segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Mudo, mas não mudo muito? (I)

Há uns poucos meses atrás eu estava com a obsessão nem um pouco saudável de olhar perfis no Orkut, perfis de pessoas que estudaram comigo no colégio. Eu não fazia a menor questão de saber como elas estavam hoje em dia. Eu queria saber como eu estava hoje em dia. Estava pensando muito em quanto eu mudei – ou não mudei – do colégio para cá.

Achava que tinha mudado muito e resolvi conferir como as pessoas que conviveram comigo na adolescência estavam, saber se era normal mudar tanto em um tempo aparentemente tão curto (na verdade não dá para medir a passagem do tempo simplesmente pela passagem do tempo...). E as pessoas estavam exatamente iguais. O mesmo estilo, os mesmos filmes, as mesmas músicas, as comunidades que eu imaginava, as fotos esperadas, os (as) namorado (as) padrão... Eu sei que o Orkut não dá base suficiente para julgar ninguém. Mas anos e anos de convívio + Orkut dão. Pelo menos pra mim, que não ruborizo ao deixar meus preconceitos fluírem.

“Mas ninguém mudou! Não é possível que só eu tenha mudado, não é possível”, pensava. Fiquei alguns dias e noites atormentado com a frase lapidar de Brás Cubas (originalmente do poeta inglês William Wordsworth): “O menino é o pai do homem”. Será que todo mundo é para sempre aquilo que foi na infância? Será que nunca poderei fugir dos meus fantasmas passados? Olhando aqueles perfis e pensando em Machado de Assis, tive a terrível imagem de que também eu não havia mudado rigorosamente nada.

Obcecado por essa questão ingrata e insolúvel, resolvi dar uma olhada nos meus cadernos de anotação antigos. Lendo aquelas páginas e rindo das besteiras todas que eu escrevia, dos amores platônicos pela menina loirinha que sentava na primeira fileira, do meu ódio profundo por certos professores e colegas, das minhas aflições tão adolescentes e graves, das minhas reflexões que pareciam tão suntuosas e admiráveis, das minhas tentativas de imitar o Fernando Pessoa... Enfim, olhando tudo aquilo que eu era, encontrei alguém que eu realmente não sou mais, ou em parte não sou mais. Encontrei, por exemplo, esse pequeno texto. Depois de amanhã volto com a parte final desse post. (E, por favor, tentem conter o riso pelos rabiscos que seguem).

***

Não ouso mais me olhar no espelho. A imagem que aparece do outro lado não me agrada nem um pouco. Não apenas fisicamente, mas, sobretudo, psicologicamente. As olheiras não significam simplesmente horas perdidas em noites mal dormidas. Representam todas as idéias e lembranças que as madrugadas me reservam.

Dormir tem se tornado um longo e cansativo jogo de paciência. É nas horas que antecedem meus sonos mais profundos (um sono sem sonhos, diga-se de passagem) que reflito mais exaustivamente sobre a vida e a existência. Existência, essa, insuportável, um fardo pesado demais para o meu já debilitado esqueleto. Torna-se humanamente impossível agüentar tamanha pressão exercida por mim em mim.

Mas com o passar das horas meus pensamentos vão se transformando. Passam de claras reflexões mundanas para conceitos abstratos e sombrios. Minhas idéias parecem acompanhar a necessidade de descanso de meu corpo fatigado. Recordações de coisas que sequer lembro de ter vivido irrompem em minha mente. Todas as noções se misturam e uma sensação de tontura é percebida. Já não consigo encontrar palavras para descrever o que se sucede. Desespero, talvez? Não. Também não é uma aflição. Já não sei se estou dormindo. Sinto meu corpo mais leve, mas, como o sinto, julgo ainda estar acordado. Olho no relógio. Sim, estou acordado. Findam-se as abstrações. O relógio de ponteiro ao meu lado faz um barulho não muito agradável. Sinto um vento abafado vindo da janela semi-abeta. Carros passam esporadicamente lá fora. Seus ruídos, porém, não me incomodam. Mesmo com o calor puxo o lençol até o pescoço. Meus pés agora estão descobertos. Sinto frio. Envolvo-me no tecido. Agora já não penso em nada além do lençol. Olho para o relógio uma última vez. Não sei o que ocorre depois. Não penso mais.

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