quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Fados

Escrevi isso aqui há um tempão e não sei porque esqueci de postar. São as minhas impressões do filme Fados, do Carlos Saura, que vi no Festival de Cinema do Rio.



Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

[Fernando Pessoa]


Não há dúvida de que a música é a paixão de Carlos Saura. Desde a década de 1980 esse instigante diretor espanhol dedica-se quase exclusivamente a filmes que tenham a música não apenas como pano de fundo, mas como protagonista. E não somente no cinema. No dia da estréia de Fados, no Cine Odeon, seu filho desculpou-se pela ausência do pai, sob a justificativa de que este estava dirigindo uma ópera (Carmen, de Bizet) no moderníssimo Palau de les Arts, em Valência. O IMDb nos informa que o próximo trabalho de Saura em tela grande será Don Giovanni, e li por esses dias que o diretor pretende estudar as tradições musicais brasileiras para uma futura produção.

Fados é uma homenagem à música portuguesa. Não pretende contar a história do fado, retratar seus grandes nomes e muito menos resgatar suas raízes, por mais que acabe, de forma indireta, fazendo tudo isso. O filme não possui narrador e a única informação que recebemos aparece logo no início, quando uma legenda informa que o fado surgiu no século XIX. Apenas isso. O documentário (se é que podemos chamar Fados de documentário) não conta com nenhuma entrevista ou com qualquer linha narrativa central: são apenas seqüências em estúdio de conjuntos e cantores interpretando canções, além de dançarinos encenando ao fundo.

O que interessa ao diretor é retratar como esse popular e tradicional gênero musical é relido e reelaborado nos dias de hoje, seja em Portugal, no Brasil, na Espanha ou na África (não é à toa que o filme chama-se Fados, no plural). Logo na primeira cena percebe-se claramente a intenção de criar um impacto inicial. Um conjunto africano, cheio de crianças com roupas coloridas, faz, alegremente, algo bem próximo a um samba. Mas o fado não é uma música triste? Sim, o filme vai mostrar que, em sua maioria, a melancolia e a tristeza marcam o gênero. O que não faltam são típicas senhoras portuguesas debulhando-se em lágrimas ao cantar músicas que fariam nossos moderninhos emos chorarem... de vergonha! Mas Saura preocupa-se em indicar como o fado não é, de modo algum, unívoco. São várias as possibilidade de interpretação, por mais que mantenha uma certa tradição. Algo que me impressionou, aliás, foi a ampla variedade de faixas etárias entre os intérpretes.

Nesse sentido é um filme muito feliz. As canções escolhidas são belíssimas, idem as interpretações dos músicos e dançarinos, e saímos do cinema com um bom panorama da diversidade fadista e emocionados com o poder e carga emocional que as músicas trazem.

Fados, no entanto, peca em alguns aspectos. O fato de mostrar uma série ininterrupta de apresentações do início ao fim, sem narrador, sem diálogos e sem história pode cansar o espectador a partir de um certo momento. Por mais que mantenha um bom equilíbrio, há algumas apresentações fracas (a pior é a do brasileiro Toni Garrido, na minha opinião). O cenário também é muito repetitivo. Como em Tango (1998) (com o qual Fados guarda uma série de semelhanças), o diretor abusa do uso de telas, sombras e projeções – isso não é exatamente ruim, mas acaba tornando tudo muito monotemático. Talvez a idéia seja justamente dedicar atenção apenas à variedade dos fados ali cantados, sem importar muito o cenário.

Creio que Saura também poderia ter dado mais atenção à cidade de Lisboa. Não é possível compreender o fado sem a histórica capital portuguesa como referência, sem os segredos que guardam as ruelas de Alfama e do Bairro Alto. Talvez no intuito de mostrar que o gênero não se restringe apenas ao seu lugar de origem, o diretor tenha preferido não se dedicar a Lisboa. Uma pena. Na única cena em que imagens da cidade aparecem a sensação é de que aquilo que está sendo ali cantado ganha muito mais em significado.

Todavia, isso que trato como defeitos, tenho certeza, não incomodaria Saura. O trecho do poema que serve de epígrafe a este texto me parece a explicação de todo filme. Essa conhecida poesia de Fernando Pessoa é cantada em um certo momento de Fados. Parece-me que o que Carlos Saura procurou fazer foi justamente isso: na incapacidade de expressar em palavras todo o seu amor pela música em geral e pelo fado em particular, o diretor procurou simplesmente mostrar o fado em essência, inteiramente. E nada além das violas e da voz emocionada dos fadistas era necessário. As próprias apresentações de dança parecem, sob esse aspecto, um certo exagero frente ao “essencialismo” do diretor.

Apesar de uma certa irregularidade do filme, me parece que o maestro espanhol é plenamente feliz em suas intenções. A última estrofe da poesia de Fernando Pessoa é a seguinte: “Mas se isto puder contar-lhe / O que não lhe ouso contar, / Já não terei que falar-lhe / Porque lhe estou a falar...”. Sem falar uma palavra sequer Carlos Saura é capaz de revelar, na tela, todo seu amor pelo fado, pela música e, porque não, pelo cinema.

2 comentários:

Srta. Jones disse...

E você continua ainda não gostando muito de fado? Eu acho um pecado da sua parte... rs.

Ticous disse...

É... não li o post. É que eu não gosto desses filmes intelectuais e tal. Não que eu ache legal e tire onda, eu simplesmente não entendo e acho chato.
Então, não mais comentarei aqui sobre seus posts de filme e similares. A menos que seja um filme que eu conheço, ou odeio em especial. Ou um comentário aleatório e idiota (o que não é incomum - aliás, acho que é só o que eu faço aqui).
E viva o Carlossauro! Gwarrrr