domingo, 21 de outubro de 2007

Vou-me embora pra Caxambu

Está bem, Caxambu não daria um poema*. Mas é pra lá que eu vou, no 31° encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS), que começa dia 22 de outubro, também conhecido como amanhã. A decisão de ir só foi tomada hoje (devido a vários inconvenientes), então não deu tempo de prepara nada. O blog vai ficar parado durante esse tempo, pois acho muito difícil postar alguma coisa de lá. Mas quem sabe eu não dou um alô para vocês?

Caxambu não vai ser minha Pasárgada. Nem a cama, vejam só, será a que escolherei! Mas acredito que a viagem será boa. Fujo um pouco do calor do Rio e deixo algumas coisas para trás, o que nem sempre é bom. Contudo, algumas vezes faz-se necessário. Não adianta só mudar de paisagem, pois as coisas estão dentro de nós. Assim como Gretta Conroy, do fabuloso conto The Dead, de James Joyce, carregamos sempre conosco os nossos vivos e os nossos mortos. Não importa onde estivermos, sempre nos farão companhia. Todos nós trazemos na alma o nosso Michael Furey.

Mas Caxambu (do tupi Catã-mbu, ou “água que borbulha”) vejam só, é o maior complexo hidromineral do mundo, seja lá o que isso signifique. Quem sabe eu não consigo tempo para me energizar e revitalizar um pouco? Dentre as principais atrações da cidade, encontra-se um agradável “city-tour” de charrete e a visita “à (sic) criatórios e exposições de cavalos mangalarga marchador”. Não posso deixar de perder! Além do mais, dei sorte com a data do Congresso. De 20 a 30 de outubro essa aprazível cidade mineira “recebe e hospeda o Mestre Internacional de Xadrez, o cubano Gerardo Lebrero, que realizará demonstrações e fará palestras divulgando o esporte dos mestres”. A viagem promete fortes emoções!

Por enquanto é isso.
Abs.

*Na verdade existe um poema de Rui Barbosa sobre Caxambu!


***

- Não deixem de ler o genial jornal Caxambu Notícias (essa edição é de 2006, mas não aposto em muitas novidades). Atenção especial na coluna do impagável erudito Olavo Onunlavo, e não esqueçam de anotar o nome do Victor Luiz Pereira da Silva, um top model infantil que ainda vai dar o que falar.

- Quem gosta do Manú Bandeira pode escutar aqui Vou-me embora pra Pasárgada sendo recitada pelo próprio autor.

- Há um belíssimo filme baseado no conto do James Joyce acima citado: Os vivos e os mortos (na tradução brasileira), do John Huston. É impossível dizer qual o melhor, se o livro ou o filme, mas essa me parece a mais bem sucedida adaptação de uma obra literária já feita para o cinema.

Saindo de uma celebração de Dia de Reis em Dublin – isso já no final do filme – Gretta Conroy (interpretada por uma formidável Anjelica Huston) ouve uma tradicional canção irlandesa, "The Lass of Aughrim", que evoca involuntariamente na personagem recordações de sua juventude, as lembranças de Michel Furey, um ex-namorado que morrera de pneumonia, ao tentar vê-la de noite, em um rigoroso inverno irlandês. O vídeo que segue é o momento exato em que Gretta ouve a música. Reparem nas expressões do rosto de Anjelica Huston, sua respiração lenta, como se a vida (perdida) estivesse passando na sua frente, com um misto de felicidade pelos momentos vividos e da angústia da perda, da impossibilidade de recuperar o que já passou (no verso mais triste da língua portuguesa, “A vida inteira que podia ter sido e que não foi”). Reparem isso, principalmente, quando seus olhos abrem e se enchem de lágrimas, para fecharem novamente, agora em um aparente tom de resignação. Não sabemos se Gretta balança a cabeça com a melodia da tradicional música irlandesa ou em negação e lamentação. Acredito que pelos dois motivos. Gabriel Conroy, marido de Gretta, observa tudo do pé da escada, sem compreender as emoções que atravessam sua mulher. É uma das cenas antológicas do cinema, das mais emocionantes, não tenho dúvida.


5 comentários:

Srta. Jones disse...

Caxambu é uma cidadezinha amável (como quase toda cidade mineira). Eu estive lá aos 4 anos de idade, e talvez por isso as lembranças sejam tão boas (e poucas). Aproveite e coma o máximo que você puder - não existe coisa melhor neste país do que comida mineira.

Pelo visto a viagem veio a calhar. Às vezes é realmente bom sair de perto de tudo o que a gente conhece - mesmo que, como você disse, nós tenhamos que carregar nossos mortos e nossos vivos para onde quer que seja. Campos do Jordão que o diga.

O que mais me chamou a atenção no New York Times de Caxambu foi o anúncio de utilidade pública "Castrar é Proteger". O Globo poderia copiar esta idéia.

Boa viagem e não se esqueça de levar um casaco (Caxambu, se eu me lembro corretamente, é meio fria).

m disse...

Você vai adorar a ANPOCS e Caxambu! Como toda grande metrópole, é um pouco agitada demais, mas com o tempo você se acostuma ao ritmo frenético das pessoas sentadas no meio-fio vendo a vida passar e mascando (o quê?) o tempo. Que bom ter resolvido ir! Adorei Olavo Oununlavo, deve ser parente do "de Carvalho"! E esse filme é lindo, mas só dá pra ver quando a gente não tá nem um pouco triste, senão desanda.

Boa viagem, Andre! Como a senhorita acima recomenda, esbalde-se de pão de queijo e doce de leite, cuidado com as águas de diferentes minerais e encha-se do ar da acadêmica Caxambu Anpocsiana! E mande um beijo pro meu tio! Já sinto sua falta.

p.s. irressistível: "A decisão de ir só foi tomada hoje (devido a vários inconvenientes), então não deu tempo de prepara nada." (ouch, comemos um r, did we?)

andre disse...

srta. jones: caxambu é, de fato, uma micro-cidade. Uma rua, que muda de nome a cada 200 metros. Está frio e chove um bocado. A comida boa ainda não foi exatamente encontrada, mas continuarei procurando.

m: a cidade possui uma vida deveras entusiasmante, mas não encontro doce-de-leite. Amanhã espero encher a cara d'água no famoso parque da cidade.

Sobre seu tio, já vi ele aqui sim!

Cla disse...

que maravilha! se for que nem são lourenço, tem água pra tudo que se puder imaginar - e oq não puder tbm! nesse caso, faz um favor e me traz uma garrafinha de água pra stress, uma outra pra cólica e uma pra gula! = )

post genial.
e viva e ironia
to rindo horrores.

beijo!
meia porta qnd voltar!

Ticous disse...

Eu ouvi um brado de "Meia Porta!"?!

Não que vá adiantar muito, porque você volta amanhã (eu acho), mas cuidado com umas águas loucas dessas aí. Dizem que se beber muito de algumas, rola uma bela duma caganeira. E, como todos sabem, caganeira não bomba longe de casa.