quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Fundindo a cuca

Acabei de ler n’O Globo que o livro Fora de órbita, do Woody Allen, vai ser lançado no Brasil em dezembro. A notícia me deixou tenso. Fiquei andando de um lado para o outro na sala aqui de casa até me cansar. A pergunta que me atormentava era aparentemente simples: “que diabos eu faço com esse livro?”.

Eu cresci assistindo aos filmes do Woody Allen. Meus pais sempre alugavam e eu acaba vendo uma parte aqui, outra acolá. Dificilmente agüentava assistir tudo, porque os filmes dele – mesmo as comédias mais bobas – não são tão fáceis para uma criança de 10 anos. Mas a figura daquele nova-iorquino franzino e careca me chamava muito a atenção. Seu jeito peculiar de falar, de mover os braços, suas neuroses, tudo aquilo era atraente demais. Não tinha como não ser bom.

Aos treze anos experimentei meu primeiro Woody Allen sozinho. Foi um momento crucial, porque eu deveria decidir se gostava ou não daquilo. Uns dias antes havia visto no cinema “Celebridades”, e admito que não gostei. Achei o filme chato, sem graça. Precisava tirar a prova dos nove. Fui na locadora e voltei para casa com “Um misterioso assassinato em Manhattan”. Hoje em dia admito que não é dos melhores, mas é um excelente filme. Não desgrudei mais. Subi no sofá e gritei, segurando a caixa do VHS: “Preciso ver tudo desse sujeitinho!”.

Levei realmente a sério isso e durante anos me alimentei basicamente de Woody Allen e Sucrilhos Kellogg's®. Não há nenhum exagero em dizer que Woody Allen moldou meu caráter, assim como não há exagero em dizer que Sucrilhos Kellogg's® diminuiu drasticamente minhas expectativas de vida. Durante uma época eu até gesticulava e gaguejava como ele. Boa parte das minhas neuroses, dos meus hábitos, do meu humor, da minha visão sobre relacionamentos, dos meus interesses, das minhas referências, enfim, meus modos de agir e de ser, são provenientes de "Annie Hall", "Hannah e Suas Irmãs", et cetera. Durante um tempo até a Diane Keaton foi meu modelo de mulher interessante, vejam só.

Não sei se essa minha fixação por Woody Allen é boa ou não. Eu aprendi muito com ele, mas também me tornei uma pessoa mais difícil de se lidar. Volta e meia, quando não sei muito bem como reagir a uma situação, me pego imaginando como seus personagens iriam se sair da enrascada. O problema é que eles nunca se saem muito bem, eles nunca sabem ao certo o que fazer.

Mas eu falo mais de Woody Allen outro dia. O problema aqui é o livro dele que será lançado em dezembro. Por que eu fiquei ambulando (sim, essa palavra parece não existir, mas tento institucionalizá-la desde os meus doze anos) pela sala até a exaustão? Porque eu nunca li um livro do Woody Allen. Essa não é a frustração. Pelo contrário, isso é uma defesa para uma possível decepção. O lançamento desse livro, no entanto, recoloca algumas questões que me atormentaram por muito tempo. Sempre evitei ler os livros dele porque queria guardar alguma coisa para quando já tivesse visto todos os seus filmes. O momento chegou, eu acho. Claro que existem os filmes inéditos já que, graças aos deuses do cinema, o velhinho de 71 anos continua na ativa. Mas tudo que há na locadora eu já vi, a maioria mais de uma vez.

É sempre bom rever os filmes do Woody Allen, mas nunca é a mesma coisa, nunca é a mesma surpresa, por mais que, em muitas ocasiões, eu tenho gostado mais quando vi pela segunda vez. Há vantagens em rever filmes: você pode ficar mais atento às interpretações dos atores, às sutilezas da direção e da fotografia, às piadas, às referências externas e internas (se não tivesse visto “A flor do meu segredo” do Almodóvar após assistir “Volver” nunca saberia que a história deste já está posta naquele, por exemplo) e, claro, as percepções nunca são as mesmas, já que o espectador será sempre diferente, normalmente mais maduro, com um gosto mais apurado, com mais bagagem. Mas raramente é um filme completamente novo.

