domingo, 2 de setembro de 2007

O mistério de Patinir

É surpreendente o papel que o acaso joga em nossas vidas. Conhecemos pessoas, livros e lugares que mudam os nossos destinos simplesmente por acaso, por estarmos em um determinado lugar, em uma determinada hora; por falarmos uma frase certeira e bem colocada; por um determinado gestual ou um olhar. Muitas vezes são estas pequenas coisas que mudam todo um ciclo de eventos: uma nova amizade, um namoro que “poderia ter sido e não foi”, um emprego conquistado ou perdido.

Conheci a obra de um dos meus pintores preferidos assim, de forma completamente fortuita. Morava na Espanha e estava, então, com uns 12 ou 13 anos. Resolvi comprar um livro, destes de bolso, de edição vagabunda, para praticar meu espanhol. Comprei pela aura de mistério que o título trazia: El enigma del Maestro Joaquim. Nunca havia ouvido falar do autor, Sigrid Heuck, que, pelo nome, sequer é espanhol. Não fazia idéia que o tal Joaquim do título era um apaixonante pintor flamenco, que hoje em dia não é nem citado na maioria dos livros de história da arte: Joaquin Patinir.

O livro, pelo que me lembro, conta a história de um rapaz que, fascinado por uma pintura de Patinir, Paisagem com São Cristóvão, resolve entrar no quadro e reconstituir os momentos que precederam a cena pintada. O que mais lhe interessa não é a técnica, ou mesmo a figura principal.


O menino percebe, lá atrás, o que parece um corpo sendo retirado da água. Alguém morreu afogado? Ou será que estamos diante de um crime? Disposto a investigar essa cena, o menino faz de tudo para fazer parte daquele ambiente. Certo de que se trata de um crime, pretende investigar como ocorreu, sua motivação, seus culpados. A memória me trai, assim também como o azar. Não terminei o livro na época e inexplicavelmente nunca mais o vi. Possivelmente esqueci na casa em que morava ou perdi no caminho, em alguma caixa de livros que foi mandada pelo correio. Não faço idéia do que ocorre ao longo da narrativa, se o rapaz realmente consegue entrar no quadro, se desvenda o assassinato, se conhece outras obras do artista flamenco.

Mas nada disso importa, na verdade. O livro já me deu muito mais do que simplesmente o prazer da leitura. Talvez se terminasse de ler o livro me desencantasse e perdesse o fascínio pelo mistério e pelo próprio pintor. Sempre vou ficar com a vaga lembrança de um menino que tenta entrar num quadro. E ela é ótima.

Patinir tem poucos quadros. Teve uma vida curta e não se sabe praticamente nada a seu respeito. É, no entanto, o inventor das paisagens. Foi o primeiro pintor a elevar a paisagem a protagonista de seus quadros, ou ao menos o primeiro a fazer isso com grande maestria. O rapaz do livro estava certo: não se deve fixar o olhar às figuras religiosas que normalmente aparecem em primeiro plano. Até duvido que Patinir as pintasse sempre. Possivelmente fazia as paisagens e dava a seus assistentes o encargo de desenhar os personagens principais. Nota-se perfeitamente que o prazer do autor está no fundo, nas cidades longínquas, nas rochas tão peculiares que marcam seu estilo (e sua terra natal).

Há um claro padrão nos quadros de Patinir: a profundidade é imensa, efeito conquistado graças ao horizonte, pintado sempre na parte superior da tela (o espaço deixado para o céu é mínimo) e aos rios e mares, que dão a exata noção da distancia para o fundo da obra. Reparando no céu, nota-se uma mudança de coloração: mais alto têm-se um azul mais forte, e quanto mais próximo ao mar mais branco e luminoso vai ficando. Adoro essa luz que salta do contato do céu com o mar. Normalmente, após procurar os inúmeros detalhes de seus quadros, pouso meus olhos nessa luminosidade que, não sei porque, me reconforta e dá esperança. Talvez por indicar o mundo que há além do mar, um mundo desconhecido, mas que está ali. Talvez por associar a alguma luz divina, típica dos quadros de El Greco, por exemplo. Uma luz que anuncia algo maior e melhor, além das mesquinharias do nosso cotidiano.

A luz de Patinir continua sendo, para mim, um mistério, e toda vez que olho para um de seus quadros tento resolvê-lo. Nunca consigo. Ainda bem, pois há certas coisas que devem ficar envoltas em enigma para que possam ser apreciadas, pois é apenas no segredo e no silêncio que podemos nos evadir. Um filósofo espanhol, falando sobre a importância da metáfora, dizia que apenas ela “crea entre las cosas reales arrecifes imaginarios, florecimiento de islas ingrávidas”. Na luz de Patinir encontro a delicadeza e a esperança de que é possível sim viver uma vida mais leve e maior, procurando, assim como dizia Goethe, "do escuro rumo ao claro aspirar”.

3 comentários:

M disse...

Esse é meu preferido.

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