domingo, 2 de dezembro de 2007

Paul Johnson: as contradições de um intelectual

Eu gosto do Paul Johnson. Discordo de muito do que ele diz e não conheço as suas pesquisas na área da religião, que são o seu trabalho mais substantivo. Mas seus artigos na Spectator são quase sempre muito bons e sempre muito ricos – e polêmicos, diga-se. Aliás, uma das coisas que mais me atrai nesse senhor britânico é o seu estilo provocador, aliado a uma erudição impressionante. As duas obra de Johnson que já li, Tempos modernos (1984) e Os intelectuais (1988) têm muitos defeitos, mas são livros importantes e muito bem escritos. Essa é uma grande e rara capacidade desse historiador: consegue trazer uma massa impressionante de informações de uma forma admiravelmente simples, sem ser simplório.

Semana passada, acho, o Paulo Polzonoff linkou um artigo do Paul Johnson bem interessante, sobre o que devemos e o que não devemos saber sobre os homens (e mulheres) por trás dos livros que lemos. É melhor conhecer ou não a vida privada de nossos autores preferidos?

Eu particularmente não leio muitas biografias. Na verdade, no Brasil, o mercado editorial para biografias é bem restrito. Se as pessoas já não lêem os autores, imagina só se vão ler sobre a vida deles. Mas é impossível não cair na tentação de buscar pelo menos uma informaçãozinha, nem que seja na Internet. E é quase sempre decepcionante.

Grandes gênios costumam ser pessoas difíceis, que acabam tendo uma vida miserável. De certa forma, a arte mata a vida dessas pessoas. Ou então, no oposto, elas escrevem justamente para se salvarem de seus problemas. Um sábio doutor vienense já dizia que o artista é aquele capaz de direcionar, para sua arte, a sua neurose, aliviando, assim, suas tensões pulsionais, não é mesmo?

Pois Paul Johnson é bem claro em seu artigo da Spectator : “The truth is, an author and his works are best kept separate”. Um pouco antes, logo na primeira frase do texto, ele já havia observado que “I don’t want to know too much about writers”. Achei estranho, muito estranho. Para quem não sabe, o livro citado acima, Os intelectuais, parte de uma premissa muito interessante, e sociologicamente muito relevante: “Ao longo dos últimos 200 anos, a influência dos intelectuais vem crescendo regularmente. Na verdade, o surgimento do intelectual secular foi um fator decisivo para dar forma ao mundo moderno” (p. 11). Nada mais verdadeiro. O que Johnson procura mostrar em seu livro é o perigo que confiar o destino humano a essas “figuras seculares” pode trazer. O Autor busca, portanto, na biografia de muitos dos mais proeminentes intelectuais modernos – de Rousseau a Edmund Wilson, passando por Marx, Ibsen e Tolstoi, dentre outros –, as contradições daquilo que de fato faziam com o que escreviam em seus livros, para procurar desconstruir, assim, a moral que promulgavam.

Daí minha incompreensão do artigo publicado na Spectator Magazine de outubro. Afinal, é ou não é importante conhecer a vida dos intelectuais? Ainda pensei que poderia ser possível fazer uma distinção entre escritores de literatura e ideólogos ou teóricos, mas em “Os intelectuais” Johnson escrutina a vida de um Ibsen, um Shelley, um Tolstoi, um Brecht e outros literatos. Ainda pode-se argumentar que todos estes autores possuem um claro vezo ideológico, um claro engajamento político. É verdade. Mas mesmo assim, qual é exatamente a relevância ou, mais do que isso, em que medida trazer essas informações contribui para uma suposta desmoralização de suas obras? Se Tolstoi era um péssimo administrador, se maltratava os seus cavalos, se era ou não gnóstico, se tinha uma vida sexual conturbada, se arruinou sua família, até que ponto isso interfere no fato de “Guerra e paz” ser uma obra-prima?

Até compreendo que em alguns casos conhecer os fatos expostos por Johnson seja bem importante. Por exemplo, no caso de Karl Marx, descobrir se o filósofo alemão falsificava os Livros Azuis da biblioteca do British Museum, utilizava dados fabris ultrapassados ou lia mal as estatísticas, isso sim  até poderia ajudar a por em xeque a sua análise do sistema capitalista. Mas saber se ele era um mau amigo, mau marido e um péssimo pai, isso, sinceramente, não tem relevância nenhuma para entender o legado de Marx. Pelo contrário, só me deixa mais receoso em relação às informações sérias apresentadas: Johnson quer desmoralizar a obra ou simplesmente mostrar os furúnculos do traseiro do barbudão?

Acho tudo muito contraditório em Paul Johnson, apesar de gostar de muita coisa do que ele escreve, e achar importante o papel que cumpre no mundo intelectual. Mas se é para mostrar as contradições dos intelectuais, estudar o próprio Paul Johnson pode ser um bom começo.

3 comentários:

Ticous disse...

Que triste... um post sem comentário.
Nem li o post porque eu não entendo desses panos de bunda de filosofia. É só pra dar uma força pro Little John mesmo.

Anônimo disse...

Cara, muito bom seu post. Concordo com tudo que você escreveu. Também sou meio "pé atrás" com muitas coisas do Johnson, mas acho que é perdoável se nós o enxergarmos como um sujeito que escreve muito bem e que gosta de fazer polêmica. Ele é mais ensaísta que acadêmico. Se fosse um Nelson Rodrigues falando da vida amorosa do Marx, todo mundo acharia lindo, mas como é historiador, não pode.

Depois leio outros posts seus. Seu blog é bom, pena que parou de atualizar.

Abraços.

Anônimo disse...

Comentário que provavelmente ninguèm lerá ja que estou postando muitos meses após a publicação do post.

Não li o livro citado e também concordo com o autor do post que as idéias devem ser separadas do sujeito que as tem. Porém o caso de Marx não é assim. Marx não atuava no plano ideal, sempre visou a práxis, a prática sempre foi posta acima da teoria de maneira que o que o sujeito faz é muito mais importante do que o que ele efetivamente pensa, logo a conduta do próprio Karl Marx conta sim em seu legado, que pode ser chamado de tudo, menos de filosófico.( 11 tese sobre Feuerbach)