Será que chegou a hora de engolir o medo (covardia?) e ler os livros do Woody Allen? Não sei, vou lá andar mais um pouco.

10 comentários:

Ticous disse...

Agora começo a entender um pouco porque você é meio estranho... crescer acompanhando esse velho pedófilo e com espírito de fracassado? Muitos anos de análise pra você.
Eu tenho esse lance de medo do novo com um CD do Marillion. Tenho um disco deles que é genial, considerado por muitos um dos melhores da história do rock progressivo, quiçá da música! Aí eu não quero conhecer mais nada da banda com medo de ser uma bosta.

É... e quem falou é justa?

Chico disse...

minhas cartas na manga são alguns filmes, a maioria do início da carreira dele, que estou guardando pra quando ele morrer ou parar de fazer filmes anuais. Livro, já li um e achei só razoável. Prefiro os filmes mesmo! Mas quando li a notícia no globo fiquei animado e petendo ler esse livro quando for lançado no brasil, enquanto espero o lançamento do Cassandra's Dream! Recomendo que faça o mesmo!

tiago: ele não é pedófilo, só casou com a filha quando ela já era maior de idade, ok?! falar mal de um homem tão normal assim, que absurdo...

Ticous disse...

Ok, eu sou burro e não sei usar as palavras, mas isso não diminui o fato de que ele comeu a própria filha (caguei se ela é adotada ou não). Queria ter falado "incesto".
E tenho dito.

andre disse...

ticous: tenho horror a fazer análise, mas é tão Woody Allen sentar em um divã... Assim como fumar. Outro dia um amigo lembrou um trecho do Mannhattam em que ele diz que só fumava pelo charme, sem tragar. É muito blasé fumar. Mas sem tragar, por causa do câncer.

chico: eu não tenho mais cartas na manga, não sei blefar. Mas lembre-se que ganhei uma partida de Munchkin de 8h, então, vai saber...

Rafael Abreu disse...

Vamos combinar?
Eu dou novas chances pro magrelo nova-iorquino e você dá uma chance pra música brasileira.
Faça um João Paulo feliz!
Agora pára de ver filme do Woody Alen e vai correndo ouvir Beatriz! Mas, pelamordedeus, cantada pelo Milton e não pela Ana Carolina!

Ticous disse...

Uma partida de Munchkin de 8 horas (na verdade foi um pouco menos de 6 horas. Mas ainda assim é tempo pra cacete)... ahhhh!
Análise é divertido, é bem menos assustador do que parece (e olha que eu sou uma das pessoas mais preconceituosas que você conhece).
E fumar não bomba. Broxante total.

Partiu Munchkin???

João Paulo disse...

1 - Leia os livros!

2 - Essas histórias aqui comentadas não passam de invenções da mente pervertida da Mia Farrow...

3 - Aceito o desafio. Mas temos que rever os termos: eu vou ser submetido a duas horas de sofrimento, enquanto você a apenas 3 minutos. Não é justo...

Andre disse...

rafael: vou tentar achar essa música, prometo. Assim que você der as chances para o Woody (sou íntimo), claro :-)

ticous: os melhores comentários sobre análise que conheço são do próprio Woody Allen: "Faço análise há trinta anos e a única frase inteligente que já ouvi do meu analista é a de que preciso de tratamento" ou ainda “I was in analysis. I was suicidal. As a matter of fact, I would have killed myself, but I was in analysis with a strict Freudian and if you kill yourself they make you pay for the sessions you miss”. Aliás, ler as frases do Woody Allen no Wikiquote vem sendo uma das minhas grandes diversões.

Andre disse...

joão paulo: vamos pensar em uma forma de deixar o desafio justo. Talvez um cd inteiro do Chico? (Medo). E não vão ser duas horas. "Gritos e Sussurros" é curtinho. Acho que menos de uma hora e meia de puro deleite.

Sobre os boatos, não custa lembrar que a Soon-Yi é filha apenas da Mia Farrow (e adotada), o que, obviamente deixa as coisas muito normais.

Ticous disse...

Ahhhh tá! Comer a enteada é tranquilão... tá certo, eu que sou conservador demais. Desculpe.