de mistério que o título trazia: El enigma del Maestro Joaquim. Nunca havia ouvido falar do autor, Sigrid Heuck, que, pelo nome, sequer é espanhol. Não fazia idéia que o tal Joaquim do título era um apaixonante pintor flamenco, que hoje em dia não é nem citado na maioria dos livros de história da arte: Joaquin Patinir.

O livro, pelo que me lembro, conta a história de um rapaz que, fascinado por uma pintura de Patinir, Paisagem com São Cristóvão, resolve entrar no quadro e reconstituir os momentos que precederam a cena pintada. O que mais lhe interessa não é a técnica, ou mesmo a figura principal.


O menino percebe, lá atrás, o que parece um corpo sendo retirado da água. Alguém morreu afogado? Ou será que estamos diante de um crime? Disposto a investigar essa cena, o menino faz de tudo para fazer parte daquele ambiente. Certo de que se trata de um crime, pretende investigar como ocorreu, sua motivação, seus culpados. A memória me trai, assim também como o azar. Não terminei o livro na época e inexplicavelmente nunca mais o vi. Possivelmente esqueci na casa em que morava ou perdi no caminho, em alguma caixa de livros que foi mandada pelo correio. Não faço idéia do que ocorre ao longo da narrativa, se o rapaz realmente consegue entrar no quadro, se desvenda o assassinato, se conhece outras obras do artista flamenco.

Mas nada disso importa, na verdade. O livro já me deu muito mais do que simplesmente o prazer da leitura. Talvez se terminasse de ler o livro me desencantasse e perdesse o fascínio pelo mistério e pelo próprio pintor. Sempre vou ficar com a vaga lembrança de um menino que tenta entrar num quadro. E ela é ótima.

Patinir tem poucos quadros. Teve uma vida curta e não se sabe praticamente nada a seu respeito. É, no entanto, o inventor das paisagens. Foi o primeiro pintor a elevar a paisagem a protagonista de seus quadros, ou ao menos o primeiro a fazer isso com grande maestria. O rapaz do livro estava certo: não se deve fixar o olhar às figuras religiosas que normalmente aparecem em primeiro plano. Até duvido que Patinir as pintasse sempre. Possivelmente fazia as paisagens e dava a seus assistentes o encargo de desenhar os personagens principais. Nota-se perfeitamente que o prazer do autor está no fundo, nas cidades longínquas, nas rochas tão peculiares que marcam seu estilo (e sua terra natal).

Há um claro padrão nos quadros de Patinir: a profundidade é imensa, efeito conquistado graças ao horizonte, pintado sempre na parte superior da tela (o espaço deixado para o céu é mínimo) e aos rios e mares, que dão a exata noção da distancia para o fundo da obra. Reparando no céu, nota-se uma mudança de coloração: mais alto têm-se um azul mais forte, e quanto mais próximo ao mar mais branco e luminoso vai ficando. Adoro essa luz que salta do contato do céu com o mar. Normalmente, após procurar os inúmeros detalhes de seus quadros, pouso meus olhos nessa luminosidade que, não sei porque, me reconforta e dá esperança. Talvez por indicar o mundo que há além do mar, um mundo desconhecido, mas que está ali. Talvez por associar a alguma luz divina, típica dos quadros de El Greco, por exemplo. Uma luz que anuncia algo maior e melhor, além das mesquinharias do nosso cotidiano.

A luz de Patinir continua sendo, para mim, um mistério e toda vez que olho para um de seus quadros tento resolvê-lo. Nunca consigo. Ainda bem, pois há certas coisas que devem ficar envoltas em enigma para que possam ser apreciadas, pois apenas no segredo e no silêncio podemos nos evadir. Um filósofo espanhol, falando sobre a importância da metáfora, diz que apenas ela “crea entre las cosas reales arrecifes imaginarios, florecimiento de islas ingrávidas”. Na luz de Patinir encontro a delicadeza e a esperança de que é possível sim viver uma vida mais leve e maior, procurando, assim como Goethe, declarar-me da linhagem daqueles “que do escuro rumo ao claro aspiram”.