segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Segunda com poesia

Sensacional a leitura e melhor ainda os comentários do Pedro Sette Câmara sobre o magnífico poema One Art, da Elizabeth Bishop, em seu já tradicional Domingo com poesia.

Ouçam e leiam aqui: http://www.oindividuo.com/2007/09/02/uma-arte

Segue o poema

Uma arte

A arte de perder não é nenhum mistério;
tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

— Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

[tradução de Paulo Henriques Britto]

UPDATE

Outro dia estava conversando com uma menina da minha faculdade sobre a importância das traduções: uma tradução bem feita é mais necessária em textos acadêmicos, afinal cada conceito possui sua precisão analítica para ter valor, ou em um texto literário, onde o escritor passa dias para escolher a melhor palavra, aquela que melhor completa uma frase ou dá ritmo a uma poesia? Esse é o tipo de discussão que nunca terá fim. O que importa é que a tradução seja a melhor possível, no caso de não ler no original, claro. Abaixo segue uma outra tradução do poema One Art, da Elizabeth Bishop. Acho que fica bem clara a importância fundamental de uma boa tradução em poesia.

Uma arte

A arte de perder não tarda aprender;
tantas coisas parecem feitas com o molde
da perda que o perdê-las não traz desastre.

Perca algo a cada dia. Aceita o susto
de perder chaves, e a hora passada embalde.
A arte de perder não tarda aprender.

Pratica perder mais rápido mil coisas mais:
lugares, nomes, onde pensaste de férias
ir. Nenhuma perda trará desastre.

Perdi o relógio de minha mãe. A última,
ou a penúltima, de minhas casas queridas
foi-se. Não tarda aprender, a arte de perder.

Perdi duas cidades, eram deliciosas. E,
pior, alguns reinos que tive, dois rios, um
continente. Sinto sua falta, nenhum desastre.

- Mesmo perder-te a ti (a voz que ria, um ente
amado), mentir não posso. É evidente:
a arte de perder muito não tarda aprender,
embora a perda - escreva tudo! - lembre desastre.

[tradução de Horácio Costa]

4 comentários:

xico sá disse...

que poema lindo.e q sorte a minha,pois estou terminando um romance cujo traço principal é perder, sempre com o mantra "a vida é cada vez menos". bishop via lara chegou na hora certa. beijo grande

Rafael Abreu disse...

Disse que ia dar as caras de vez em quando...

Um comentário em relação a questão da tradução: acho que a tradução de poemas envolve um componente de recriação muito mais forte do que na tradução de textos acadêmicos, em que a preocupção principal se circunscreve ao rigor na escolha dos termos.

Traduzir poesia é, quase sempre, escrever poesia, enquanto traduzir um livro de sociologia, apesar de ter que contar com a supervisão de um sociólogo que domine o assunto, dificilmente será fazer sociologia.

A tradução de poemas muitas vezes tem que atentar para aspectos como métrica, sonoridade, ritmo que estão ausentes na tradução de textos acadêmicos.

Bom, é o que acho... Talvez seja por isso que quando me aventurei a traduzir poemas surrealistas pra uma pessoa tenha quebrado a cabeça e o resultado tenha sido abaixo do sofrível...

Grande abraço!

Andre disse...

Rafael, o melhor debate que eu conheço sobre tradução de poesias se deu nas páginas d'O Estado de São Paulo, entre o Augusto de Campos e o Bruno Tolentino. A polêmica está compilada no livro Os sapos de ontem, deste último. O debate começa com uma crítica do Tolentino à tradução que o Augusto de Campos faz da poesia “Praise for an urn”, de Hart Crane. Os argumentos vão muito no que você falou: traduzir poesia é fazer poesia, na verdade. A tradução proposta pelo Tolentino tem, inclusive, uma estrofe a mais do que a original!

abraço grande!

Denis disse...

Fiquei meio que chocado com o quanto esse maravilhoso poema da Elizabeth Bishop muda de sentido de uma tradução para outra.

Na tradução de Paulo Henrique Britto a impressão que tive é que o eu-lírico assume uma posição quase irresponsável diante da vida e da maior das dores que esta contém: a perda. Diante da inevitabilidade do perder o eu-lírico diz que isso "não é nada sério", o que para mim não é verdade pois a perda é sim inevitável mas é algo muito sério, pois mexe com o mundo interior de todos nós, frágeis seres humanos, que temos um "alvo muito fácil" batendo dentro de nosso peito.

Já na segunda tradução, a de Horácio Costa, o eu-lírico aceita a perda não como algo que não seja sério, mas como algo inerente a vida e portanto algo com que devemos aprender a lidar da melhor maneira possível. O primeiro eu-lírico parece nos dizer que cuidar das coisas que temos é bobagem, pois um dia iremos perdê-las. Já o segundo parece nos dizer que devemos lutar para que o que temos de mais bonito seja "eterno enquanto dure", mas também para não cairmos no desespero se o perdermos, pois esse é um dos absurdos da vida e isso sempre acontecerá...

Fantástico esse tópico, André. Parabéns. Deixo-te um forte abraço.