quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Academia de ginástica

Hoje eu me matriculei pela terceira vez em uma academia de ginástica.

Na primeira vez, na hora de fazer o exame físico, o instrutor pediu que eu tirasse a camisa: não fazia isso em público há uns cinco anos. Observei o balançar de sua cabeça, em negação. Ele olhava para a ficha que tinha em mãos e para as minhas costelas, quando lançou um: “você é todo errado, heim”. Tomei isso como um elogio: “vai ver que por errado ele quis dizer diferente, e por diferente alguma coisa especial, que foge do padrão”. Eu, o rapaz especial da academia, fui todo feliz no dia seguinte, completamente a fim de levantar uns supinos (supino é alguma coisa que se levanta?). Percebi que o instrutor não tirava os olhos da minha camiseta. Num dado momento ele vira pra mim e pergunta o que estava escrito nela. Era uma camiseta da banda californiana Black Flag:

- Black Flag

- Que quer dizer...

- Bandeira negra

- É racista essa coisa aí?

- De jeito nenhum!

- Tu é racista, né? Aí, se tu for racista eu vou chamar os meus colegas pra te encher de porrada.

- Que isso! Deve ser algum mal entendido! Longe de mim!

E assim terminou minha primeira saga em busca do corpo perfeito.

Ano passado resolvi tentar outra vez. Escolhi uma roupa que não pudesse afetar qualquer minoria. Por coincidência, quando cheguei no instrutor, havia um senhor de 72 anos também fazendo sua série. Talvez para poupar tempo o professor de ginástica deu a mesma série para nós dois. Achei estranho: um rapaz de 20 anos e um senhor de 72 fazendo os mesmos exercícios? Olhei com pena para o vovô: sabia que ele não resistiria. Nossos horários eram bastante próximos e pude perceber que meu colega de cabelos brancos era um bocado persistente. Passado um mês era hora de renovar a série. Fomos vovô e eu falar com o Jim Carrey (eu dou nomes aleatórios para os instrutores). O que aquele senhor tão esforçado pensaria quando Jim diminuísse sua carga e aumentasse vertiginosamente a minha? Mas não é que, para minha surpresa, O Máscara resolveu aumentar a série do Costinha (eu também dou nomes aleatórios aos alunos)? A minha seria tão forte que possivelmente eu teria que pedir para que o instrutor pegasse mais leve. Ele olhou para mim de forma estranha – logo imaginei que minha camisa pudesse conter alguma referência racista – e disse: “é, vamos manter assim um pouco mais?”. Na hora juro que não entendi direito, e simplesmente consenti. Depois, enquanto levantava alguns (poucos) supinos (supino é alguma coisa que se levanta?), é que me dei conta que o desempenho do senhor de 72 anos havia sido melhor do que o meu. Ainda continuei na academia por mais um mês, mas acabei desistindo ao perceber que aquele simpático senhor de cabelos brancos além de fazer uma série esmagadoramente mais pesada do que a minha ainda por cima conseguia correr o dobro de tempo na esteira.

Pois bem, hoje, como já disse, fui estrear a minha terceira academia. E não é que, na hora de fazer a série, dei de cara com uma menina branquinha e magrinha, bonitinha mesmo, com um livro do Goethe debaixo do braço (Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister – espirituosamente ainda perguntei se ela utilizaria esse “tijolinho” como peso)?! Ao explicar que fazia ciências sociais, ficamos um tempo discutindo o conceito lukácsiano de reificação enquanto fazíamos abdominais em uma bola gigante de borracha amarela. O resto você já imaginam: passamos horas andando na esteira e recitando Virgílio e nos questionando sobre a superioridade ou não de Balzac sobre Stendhal – ela argumentava que O vermelho e o negro fluía melhor, que a narrativa era menos truncada, e eu insistia em ressaltar as qualidades sociológicas do autor da Comédia Humana. Depois, enquanto levantávamos nossos respectivos supinos (supino é alguma coisa que se levanta?), relembramos alguns apelidos divertidos que o José Guilherme Merquior dava a certos filósofos, tais como Derridá-ou-desce e Foucault, o Nietzsche calvo de Saint-Germain-des-Prés, e ficamos nós também dando apelidos engraçadinhos aos instrutores e aos alunos.








*Tá bom, tirando o trecho que envolve a menina branquinha e magrinha juro que todo o resto é verdade.

13 comentários:

Ticous disse...

Acho que o Chico vai fazer algum comentário bem específico sobre a última parte...
Eu também já tentei esse lance de academia, mas em três meses eu ganhei somente um quilo. Aí eu desisti de ficar forte e resolvi estudar. Mas isso também não tá dando muito certo... Alguma sugestão?

P.s.: Excelente a foto do Hamster dentro do contexto (ok, ele também é fofinho sozinho. Me lembra o Jerry Lee, o Hamster da minha irmã).

m disse...

you frighten me, A.

