segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Diálogos improváveis

Livraria da ECO, Praia Vermelha. Um rapaz estrangeiro procura um livro sobre cinema. Uma moça puxa assunto.

- De onde você é?

- Moçambique.

- Ah... Muito bonito o seu colar. De onde é?

- É de Moçambique, da minha cidade.

- Ah... Sabe como é, isso me trás algumas lembranças que não consigo falar. Tenho alguns problemas para conversar sobre certos assuntos, tenho problemas para me socializar.

- Verdade? Mas você já esteve no meu país?

- Não, muito longe! Mas isso me lembra uma viagem que fiz. Uma viagem que mudou muito a minha vida. Eu era muito pior, depois dessa viagem tudo se alterou.

- E para onde você foi?

- Paraty. Passei um tempo lá. Larguei tudo aqui, toda minha vida, e fui pra lá, foi uma experiência dessas que mudam a vida completamente. Mas eu não consigo falar sobre isso. Tenho muitas dificuldades para conversar com as pessoas, você nem imagina. E isso meu, é muito grave, muito sério, você nem faz idéia. Mas eu não consigo conversar, de verdade.

- É claro que você consegue conversar sobre isso. É porque você não tenta. Qual seu nome?

- Meu nome é L.

- Então, L., me conte alguma coisa, pode ser bom para você.

- Hmmm, não sei, realmente não sei. Eu já disse, tenho muitas dificuldades nisso... Mas, vá lá. Acho que chegou a hora de falar. Esse seu cordão e as suas origens me fazem lembrar muito dessa minha história... Sinto que devo contar para você, vai ser mais um processo de libertação dessas minhas dificuldades, vai ser uma nova abertura. E você é estrangeiro, da África, talvez me compreenda melhor, talvez consiga me ajudar e dar uma perspectiva diferente, uma perspectiva de vida mesmo, radicalmente diferente... OK, vou tentar falar sobre isso. Bom, tudo começou quando eu...

[Chega o vendedor e interrompe a moça.]

- Ei! Encontrei seu livro sobre cinema.

- Ah! Que ótimo! Tchau L. Bom conversar com você.

- ...

6 comentários:

Srta. Jones disse...

Algo me diz que L. é aluna de Comunicação, e que a viagem dela deve ter incluído doses maciças de cannabis.

Clarissa Dudenhoeffer disse...

cara, essa história tem uma graça triste! eu to quase chorando de rir! a medida que eu fui lendo consegui imaginar direitinho como se fosse um filme... mas achei meio triste pq as pessoas não dão mt importância pras outras né? falam as coisas meio da boca pra fora... bem td bem que essa L. é meio maluca! Vai ver o africano tava só seguindo a recomendação: com maluco a gnt não discute - e resolveu go with the flow... rs :)

bom, eu não tenho bons comentários, nem pra esse mt menos pro post mais novo! mas resolvi passar aqui como prometido aquele dia aqui em casa! Até agora estou achando ótimo! Continue sim com o blog (viu? agora que já tem bastante gente -eu, marina e rafa hahaha - pelando seu saco cê não precisa ficar fazendo doce dizendo se não sabe se vai continuar a escrever ou não!)

beijinhos, Cla
ps: uma boa tradução é fundamental em qualquer coisa!!!

Andre disse...

Clarissa, bem-vinda a essas plagas! E achei seu comentário ótimo. Me fez pensar sobre algumas coisas que eu nem tinha me dado conta ao escrever essa historia. Continue comentando!

beijo!

Ticous disse...

Essa história me pareceu verídica... você presenciou isso?
E aposto que a viagem da nossa heroína L. envolveu um negão com uma jeba imensa, por isso nosso caro africano a lembrou tanto da viagem.
Mas o texto é bom, me divertiu.

m disse...

Sim, este é um blog onde o uso dos termos "plagas" e "jeba" é aceito. Incoerente? Talvez, prefiro chamá-lo liberal - no pun intended.

vanessa disse...

Gostei do seu blog.
Fui olhar aquela sua comunidade e li seu texto sobre Patinir. Também sinto algo especial quando vejo quadros assim... Quanto a esse post acima, fiquei curiosa com a história não contada, mas realmente fica melhor assim