segunda-feira, 17 de setembro de 2007

O problema do narrador em “La lotería en Babilonia”

Minha contribuição (provocação, na verdade) para o Clube de leitura, promovido pelo Idelber. Quem quiser ler o conto, pode pegar o livro aqui. O Alex Castro também escreveu seu texto.

“La lotería en Babilonia”, conto que pertence ao livro Ficciones, de Jorge Luis Borges, narra a história de uma sociedade, Babilônia, como o título indica, onde há uma espécie de “instituição total”, que orienta a vida social e as condutas de todos os seus habitantes: a loteria.

Devido ao fracasso inicial da loteria, que apenas oferecia vantagens aos apostadores, os mercadores resolveram elaborar uma pequena mudança: além de ganhar, pode-se perder: “mediante esa reforma, los compradores de rectángulos numerados corrían el doble albur de ganar una suma y de pagar una multa a veces cuantiosa”. Ganhar ou perder passou a ser visto como símbolo de distinção social. Mais do que isso. O sucesso dessa nova fórmula foi tão grande que apenas o fato de não jogar já era suficiente para o não-apostador ser publicamente depreciado.

A impossibilidade dos perdedores de pagarem as multas fez com que a Companhia (assim era chamada a empresa que controlava as apostas) tomasse uma atitude drástica: quem não pagasse iria para a prisão. Mas isso também não foi suficiente. A solução foi a aparição de elementos não pecuniários, como torturas físicas, na premiação.

A loteria, no entanto, não era, ainda, universalizada. Revoltados com o fato de apenas uma elite endinheirada poder fazer as apostas, os barrios bajos entram em convulsão social: “algunos obstinados no comprendieron (o simularon no comprender) que se trataba de um orden nuevo, de una etapa histórica necesaria...”. Com a universalização da loteria, esta instituição passa a reger a sociedade babilônica. Na verdade, o azar passa a controlar a ordem social: a loteria passa a ser secreta, gratuita e universal, ou seja, as distinções sociais são, agora, aleatórias, as pessoas passam, em qualquer detalhe de suas vidas, a contar ou incluir o azar:

"el comprador de una docena de ánforas de vino damasceno no se maravillará si una de ellas encierra un talismán o una víbora; el escribano que redacta un contrato no deja casi nunca de introducir algún dato erróneo; yo mismo, en esta apresurada declaración, he falseado algún esplendor, alguna atrocidad."

Babilônia é uma sociedade regida pelo princípio da incerteza. Instaurado e internalizado o azar como modo de operação das condutas e das instituições sociais, não resta espaço algum para a confiança – confia-se apenas no acaso.O que chama atenção no conto, no entanto, é que todo e qualquer tipo de discussão sobre ele não é possível, o que torna ainda mais interessante a idéia desse clube de leitura. O narrador da história (e convém separar autor de narrador) nos dá pistas para que não acreditemos naquilo relatado em um só momento: conhece apenas a loteria como alguém não versado em astrologia conhece a lua; a narrativa parte de uma história que seu pai conta ignorando “si con verdad”; o povo da Babilônia aparece como “muy devoto de la lógica, y aun de la simetria”, mas tem como princípio de orientação a completa falta de ordenação; ainda sobre as características do povo babilônio, o narrador nos diz ser ele “poco especulativo”, e o que mais faz o narrador, ao nos contar essa a história sobre a loteria, do que especular?; é claro que a passagem decisiva foi a já aqui citada: “yo mismo, en esta apresurada declaración, he falseado algún esplendor, alguna atrocidad”; dentre os juramentos dos escribas desta sociedade aparecem “omitir”, “interpolar”, e “variar”; além do mais, não podemos esquecer que o narrador não está em Babilônia. Seria ele um fugitivo, um dissidente?

Nesse conto me parece haver algo próximo à discussão, introduzida por Helen Caldwell, sobre a traição ou não traição de Capitu, em Dom Casmurro. Esse debate simplesmente não pode ser colocado, porque o narrador é Bentinho, ou seja, parcial e interessado. Capitu não tem voz. Acho que Borges faz algo próximo. Parafraseando a última parte do conto, é indiferente afirmar se há simbolismo por trás da história (o próprio Borges no prólogo diz que esse conto "no es del todo inocente de simbolismo"), se ela é uma alegoria das distopias totalitárias ou qualquer coisa do tipo. Essa até pode ter sido a intenção do Autor, mas o relato não nos permite afirmar, por si mesmo, em momento algum, coisa alguma.

4 comentários:

Cla disse...

eu num li tudo não!
fiquei com preguiça bitteca! foi mal.
na verdade eu só queria dizer que vc é MALUCO! pq eu falei mil vezes da programação de quinta e vc nem pra me falar que não lembrava!

repetindo:
faculdade
almoço
parquinho dos bichinhos (oq vc ia qnd era pequeno e eu tbm)
sua casa ver filme do almodovar
meia porta

e eu já to sabendo q vc quer dar bolo nos seus convidados (eu e rafael, que te levamos em casa na sexta, por sinal) pra fazer projeto da JIC! Pode mexendo sua bundinha nerd e fazendo tudo antes de quinta! Posso no máximo abrir mão do meia porta, pra vc descansar pra apresentar sexta suas coisas pro botelho, ok? :)

beijinho

Biajoni disse...

o correto não seria:
"no es del todo inocente de simbolismo"
???

andre disse...

Biajoni: sim, sim, é isso mesmo. É até por isso que eu digo, na frase seguinte, que essa podia ter sido a intenção do autor, mas que, me parece, pode não surtir efeito quando contrastada ao texto. Já está corrigido, obrigado!

marcus disse...

Fiz uma resenha no meu blog também: http://grandeabobora.com/?p=1192