quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Mudo, mas não mudo muito? (II)

Lembro exatamente de quando e como escrevi o texto abaixo. Das circunstâncias que o geraram. Outro dia cheguei da Lapa, já de manhã, e, me olhando no espelho, percebi umas olheiras horrorosas. Recordei imediatamente deste texto. Peguei para ler. E nesse momento percebi muito claramente o quanto eu mudei e o quanto eu não mudei nos seis anos que separam a escrita desses rabiscos e como eu me sinto hoje em dia. Recuperando, mentalmente, aqueles momentos, sei que o que ali me afligia não é mais um problema. É algo que superei completamente, porque aprendi a compreender, aprendi como lidar. Foram noites de sono perdidas, foram dias e dias sem comer, sem fazer simplesmente nada. Eu só lia Fernando Pessoa, Edgar Allan Poe e Álvares de Azevedo. É o tipo de coisa que hoje em dia não tem mais nenhuma eficácia também. Eu até gosto destes autores, mas por motivos completamente diferentes daqueles lá dos meus 15 ou 16 anos.

Eu não sofro mais daquele jeito, não me entristeço pelos mesmos motivos, não me afeto por certos fatos que antes me deixariam na cama por dias. Não tenho também, e isso é fundamental, as mesmas reações, os mesmos descontroles. Aprendi a colocar as coisas em escalas novas, em novas perspectivas. Aí está uma palavra chave, aliás, perspectiva. Acho que é uma prova de amadurecimento, de crescimento, quando você consegue colocar tudo em outras bases, em um plano mais elevado, até porque a vida é feita de escolhas, e fazer escolhas implica escolher prioridades. Hierarquias são fundamentais – o difícil, mas necessário e recompensador, é saber o que deve estar no topo e o que deve estar na base, o que exige preocupação e cuidado e o que simplesmente você ignora e se afasta.

No fundo, me pareço muito com o que era, é inegável. Interesso-me por coisas muito próximas, tenho o mesmo tipo de humor, as mesmas referências. Mas cada vez menos me reconheço naqueles textos escritos no começo desta década. A maioria daqueles pensamentos não mais me afeta, não mais me dá dor de cabeça. Aprendi a lidar com aquilo, aprendi a por as coisas em seus devidos lugares. Hoje eu tenho vários problemas novos, não sei lidar com um monte de situações e extravaso as tristezas e frustrações ao meu modo – muitas vezes nocivo a mim e aos outros. Mas quando li o texto abaixo me senti mais leve. Eu acho – e essa é apenas uma suspeita – que é a sensação da mudança, um pouco associada a um certo ganho de liberdade. Mudei para melhor. Superei vários obstáculos que há alguns anos atrás pareciam intransponíveis. Me libertei, afinal de alguns dos meus fantasmas.

Enquanto escrevia esse post pensei o tempo todo no quanto é ruim cometer sempre os mesmos erros, again and again. É uma das piores coisas que podem acontecer com alguém. É trágico não superar nada, não mudar nunca e se equivocar sempre da mesma forma, pelos mesmos motivos. Ler o texto antigo me fez ter um pouco mais de esperança em mim mesmo, mesmo sabendo que ninguém aprende sempre, ninguém supera sempre. Mas também me deixou muito triste, porque notei mais claramente o quanto algumas pessoas próximas – e outras nem tanto – vêm tendo dificuldades em mudar, ou seja, fazem sempre as mesmas escolhas e caem sempre no mesmo buraco, mesmo sabendo que estão cometendo um erro gigante, muitas vezes irreparável. Eu sei que em breve também vou cair em um buraco metafórico desses, mas agora não quero pensar nisso. Quero permanecer com essa sensação de leveza, que é tão boa. Quero continuar andando na rua aleatoriamente, com a cabeça levantada, e com os pés uns centímetros acima do chão.

No fundo, Brás Cubas está certíssimo: o menino é sim o pai do homem. Ou, para colocar nos termos do Alberto Caeiro em seu Guardador de rebanhos:

"Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
De que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra.
Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.

(...)

Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés -

O mesmo sempre, graças ao céu e à terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma..."

Não dá para fugir de certas coisas, assim como não é bom se reinventar tanto – você acaba perdendo em conteúdo, pois perde o que realmente importa, que é o processo. Mas algumas vezes é fundamental o homem dar umas boas chineladas no menino.

3 comentários:

m disse...

Não entendi, o que realmente importa é o processo? Não acho não. O que realmente importa é mudar pra melhor. E sim, mais uma vez acho que você está falando de mim (ou de alguém com um n a menos), reconfortante pensar que vc divide a angústia da dificuldade de mudar. Incomoda a possibilidade da pena alheia. Preciso melhorar muito, urgente e rapidamente. (Sessão psicanalítica via blog? Yeah, I guess you can say so)

Juca disse...

A vida passa amigo...a vida passa

Andre disse...

m: achou de novo, errou de novo.

Eu disse que a tentativa de se reinventar sempre é ruim, porque se perde muito das experiências passadas, e elas normalmente trazem coisas boas e aproveitáveis, como aprender com os erros, por exemplo.

juca: é exatamente isso :-) Essa idéia ao mesmo tempo dá esperanças e atormenta, não?