Chico disse...

excelente texto, muito bom mesmo, adorei! hahahahahaha
com um pouco de insistência vc é capaz de sair da terceia idade muscular e voltar aos 22 (ou 21) anos novamente! força!

obs.1: não, não se levanta um supino!!!!
obs.2: não seja humilde! claro q a parte da menina branquinha aconteceu! eu vi! juro!

Pedro disse...

hahahhahahahahahahahahahahahahahahahahahahhahahahahah
excelente o texto!

Cla disse...

quem diria...andré, um romântico! :p (ultima parte)

Cla disse...

bosta, só pq eu nunca tinha colocado acento no seu nome, hoje - dps daquela conversa - coloquei hahaha... Foi no automático! Mas tudo bem...agora estamos empatados! Foi um acento agudo por um E ! :p

Beijinho.

Anônimo disse...

Tarzan (o filho do alfaiate)
De: Noel Rosa e Vadico

Quem foi que disse que eu era forte?

Nunca pratiquei esporte, nem conheço futebol...

O meu parceiro sempre foi o travesseiro

E eu passo o ano inteiro sem ver um raio de sol

A minha força bruta reside

Em um clássico cabide, já cansado de sofrer

Minha armadura é de casimira dura

Que me dá musculatura, mas que pesa e faz doer


Eu poso pros fotógrafos, e destribuo autógrafos

A todas as pequenas lá da praia de manhã

Um argentino disse, me vendo em Copacabana:

'No hay fuerza sobre-humana que detenga este Tarzan'

De lutas não entendo abacate

Pois o meu grande alfaiate não faz roupa pra brigar

Sou incapaz de machucar uma formiga

Não há homem que consiga nos meus músculos pegar

Cheguei até a ser contratado

Pra subir em um tablado, pra vencer um campeão

Mas a empresa, pra evitar assassinato

Rasgou logo o meu contrato quando me viu sem roupão

Eu poso pros fotógrafos, e destribuo autógrafos

A todas as pequenas lá da praia de manhã

Um argentino disse, me vendo em Copacabana:

'No hay fuerza sobre-humana que detenga este Tarzan'


Quem foi que disse que eu era forte?

Nunca pratiquei esporte, nem conheço futebol...

O meu parceiro sempre foi o travesseiro

E eu passo o ano inteiro sem ver um raio de sol

A minha força bruta reside

Em um clássico cabide, já cansado de sofrer

Minha armadura é de casimira dura

Que me dá musculatura, mas que pesa e faz doer

Karin Kolln disse...

Andre, peço desculpas se pareci ter sido grossa na minha resposta, essa definitivamente não foi minha intenção (respondi de novo lá nos comentários do meu blog mesmo).

Fazer musculação é quase tão bom quanto ler Balzac, Goethe e Stendhal. Você tem que persistir - o começo é uma droga, mas na hora em que você vir mudanças no seu corpo não vai mais querer parar.

E certamente as qualidades sociológicas do Balzac fazem dele um escritor mais interessante que Stendhal. Quem quiser vislumbrar os motivos que suscitaram o nascimento da sociologia deve ler "Ilusões Perdidas" (só se acha em sebos a versão completa).

Beijo!!!

Ticous disse...

Esse post podia ter uma música tema. Eu sugiro (da sugestão, não o Japonês) o funk "Aula de Ginástica". Tem um quê de Shakespeare.

andre disse...

ticous: você podia pensar em trabalhos manuais, fazer um curso de cerâmica ou de pintura a dedo...

Os únicos animais de estimação que tive e que não foram assassinados brutalmente foram dois Hamsters, o Jabba e o Floyd

Sobre o Funk, pesquisei aqui no Google, e realmente, lembra muito Romeu e Julieta.

m: não entendi seu comentário.

chico: obrigado pela força. E eu disse que a mocinha não existia porque combinei isso com ela. Não era pra ter contado!

andre disse...

pedro: perto do papel que eu faço na academia esse texto não tem graça nenhuma.

cla: ok, estamos quites!

anônimo: excelente lembrança! Adoro essa música.

karin kolln: sem problemas!

Vou tentar malhar lendo, quem sabe não melhora minha disposição(acredito que as chances de uma queda da esteira aumentem também...)?!

Sobre Balzac e a sociologia, recomendo a quem interessar a leitura dos dois artigos a ele dedicados no livro Ensaios sobre literatura, do Lukács. Não é à toa que o Balzac era o escritor preferido do Marx.

Srta. Jones disse...

Hahaha! Quando você deu a entender que haveria uma revelação mais surpreendente depois do post do meme eu não imaginei que seria isso.

Eu também tenho um passado displicente em relação à ginástica. Já me matriculei quatro vezes e desisti em todas depois de, no máximo, três meses. Da próxima vez vou me inscrever numas aulas de yoga, quem sabe assim eu não sossego?

Eu já estava achando que você tinha encontrado a sua alma gêmea e ainda por cima, hélas, numa academia!! rs...

Alexander Englander disse...

Em breve o primeiro intelectual sarado da Tijuca! houhou
Liga não, aquele velhinho devia estar tomando bomba...