quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Sobre morrer e a morte

Esse post era para ser um comentário do texto A proximidade da morte , escrito pelo Polzonoff. Ficou grande demais, então veio para cá. O texto do Polzonoff é uma reflexão a partir desse vídeo aqui. É a última palestra de um professor que sabe que vai morrer dentro de poucas semanas, atacado por um câncer.

Quando assisti ao vídeo, pensei apenas no professor indo embora da universidade. Solitário, pegando seu carro e dirigindo rumo a algum subúrbio. A adrenalina da palestra baixa, ele sente o silêncio dentro do carro e fica sozinho. Quantas vezes Randy Pausch ficou sozinho desde que descobriu ter câncer? O professor parece ter uma família grande (três filhos), muitos amigos e alunos. Lembra o americano pragmático típico, não lembra?

A palestra foi um espetáculo. Pausch fez flexão, contou piada, riu. Não tenho dúvida de que aquilo era um personagem. Há demanda por isso. Eu só não acredito que aquela seja sua atitude frente à morte. Não é. Pausch deixa os três filhos citados na palestra, por exemplo. Crianças pequenas. O Karma já não deu certo: não cuidou de tudo, mesmo tendo Pausch vivido a vida da “maneira correta”. Duvido muito que Pausch não pense nas tardes de domingo no parque que irá perder. Os jogos de baseball e futebol americano que não poderá jogar com as crianças.

As pessoas precisam de uma atitude positiva frente à morte, justamente por ela não ser natural, por ela ser anormal. Fosse normal, Pausch não estaria lá dando palestras e dizendo que era algo tranqüilo: seria um truísmo.

É claro que é impossível saber a reação frente à morte. Como diz lá o Bandeira:

Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
– Alô, iniludível!

No fundo eu acho que ninguém nunca vai estar preparado para morrer e é por isso mesmo que este tipo de palestra ou livros de auto-ajuda são tão importantes para algumas (muitas) pessoas. Exatamente porque eles tentam confortar e dar respostas, e é isso que a maioria das pessoas quer quando está à beira do precipício. Só isso. Poucos ligam para serem heróis. Quantos podem dizer que morreram como Zorba, feliz, admirando a paisagem? E isso não tem a ver com a vida que levamos, mas com o fato de não sabermos o que vai acontecer – a morte não traz garantia alguma. Não há margem para a sorte ou para o acaso.

Eu não sei se há posição digna frente à morte. Penso justamente no “Sétimo Selo”: mesmo com a iminência da Morte, com sua presença quase palpável, ainda há tempo para danças, risos e diversão. Talvez a diferença de Randy Pausch para Antonius Block seja que o protagonista do filme de Bergman procura adiar a morte (assim como Pausch ele também sabia que ia morrer, inapelavelmente) para conseguir respostas para suas últimas perguntas sobre a existência e sobre Deus. O professor americano, ao contrário, parece achar que já possui todas as respostas. Eu não sei se essas atitudes fazem alguma diferença. Nessas horas não me parece haver heroísmo, até porque ele será em vão.

No mundo da Última Instância (um mundo árido e infeliz) essas coisas são realmente relevantes? Quando muito revelam como a pessoa que morre encarou a vida – isso sim é importante. Quem está resignado é porque, possivelmente, acha que já encontrou todas as respostas, acha que já superou o abismo que o separa do Mundo. Muito provavelmente viveu a vida inteira assim. Talvez a banalidade da morte no mundo contemporâneo, expressa na palestra de Randy Pausch, passe por aí: um mundo que se apresenta desmistificado pela Ciência e pela Razão (Pausch trabalhava com informática), onde as respostas estão dadas em algumas poucas fórmulas (as mesmas que enfeitam as paredes do quarto dos filhos do professor) e onde nem mais a morte é algo misterioso e perturbador.

Mas eu queria voltar ao carro de Pausch, após a palestra. Ele, sozinho. Acho riquíssima a idéia do “fondo insobornable”, do Ortega y Gasset. Ele no carro não tem para quem discursar, não tem um público que, ele sabe, está sedento por palavras de conforto. Ele dirige para casa e se dá conta de que dentro de alguns dias não mais verá os filhos, não beijará mais sua mulher e nunca mais voltará para a universidade. “Sim, fiz muita coisa”, ele pensa. Mas e a viagem planejada, e o aniversário de Dylan, seu filho mais velho, que estava sendo preparado há um mês? Ele sabe que vai perder isso tudo e que, ao seu lado, no banco do carona, aparentemente vazio, está sentada a Morte, impávida. Talvez naqueles instantes o mundo tenha desabado sobre os ombros do professor. Talvez naquele momento ele tenha pensado que na sua palestra falou várias mentiras, várias superficialidades com o objetivo apenas de impressionar e, por que não?, ajudar aquela platéia.

Eu até prefiro imaginar que Randy Pausch não pensou em nada disso, apesar de achar que sim, isso lhe ocorreu. Não bastasse morrer, o mais duro deve ser começar a se questionar sobre isso apenas momentos antes do desaparecimento, porque o tempo pela busca de respostas (que possivelmente nunca chegariam mesmo) e o tempo de se preparar já não mais existirá: o jogo de xadrez está perdido.

5 comentários:

Desiree disse...

acho que no meu dia indeciso, ler este post não foi um processo fácil, porque com certeza morte é o assunto que mais dificuldade tenho para lidar (eu e o mundo), mas incluí nas minhas opções para o meu final de noite

Marcio disse...

Vim parar aqui através dos seus comentários no texto do Polzonoff sobre o Pausch. Agora seus leitores somos cinco.

"um mundo... onde nem mais a morte é algo misterioso e perturbador."

pois é

andre disse...

desiree: pois é, pensar na morte é sempre incomodo, e o pior é que precisamos sempre lidar com ela. Talvez naturalizá-la seja uma defesa para não nos deprimirmos tanto. O problema é que invariavelmente ela acaba nos atormentando.

marcio: bem-vindo! espero que goste do ambiente :-)

Bruno disse...

Comigo são 6 leitores.heheh
Nem sempre comento, só qd acho q direi algo útil.
abç!

Ticous disse...

Não concordo que a morte seja uma coisa artificial. Todos morreremos um dia, assim como todo tipo de seres vivos (exceto as baratas. Essa são imortais).
Algo inevitável não pode ser artificial. A forma da morte tudo bem, pode ser bastante artificial, mas não o fato da morte em si.
É claro que nunca é uma coisa legal, o que dificulta o nosso contato com ela, mas acho que tratar como uma coisa mística e metafísica também é só uma fuga.