quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Tradicionalismo culinário e um pouco de Gilberto Freyre

Eu não vou aqui discutir se o povo brasileiro é ou não conservador. Esse tema é um topos clássico das ciências sociais brasileiras e me meter a falar desse assunto neste blog implicaria, ou uma simplificação muito grosseira do tema, ou um debate acadêmico demais, pouco adequado para esse espaço.

Mas achei no mínimo curiosas as propagandas do restaurante carioca La Mole, que, como vocês podem ver, apelam para o antigo em detrimento do novo, para o tradicional e já conhecido no lugar das modernosas experimentações. Isso não é nada comum no meio da publicidade. Muito pelo contrário, as propagandas procuram sempre mostrar o quanto o produto apresentado é inovador e diferente, e que está aí para revolucionar as mesmices de sempre. Os propagandistas fazem isso porque partem do princípio de que as pessoas querem coisas novas e inusitadas, ou porque querem nos convencer de que seus produtos são capazes de superar o que já nos é oferecido. As propagandas, então, nos exortam a experimentar, a viver a vida perigosamente e essas coisas todas que vocês já sabem.

Mas não é tão óbvio assim que as pessoas sempre queiram as novidades. Pelo contrário, acredito que os pratos clássicos e típicos ainda possuem uma força poderosa em nossa cultura gastronômica. Por isso acho interessante a propaganda do La Mole, que investe em parodiar as invencionices para marcar as qualidades do “arroz com feijão”, para ficarmos em expressões culinárias. Tenho curiosidade de saber quais foram os resultados que o restaurante já colheu com sua publicidade, mas acredito que tenham sido positivos, independente do povo brasileiro ser ou não conservador.

Agora, reparem só na propaganda do “Avestruz à piamontesa”. Eles dizem que o arroz à piamontesa deles é uma adaptação da receita original! Eu até pensei em ir ao La Mole, só por causa da propaganda que eles fizeram, mas sabem como é, sou um reacionário da culinária, sou um tradicionalista gastronômico, sou um purista do arroz à piemontese.

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Logo que vi as propagandas do La Mole fiquei com vontade de reler o “Manifesto Regionalista”, do Gilberto Frerye. O tema principal do “Manifesto” consiste na discussão das tensões entre tradição e modernidade no Brasil do princípio do século passado. O texto, lido no Primeiro Congresso Regionalista do Recife (1926), procura enfatizar a “reabilitação de valores regionais e tradicionais” da região nordestina, que estariam, segundo o Autor, desaparecendo por conta do “furor neófilo de dirigentes que, entre nós, passam por adiantados e progressistas, pelo fato de imitarem cega e desbragadamente a novidade estrangeira”. O Mestre de Apipucos debruça-se particularmente na perda das tradições culinárias: “toda essa tradição [culinária] está em declínio ou, pelo menos, em crise, no Nordeste. E uma cozinha em crise significa uma civilização inteira em perigo: o perigo de descaracterizar-se”, diz o Autor.

Deixo aqui alguns dos trechos mais interessantes (curiosos, na verdade):

E sempre muito lírico, o português foi dando aos seus doces e quitutes, no Brasil, nomes tão delicados como os de alguns de seus poemas ou de seus madrigais: Pudim de Iáiá, Arrufos de Sinhá, Bolo de Noiva, Pudim de Veludo. Nomes macios como os próprios doces. E não apenas nomes de um cru realismo, ás vezes lúbricos, como "barrigas de freira"

Sobre as negras baianas:
mulheres, quase sempre imensas de gordas que, sentadas á esquina de uma rua ou á sombra de uma igreja, pareciam tornar-se, de tão corpulentas, o centro da rua ou do páteo da igreja. Sua majestade era ás vezes a de monumentos. Estátuas gigantescas de carne. E não simples mulheres iguais ás outras.

O próprio côco verde é aqui considerado tão vergonhoso como a gameleira, que os estetas municipais vêm substituindo pelo "ficus benjamin" (...) Ao voltar da Europa há três anos, um dos meus primeiros desapontamentos foi o de saber que a água de côco verde era refresco que não se servia nos cafés elegantes do Recife”.

Raras são hoje, as casas do Nordeste onde ainda se encontrem mesa e sobremesa ortodoxamente regionais: fôrno e fogão onde se cosinhem os quitutes tradicionais á boa moda antiga. O doce de lata domina. A conserva impera. O pastel afrancesado reina.

As novas gerações de moças já não sabem, entre nós, a não ser entre a gente mais modesta, fazer um doce ou guisado tradicional e regional. Já não têm gôsto nem tempo para lêr os velhos livros de receitas de família. Quando a verdade é que, depois dos livros de missa, são os livros de receitas de doces e de guisados os que devem receber das mulheres leitura mais atenta. O senso de devoção e o de obrigação devem completar-se nas mulheres do Brasil, tornando-as boas cristãs e ao mesmo tempo boas quituteiras para assim criarem melhor os filhos e concorrerem para a felicidade nacional. Não há povo feliz quando ás suas mulheres falta a arte culinária. É uma falta quase tão grave como a de fé religiosa.

5 comentários:

m disse...

Ainda bem que meu livro de missa descansa comportadamente junto do centenário livro de receitas da família, ambos no meu criado-mudo. Freyre se orgulharia! --- Também acho essa campanha engraçada, mas não tinha pensado em como ela realmente vai na contra-mão do clichê publicitário "new and improved!". La Mole promovendo exaltação ao tradicionalismo gastrônomico brasileiro... quem diria!

Acho que já te passei esse link, é muito bom! Recomendo especilamente pro Tiago a leitura do Dispositivo - "Baralhinho do momento" - imperdível!

http://web.mac.com/moleque/iWeb/antipropaganda/CASA.html

Ticous disse...

Você é estranho. Vendo as propagandas do La Mole, você fica com vontade ler Gilberto Freyre. Eu fico com vontade de comer (que acredito ser justamente o objetivo da propaganda). Mais uma vez: você é estranho.

E se quiser minha opinião (se não quiser, caguei pra você, pois eu vou dar assim mesmo) o brasileiro é um conservador que se diz moderno. Ele só aceita as "mudernidades" quando elas já viraram "normais".

Ticous disse...

Senhorita M,
O "Baralhinho do Momento" realmente é fenomenal. Me tomou meia tarde para ler tudo (sim, eu tosco e leio devagar), mas valeu muito a pena. Muito obrigado pela indicação.

m disse...

Disponha, Tiago! Sempre às ordens!

Ticous disse...

Isso aqui virou o Disque-galera? Bate-papo da UOL???
"Oi, quer tc?"
hahahaha