quarta-feira, 14 de novembro de 2007

(In)Segurança ontológica

Só o passado verdadeiramente nos pertence.
O presente... O presente não existe:
Le moment où je parle est déjà loin de moi.
O futuro diz o povo que a Deus pertence.
A Deus... Ora, adeus!
(Manuel Bandeira)

Gostaria de ter a confiança de Manuel Bandeira no passado, mas é impossível. Cada vez mais me convenço de que não é possível confiar em nada, de que coisa alguma possui um mínimo de estabilidade, de segurança.

Não, o passado não nos pertence. Se o futuro não está ao nosso alcance, e portanto não podemos ter controle sobre ele, e o presente é sempre fugidio, o passado tampouco existe em si. E mesmo que exista, isso é irrelevante, porque ele não pode ser apreendido como algo estável, uma vez que o passado está em nós, e não no mundo. O que vale mesmo é a impressão do passado.

Não importa se o seu primeiro beijo foi deste ou daquele jeito, se a sua festa de aniversário de 3 anos foi animadíssima ou um saco, se aquela garota que você conheceu no carnaval era de fato deslumbrante ou assustadora. No final, o que conta é a lembrança que trazemos daqueles momentos, a forma como moldamos, em nós mesmos, a situação vivida. Pensando assim, me sinto tentado até concluir que o Passado, com pê maiúsculo, não existe, pois tudo são reelaborações presentes, de momentos que, a seu tempo, também foram presentes.

Mas voltemos ao objetivo desse texto. O grande problema de se dar conta de que a todo tempo estamos reelaborando o passado, de forma involuntária, diga-se, é perceber que até aquilo que tínhamos de mais precioso, e a princípio seguro, pode perder-se, pode tornar-se uma lembrança ruim ou ao menos pior do que aquela original. E o mais duro é que sabemos que dificilmente haverá volta, pois os fatos jamais se repetirão e novamente dependeremos de nossas elaborações mentais.

E eu não falo aqui da substituição de uma lembrança por outra, quando, por exemplo, relemos um livro ou revemos uma paisagem e essa segunda impressão acaba afetando nossa memória e tomando o lugar da anterior. Há livros, por exemplo (e não necessariamente os que mais gosto, mas normalmente aqueles que me trazem algum tipo de recordação extra-leitura, além do prazer do livro em si), que simplesmente não releio ou sequer penso sobre, como uma espécie de auto-defesa.

A coisa, me parece, fica mais grave quando, por alguma outro motivo – como uma informação nova, uma outra lembrança antes adormecida, uma revelação no presente ou, para ficarmos em termos mais gerais, simplesmente uma nova perspectiva das situações, como aquela que temos após um longo período de reflexão ou amadurecimento – esse passado é alterado e tudo aquilo em que se acreditava vira fumaça. E aí, o que você faz? O passado não é algo simples de esquecer, cobra seu preço e somos obrigados a carregá-lo, querendo ou não.

Eu não sei como lidar com essa situação. Ver o passado que você conhecia, aquele que “verdadeiramente nos pertence”, como diz o Bandeira, indo embora, desmoronando e se tornando algo pior é muito duro, muito penoso. “Perder” o passado é, também, perder uma parte da sua vida, sem maiores perspectivas de recuperação.

2 comentários:

m disse...

And yet again o meu egocentrismo não me deixa achar que isso é sobre mais ninguém. Acho muito triste se for isso mesmo: se a sua percepção sobre tudo de lindo, alegre e ótimo que passou está mudando e deixando tudo pior. Não sei pedir desculpa porque não me arrependo, talvez essa nova idéia tão pior que agora você tem de mim seja mais real. Só posso tentar arcar com as conseqüências disso, de ser assim e ser percebida fielmente. Mas acho uma pena. Eu preferia ser gentil, muito muito mais. E acho que nada é definitivo - você mesmo disse, as lembranças são constantemente re-elaboradas, portanto sempre há perspectiva de recuperação, sempre há.

andre disse...

m: só para tentar diminuir o seu egocentrismo intratável. É bastante chato ter que explicar as motivações dos textos, até porque dificilmente se escreve alguma coisa por um motivo único (pelo menos comigo é assim). Mas vá lá, sobre esse texto, as seguintes opções são possibilidades do que me motivou. Fica a critério do freguês.

a) Ter assistido, um dia antes, ao filme O Passado.
b) Ter voltado a Teresópolis, após anos sem visitar o lugar em que passei boa parte da minha infância.
c) Ter conversado, poucos dias antes de escrever o texto, com um amigo sobre o quanto nossas lembranças são frágeis.
d) Ter lido há pouco tempo um conto cujo tema é justamente as idas e vindas das lembranças.
e) Ter simplesmente encrencado com o poema do Manuel Bandeira, em uma noite insone.

Além dessas há outras motivações, tenho certeza.