sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Música do dia

Há quanto tempo não temos uma “música do dia”!

Pois bem, em homenagem ao diretor do único filme do Festival do Rio que devo ver: "Fados", de Carlos Saura.

Eu não assisti aos últimos trabalhos do Saura, mas é um diretor que, não tenho dúvida, merece vários votos de confiança. O último filme dele que vi, "Goya", é muito bom, e Saura consegue fazer com maestria algo que poderia cair no ridículo e no cafona com muita facilidade: transformar as imagens dos quadros do genial pintor em situações vividas, dando movimento às telas. É algo arriscado de ser feito no cinema, mas que rendeu belas imagens.

Meus "Sauras" preferidos ainda são os filmes de sua fase política, da década de 1970, principalmente “Ana y los lobos (1972)”, “Cria cuervos” (1975) e “Mamá cumple cien años” (1979). Eu não costumo gostar de filmes políticos. Na verdade, chamar estes filmes de “políticos” é até meio forçado. O que Saura faz são grandes alegorias e metáforas da situação que vivia a Espanha franquista. Mas os filmes podem ser vistos sob outros ângulos, e não perdem em qualidade quando ignorado o caráter conjuntural da obra.

O meu preferido, por exemplo, “Cria cuervos”, pode ser lido como um filme que apresenta uma visão dura da infância solitária de uma menina muito mais madura do que sua idade supõe, que perde a mãe e o pai muito cedo, vendo-se obrigada a morar com a tia, com quem não se identifica. Ana, a protagonista interpretada magistralmente (talvez a melhor atuação infantil que eu já tenha visto) pela adorável Ana Torrent, recorda, já adulta, sua infância da seguinte maneira:


No entiendo cómo hay personas que dicen que la infancia es la época más feliz de su vida. En todo caso para mí no lo fue, y quizás por eso no creo en el paraíso infantil, ni en la inocencia, ni en la bondad natural de los niños. Yo recuerdo mi infancia como un período largo, interminable, triste, donde el miedo lo llenaba todo : miedo a lo desconocido. Hay cosas que no puedo olvidar. Parece mentira que haya recuerdos que tengan tanta, tanta fuerza, tanta fuerza...


Desolador.

O filme também pode ser visto como a imagem de uma Espanha que se redemocratiza: a morte do pai de Ana, um militar servero que traia sua esposa, significaria o crepúsculo do franquismo, um regime autoritário, repressor e caduco; e a protagonista representaria a sociedade espanhola do porvir, que carrega ainda a tristeza e a culpa, fruto de anos de repressão, mas que deve, como na última palavra do filme, despertar.

“Cría cuervos”, assim como toda a filmografia de Saura dos anos 70, é tão rica em símbolos, possui tantas possibilidades de interpretação, que daria para ficar um tempão aqui discutindo isso, mas recomendo que todos procurem o filme e assistam.

Ah! A música do dia! Já ia esquecendo... Pois bem. Talvez, para quem não tenha visto “Cría cuervos”, essa música só aparente ser uma música pop espanhola dos anos 1970. E é mesmo. Mas quem já assistiu ao filme tenho certeza que sempre se emociona ao ouvir os primeiros acordes da canção.

Depois conto aqui o que achei de “Fados”.



- Se não me engano essa música toca ao longo de todo o filme, mas essa cena aqui é, sem dúvida, a mais marcante:
http://www.youtube.com/watch?v=25ckdkg1xCw

2 comentários:

Ticous disse...

Comentários aleatórios:
Carlos Saura... Se juntar o nome, parece que ele veio do Jurassic Park. "Ah meu Deus, é o Carlossauro!!! Corram! / Gwarrrrrr"

A música é divertidinha. Parece música de encerramento de desenho japonês. E fica mais divertida com as crianças felizes. (A música não tá abrindo aqui, ouvi no Uiutubíl mesmo)

E quando você(s) começa(m) a falar desses filmes cult/histórico/cabeça eu me sinto muito burro. Eu não consigo entender e/ou gostar desses troços... e acho que a maioria só diz que entendeu e gostou pra parecer descolado.

E eu ratifico a minha opnião: TUDO em espanhol fica mais divertido.

Andale, Andale!

m disse...

saudade do humor thiaguiano - não há no mundo igual!