sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Anos incríveis

Podem falar o que quiserem da televisão. Podem rolar por aí, em espasmos de fúria, afirmando que é o ópio moderno, que destrói a inteligência, que dissemina a solidão e a incomunicabilidade entre pessoas. Podem dizer que é uma forma de controle da mente, uma arma política, um signo da mais vil dominação.Tudo balela. Quem se recusa a ver tv não sabe o que está perdendo.

Eu sou um admirador incontestável da televisão americana. Assisto, como um monte de gente, Seinfeld diariamente, há mais de cinco anos. Fazendo as contas, isso significa que eu já assisti, aproximadamente, todos os episódios um montão de vezes. E isso é um bocado de vezes, como vocês podem perceber. Acho que é o humor mais inteligente desde os bons tempos do Woody Allen. Aliás, cinema hoje em dia não está com nada. Quem quer ver coisa de qualidade tem que assistir televisão mesmo. Lá estão os grandes atores, as grandes produções, os roteiros mais inteligentes.

Quem viveu nos anos 90 e não assistia tv perdeu um momento único da infância ou da adolescência: Anos incríveis, seriado que acompanhava as aventuras e desventuras do mítico Kevin Arnold no conturbado EUA dos anos 1960 e 1970. O cuidado e delicadeza da produção são de fazer arrepiar. Eu lembro da tristeza profunda que me dava ver a senhora Norma Arnold, a mãe do Kevin, naquela vida cujo único sentido era cuidar dos filhos e do marido mau-humorado. Era impossível não se envolver de corpo-e-alma (estou enganado ou essa expressão está no ranking das mais clichês do mundo?) nas crises do Kevin; suas desilusões amorosas com a Winnie Cooper; seu dia-a-dia na escola: aulas de educação física, amigos panacas, sua relação com os professores, as notas; sua dificuldade de relacionamento com o irmão, o bobão Wayne, e com o pai, o típico americano-de-classe-média-patriota-veterano-de-guerra-que-adora-materiais-de-construção-assistir-televisão-e-beber-cerveja.

Kevin tinha uma sensibilidade tão diferente daqueles valores, se sentia por vezes tão sozinho em meio àquelas pessoas... Mas sempre tinha um episódio em que ele se dava bem com o pai, em que um entendia, finalmente, o outro, e isso me dava uma felicidade e um alívio tão grandes! Sem contar, claro, o Paul Pfeiffer, seu grande amigo. Poucas vezes uma amizade da ficção foi tão verdadeira quanto aquela.

E o mais interessante em Anos incríveis foi o fato de seguir cronologicamente a vida daquelas pessoas: os atores envelhecem, os personagens tornam-se mais maduros, suas relações se complexificam. Há mortes e nascimentos, namoros começam e terminam, novas pessoas surgem... Anos incríveis é uma vida.

Além disso, há a abertura. Ah... a clássica abertura! Não quero escrever nada sobre ela. Nem conseguiria: poucas músicas e imagens me emocionam mais.



Veja aqui como estão, hoje em dia, os atores que fizeram o seriado:

Lembro de uma série que o Fred Savage fez, já mais velho. Foi uma das maiores tristezas televisivas da minha vida. Aquele não era, de modo algum, Kevin Arnold. Não chegava nem perto. Preferia nunca mais ter visto estes atores. Algumas coisas são preferíveis guardar apenas na lembrança.

7 comentários:

m disse...

Faço minhas as suas palavras! Kevin Arnold era muito bom!

Srta. Jones disse...

"Anos Incríveis" só traz boas lembranças mesmo. Acho que foi o seriado com o qual eu mais me identifiquei, junto com GG. A narração era a melhor parte - quem nunca se pegou em devaneios mais absurdos, ou dramatizando coisas simples, como o Kevin sempre fazia? A vida dele é mais parecida com a realidade do que se pode imaginar.

Ticous disse...

Nossa, você pesquisou pra falar desse seriado ou realmente lembrava de todos esses detalhes, nomes e situações? Isso que é memória!
O Kevin as vezes me lembrava o Charlie Brown. E em outros momentos era completamente diferente...
De vez em quando eu assisto, por acaso, "The Wonder Years" (o nome não poderia ser melhor) nas madrugadas da TV a cabo.

Cla disse...

Não sabia que em 38 segundos de imagem e música dava pra se arrepiar e desarrepiar tantas vezes.

Antológico...
=*

Chico disse...

anos incríveis também fez parte da minha vida. adorava demais o seriado, tudo nele! você falou bem, só gostaria de acrescentar alguns detalhes que me marcaram nisso tudo: você não citou a irmã hippie do kevin, que era das minhas personagens preferidas, e protagonista do episódio em que o kevin mata aula pra ficar hippando com os amigos dela, um dos melhores pra mim. o último episódio, na minha opinião, foi quase tão triste quanto ver as fotos dos atores hoje em dia. o jack ter morrido de enfarto pouco depois e o kevin não ter casado com a winnie me chatearam profundamente na época! hahahaha! mas pior que isso, admito, foi ver a cara de bobão do wayne hoje em dia e as péssimas atuações do fred savage nos seriados recentes. sem falar no maravilhoso boato desmentido há tempos, sobre a reação paul-marylin manson! outro epsódio, aliás, que me marcou foi (o primeiro ou um dos primeiros) aquele em que o irmão da winnie morre na guerra. a tristeza que caiu sobre a família nesse episódio, magistralmente, é mantida até o fim da série, dando um toque de sensibilidade em alguns momentos e reações deles, principalmentem da própria winnie. agora, mais que tudo, o que pra mim chamava mais a atenção no seriado era a abertura. a climatização era perfeita, as imagens lindas mas a música...honestamente, a única música dos beatles que já vi ser regravada e superar o original. trabalho de mestre do joe cocker e o do malandro que criou a abertura. aliás, a série toda foi um trabalho de mestre!
mas, apesar de tudo....ainda acho que deveria ver menos TV, hahahahah!
belo post, andre! abraço!

Andre disse...

Chico: o último episódio é lamentável. Acho que não ver o Kevin terminando com a Winnie me fez ser mais pessimista com relação a relacionamentos darem certo. Talvez a origem esteja aí. Sobre a irmã hippie, a Karen, foi realmente um lapso. Além de ser uma personagem muito interessante, pois traz vários traços da juventude niilista e beatnik, muito importante para entender a cultura americana desse período, era ela linda, não? Hehe. Abraço!

Bruno disse...

A TV tem coisas muito boas mesmo. Essa série é uma delas.
A abertura é foda!