terça-feira, 28 de agosto de 2007

Ensimesmado I

É curiosa a existência de certas palavras em determinada língua, e apenas nela. É o caso da famosa saudade. A versão que conheço diz que a palavra foi criada para expressar o sentimento que os portugueses que vinham para o Brasil na época de nosso Descobrimento nutriam em relação a Portugal e seus familiares. Para mim faz bastante sentido. Como diz Gilberto Freyre, “o português, já de si melancólico, deu no Brasil para sorumbático, tristonho”. O povo português é marcado por uma certa sensação de melancolia, que pode ter suas explicações inclusive nas dificuldades de manutenção de uma unidade territorial (a batalha de Alcácer-Quibir e o sebastianismo são um bom exemplo). As roupas pretas que cobrem boa parte do corpo (possivelmente de origem árabe), tão típicas do interior português, e o fado, a música triste por excelência, apenas ajudam a evidenciar como esse traço é marcante na cultura portuguesa.

Se pensarmos que “somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra” não nos estranharia o sub-título do livro mais importante do ensaista Paulo Prado: Retrato do Brasil: Ensaio sobre a tristeza brasileira, sentimento este resultante, segundo o autor, da hiperestesia sexual (“post coitum animal triste”) somada à cobiça. Essa espécie de ethos brasileiro, ainda segundo Paulo Prado, é plasmado no sentimentalismo romântico que marca boa parte da produção literária nacional do século XIX (mas não só literária, uma vez que o autor pensa o Romantismo de forma muito mais ampla). Retomando o tema da saudade, não me parece circunstancial que o primeiro grande livro romântico brasileiro chame-se Suspiros poéticos e saudades, de Domingos Gonçalves de Magalhães, onde o poeta retrata sua profunda tristeza pela distância de sua terra:

Oh saudade! Oh saudade!
Pois que em minha alma habitas,
E sem cessar me lembras pais, e Pátria,
Minhas tristes endechas serão tuas,
Saudade, serei teu... Saudade, és minha.

Muitas foram as vezes em que a saudade, essa “tirana da ausência”, foi cantada pelos poetas românticos. A mais famosa de nossas poesias do período, a “Canção do exílio”, é justamente um enorme elogio da pátria, algo “entranhadamente brasileiro”, como notou o arguto crítico literário José Guilherme Merquior: “Profundamente brasileira é a saudade da terra natal, na forma de um desprezo cego pela realidade objetiva do país. Boa ou ruim, promissora ou aflitiva, essa realidade jamais conseguirá demover o saudoso de seu amor obstinado à terra”. Um dos mais importantes poetas ultra-românticos brasileiros, Casimiro de Abreu (autor da famosíssima “Meus oito anos”, que fala da saudade da infância – por sinal, outro topoi da literatura tupiniquim), tampouco perdeu a oportunidade de cantar as saudades de sua pátria, afinal “Todos cantam sua terra, / Também vou cantar a minha”:

Então - proscrito e sozinho -
Eu solto aos ecos da serra
Suspiros dessa saudade
Que no meu peito se encerra.
Esses prantos de amargores
São prantos cheios de dores:
Saudades - Dos meus amores
Saudades - Da minha terra!

Pois bem, voltemos ao primeiro parágrafo. Independente das discussões lingüísticas acerca da relação entre linguagem e vida social, não é difícil entender a existência de uma palavra particular que transmita um determinado sentimento. A saudade, seja ela explícita ou não, é um tema fundamental na cultura portuguesa, assim como na brasileira. A minha questão é outra: por que será que o verbo ensimesmar existe somente na língua portuguesa e espanhola? As razões para essa dúvida explicitarei em um próximo post.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Um blog

Porquê começar um blog? São vários os motivos. Todos bem pequenos, irrelevantes. Sozinhos sem dúvida não seriam suficientes. Não sinto necessidade de escrever. Sempre tive vontade, sempre comecei diários, poesias, crônicas. Mas sempre paro. Esse blog vai acabar daqui a algum tempo. Pouco tempo. Ele é fruto de uma contingência.

Primeiramente, senti certa nostalgia por haver encontrado acidentalmente um antigo blog. Era um blog de humor. Eu costumava ser mais bem humorado antigamente. Agora meu humor se transformou em um certo cinismo, em sarcasmo. Fui cultivando isso ao longo do tempo. Fui afiando as minhas críticas, tentando ver como as coisas são pequenas e merecem ser vilipendiadas o tempo todo. Acho que é mesmo um exercício, porque também me faz ver o quanto eu sou pequeno, e o quanto é necessário rir de mim mesmo. É duro, às vezes é mesmo uma proteção misturada com certa dose de covardia. Estou tentando lidar com isso.

Um segundo motivo foi a viagem que minha mãe fez até a cidade de Salamanca, para um curso. Fiquei pensando no que faria se eu estivesse lá. Acho que faria um blog, contando as minhas impressões do lugar. Possivelmente seria um “blog diarinho”. “Hoje tive aula de sei-lá-o-quê”, “conheci o monumento a sei-lá-quem”... e por aí vai. Melhor seria mandar um cartão-postal.

Mas li também um bom livro, do Paulo Polzonoff, sobre Nova Iorque. Um relato de viagens não precisa ser um diarinho, assim como não precisa ser um tratado de sociologia comparada. Ao ler as histórias tão saborosas e bem contadas pelo Polzonoff fiquei com mais vontade de criar meu blog sobre a viagem a Salamanca. Mas, por Deus!, eu estou no Brasil!

Portanto, estou com os pés ficados nesta terra. E estou cheio de problemas, cheio de fantasmas. Talvez seja apenas um drama. Talvez eu tenha voltado a ler Camus e Sartre. Nunca se sabe. Mas aqui pode ser uma boa forma de exteriorizar o que me incomoda, ao invés de encher os meus amigos ou arrancar os meus cabelos. Não adianta remover as coisas. Tenho aprendido isso nos últimos tempos. Na marra, como tem que ser. Meu último mês foi cheio. Foram as férias mais cansativas que tive. Mas acho que também aprendi muito. É claro que em certas coisas nunca se amadurece, e sempre se cometem os mesmo erros. Ou ao menos é necessário mais tempo, mais quedas. Dar com a cara na porta várias vezes seguidas. Não é muito inteligente, é verdade. Mas é o que eu tenho conseguido fazer. Tenho errado com pessoas que eu adoro e são próximas, com pessoas distantes e que poderiam vir a ser alguma coisa. E comigo mesmo, venho repetindo alguns erros momentos depois de perceber a besteira. Tenho que arcar com as conseqüências e melhorar. Não resta outra alternativa.

Peraí! Eu fiz um blog! É, acho que aprendi menos do que imaginava...