terça-feira, 2 de outubro de 2007

Billy Wilder e um diálogo

Ninguém escreveu melhores diálogos do que Billy Wilder. Nem mesmo Joseph Mankiewicz. O diretor e roteirista (melhor roteirista do que diretor, talvez) austro-americano tem o feeling exato para o humor rápido, direto. Cria e distribui muito bem gags geniais ao longo de todos os seus filmes. Os filmes de Wilder têm dinâmica, tudo ocorre no tempo certo, as (inúmeras) piadas de humor negro são sempre bem encaixadas, sem soar deselegante. Billy Wilder, aliás, possui a elegância da época áurea do cinema de estúdio americano. Aprendendo a dirigir com Ernst Lubitsch (e poderia ser com alguém mais competente? Ele é um dos roteiristas de Ninotchka, inclusive ), lembremos que o diretor é contemporâneo de Orson Welles, John Huston, John Ford, Joseph Mankiewicz, Fritz Lang, Kubrick, Hitchcock... A lista não termina. E todos estes no auge de sua forma, claro.

Uma breve passada de olhos na filmografia de Wilder já é suficiente para notar a quantidade impressionante de obras-primas: The lost weekend (o título da tradução ficou “Farrapo humano”), vencedor do Oscar de melhor filme e melhor diretor em 1945 é o filme mais estranho do diretor que conheço, onde o humor passa longe; Sunset Boulevard (o meu filme americano preferido); Ace in the hole; Sabrina; The seven year itch (o filme da famosa cena da saia esvoaçante de Marilyn Monroe). Em 1959 dirige Some like it hot, talvez o filme mais divertido que já tenha assistido, com Marilyn Monroe, Tony Curtis e o ator queridinho de Wilder, Jack Lemon

Em 1960 é a vez do magnífico The Apartment, novamente com Jack Lemon no elenco e com a adorável Shirley MacLaine, novíssima. O filme é trágico, e conta a história extremamente dramática de um sujeito (C.C. Baxter, talvez na melhor atuação de Lemon) que possui um emprego detestável e que aluga seu apartamento para que os patrões possam levar suas amantes, em troca de uma promoção no trabalho. Mas Billy Wilder é mestre em trazer humor mesmo para aquilo que parece mais sem graça. The Apartment é também uma comédia genial, com cenas impagáveis como a de Jack Lemon escorrendo macarrão com uma raquete de tênis.

No Oscar de 1960, The Apartment levou cinco estatuetas, entre elas as de melhor filme, diretor e roteiro original. Essa obra-prima foi, no entanto, o ponto de inflexão na carreira de Billy Wilder. Conta-se que na noite da entrega dos Oscar o diretor e roteirista Moss Hart recomendou que aquele seria o momento certo de parar de filmar. Wilder não seguiu o conselho de Hart e continuou a dirigir até 1981. Mesmo depois de The Apartment Wilder ainda fez filmes regulares, como o correto Irma la Douce, e reuniu pela primeira vez, em 1966, uma das duplas de ouro da comédia: Jack Lemon (claro!) e Walter Matthau.

De sua fase realmente decadente, o único que assisti foi The front page, que conta com a dupla Lemon-Matthau, além de uma jovenzinha Susan Sarandon. Nota-se claramente que o diretor está fora de forma. As piadas já não fluem tão bem, as cenas são todas mais longas do que deveriam, o filme poderia ter uns vinte minutos a menos. Se pensarmos que a obra é de 1974, o mesmo ano do segundo Poderoso Chefão, do Coppola, Chinatown, de Roman Polanski e de O Espelho, de Andrei Tarkovski, percebemos que é um filme anacrônico. Vemos um diretor decadente e agonizante, incapaz de se conformar que uma era do cinema – a que pertencia e da qual foi um dos maiores mestres – havia terminado. Não havia mais espaço para Billy Wilder.

Eu escrevi esse texto todo apenas para postar aqui um diálogo de The front page. Relendo agora, nem é um diálogo muito bom. É muito abaixo dos momentos inesquecíveis de Some like it hot e Sunset Boulevard. Ironicamente (aliás, acho que propositalmente), em “Crepúsculo dos Deuses” (título em português), a personagem Norma Desmond (interpretada por Glória Swanson), uma atriz famosa na era do cinema mudo e agora decadente, devido ao início do cinema falado, diz que naquele tempo “we didn't need dialogue. We had faces!”. Irônico porque vindo de um dos melhores criadores de diálogos da história da sétima arte. Como quem é rei..., aqui vai um humilde (se comparado com a monumental obra do diretor) mas espirituoso diálogo entre Earl Williams, um baderneiro acusado de assassinar um policial, e Dr. Max J. Eggelhofer, um engraçadíssimo psiquiatra austríaco.


Dr. Max J. Eggelhofer: Tell me, Mr. Williams, were you unhappy as a child?

Earl Williams: Not really. I had a perfectly normal childhood.

Dr. Max J. Eggelhofer: I see. You wanted to kill your father and sleep with you mother.

Earl Williams: [to Sheriff Hartman] If he's gonna talk dirty

Dr. Max J. Eggelhofer: When you were in grammar school, did you practice self-abuse?

Earl Williams: No, sir. I don't believe in it. I would never abuse myself or anybody else. I love people. I love all people.

'Honest Pete' Hartman Sheriff of Clark County: I suppose that cop committed suicide!

Dr. Max J. Eggelhofer: Let us get back to masturbation. Did your father ever catch you in the act?

Earl Williams: Oh, my father was - was never home. He was a conductor on the Chicago-Northwestern.

Dr. Max J. Eggelhofer: Very significant. Your father wore a uniform, just like that policeman. And when he pulled out that gun, an obvious phallic symbol, you thought he was your father, and he was going to use it to hurt your mother!

Earl Williams: [to Sheriff Hartman] He's crazy!

6 comentários:

m disse...

adoreiadoreiadorei, finge que o billy wilde morreu agora e me chama pra maratona?

Pedro disse...

Li tudo, não entendi quase nada até porque acho que nunca vi um filme de Blly Wilder, mas achei divertidíssimo o diálogo!!

andre disse...

m: maratona Billy Wilder? A idéia é ótima. Já saberia até quais filmes escolher. O difícil é achar isso em dvd: há muito pouca coisa. Não sei porque não lançam tudo dele logo.

pedro: o que exatamente você não entendeu? Eu recomendo que você veja "Crepúsculo dos Deuses", que com certeza existe em DVD.
"Some like it hot" (traduzido como "Quanto mais quente melhor")passa volta e meia na Net.

Chico disse...

adoro psiquiatras fictícios!!! eles são bem mais divertidos que os de verdade....
hahahahaha

m disse...

Bittencourt, é só marcar, vire-se arranjando os filmes! Pareceu insolência? Pois foi isso mesmo! Vire-se, palerma!

Dai disse...

Uma aula de cinema pela manhã. Fantástico!
E melhor, poder sair de casa rindo deste maravilhoso diálogo. Estudo Roteiro, sei das dificuldades. ;)

Beijo.