sábado, 24 de novembro de 2007

Brevidades e obviedades

Pondo-se a ruminar (não era o Nietzsche que dizia que para compreender sua filosofia era necessário “ser quase uma vaca”?), Brás Cubas chega à brilhante conclusão de que fixar o olhar ao nariz é ensimesmar-se, perder de vista o mundo exterior. Se o amor é procriação, o nariz é o equilíbrio.

Há, no entanto, uma outra ponta fundamental para a humanidade, e eu não falo aqui de drogas, seus enfumaçados. É a ponta do sapato ou do tênis. Quantas conversas chatas, quantas broncas tomadas, quantas horas sem ter o que fazer, quantos momentos constrangedores foram amenizados simplesmente com esse breve movimento de olhar para baixo? O elevador! Como andar de elevador sem poder olhar para a ponta do sapato?!

Eu fiquei pensando na importância da ponta do sapato ou do tênis para a civilização. Quantos vexames notórios, quantas brigas e guerras, quantos suicídios não foram evitados por conta dessa pontinha? Olhar para a ponta do sapato é conter boa parte da nossas pulsões, dos nossos instintos mais irracionais. A ponta do sapato é um dos pilares da civilização.



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Perguntar ofende [1]:

Por que diabos as pessoas dizem, após dar uma opinião, que “ninguém é obrigado a concordar com a minha opinião, claro”? Não é claro que alguém não precise acatar a sua opinião. É o óbvio ululante, evidente, intuitivo, patente, manifesto, incontestável. As pessoas que dizem isso devem levar suas opiniões muito a sério, devem se levar muito a sério, só pode ser.

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Perguntar ofende [2]:

Por que as pessoas sabem o que tem que fazer, sabem exatamente as conseqüências que o fazer ou o não fazer vão trazer e, mesmo assim, reclamam e dizem que o mundo conspira contra elas após o resultado evidente acontecer? Aliás, a pessoa que acha que o mundo e o universo vão ser dar ao trabalho de conspirar contra ela deve ser a mesma da pergunta [1]. A pessoa tem que se achar relevante demais.

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Boa parte das visitas desse blog são fruto do texto sobre a palestra do professor americano Randy Pausch. Ultimamente as visitas aumentaram – o que me surpreendeu bastante. Fui ver se ele havia morrido, mas não, ele está para escrever um livro. O mais inusitado é que o livro ainda não escrito já teve os seus direitos comprados!

Não é uma temeridade comprar os direitos de um paciente terminal, antes do livro ser concluído? Esse fato só demonstra a pressa e a falta de critérios das editoras. Depois não sabem os motivos da quantidade de porcarias publicadas por aí. Não que isso me interesse, porque não leio mais os autores contemporâneos. Aliás, que vontade me deu de reler Ilusões perdidas, do Balzac!

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Mas eu fiquei conjeturando sobre o que faria se soubesse da proximidade da morte. Sem dúvida não ia escrever um livro, de jeito nenhum. Mas depois pensei que é uma besteira esse tipo de raciocínio. Simplesmente não dá para se colocar nessa situação, não dá para imaginar o que é se sentir à beira da morte. Melhor ir tomar um sorvete de flocos.

2 comentários:

Ticous disse...

Começa a fazer sentido os tênis tipo All Star (é, não sei o plural de "All Star") terem a ponta branca. Nesses momentos constrangedores você olha pra eles e começa a imaginar coisas. Alguns até desenham ali, na falta de papel. E começa a fazer sentido porque eu tenho tanta unha encravada (blé!)... na falta do All Star pra desenhar, eu cutuco as unhas.

Eu acho que o ser humano é naturalmente egocêntrico. É claro que alguns são mais que outros, mas todos são um pouco. Já reparou que quando um grupo começa a rir perto de você, sempre parece que é sobre você a piada? Ou que você tem um cocô de pombo no meio da cabeça e não se deu conta? Pois é... egocentrismo.

E pra mim um de pistache caprichado, por favor.

Andre disse...

ticous: é exatamente por isso que o All-star faz sucesso, por que no mais ele é um tênis muito do vagabundo.

Há muito tempo não como sorvete de pistache, um dos meus preferidos. Mas o mais divertido era quando eu achava que pistache e alpiste eram a mesma coisa :-0