quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Sobre aniversários (e sobre hoje)

Desde que descobri Fernando Pessoa, por volta dos 13 ou 14 anos, me impressionei muito com a poesia “Aniversário”, do heterônimo Álvaro de Campos (ver post abaixo). Desde então, procuro relê-la, quase como um ritual, toda vez que eu ou um amigo próximo faz aniversário. Cada nova leitura é uma nova descoberta, como não poderia deixar de ser. Encontro sempre um verso diferente, que nunca imaginei que pudesse estar ali, uma palavra que apareceu como num passe de mágica, uma reflexão antes completamente ignorada.

Cada ano que passo vejo os aniversários de forma distinta, sempre com mais tristeza, com mais melancolia e lamento. Nunca consigo pensar em como é bom ter passado mais um ano, afinal foi um ano que vivi, mas sim que a cada momento as coisas passam, as coisas se perdem e isso não tem mais volta. Há coisas que vão embora para sempre e não há “nunca diga nunca” que resolva. E eu não falo aqui da morte, essa “indesejada das gentes” (Bandeira). Essa, ainda com o poeta, é iniludível. Tampouco penso na idade ou na beleza que vai embora com o tempo. Manuel Bandeira mais uma vez: “E a beleza é triste / Não é triste em si / Mas pelo que há nela / De fragilidade e incerteza”. Ainda não cheguei ao ponto em que isso me incomoda, nem nos outros e muito menos em mim.

O que me aflige, o que me tira o sono e quando, enfim, consigo dormir, a vontade de acordar, são as perdas do que “poderia ter sido e não foi”. Acho louvável e tenho profunda inveja de quem diz que não se arrependeu de nada na vida. Parece-me, no entanto, que quem diz isso mente. É claro que simplesmente se arrepender não vale de absolutamente nada, mas, pelo menos para mim, é inimaginável não pensar que as coisas poderiam ter sido de outra forma.

O que me angustia são as pequenas perdas do cotidiano. Pequenas em termos, porque estas é que são enormes e que fazem toda a diferença. A perda da ternura e da sensibilidade, da palavra certa na hora certa, a perda de um amigo querido, a perda do controle, a perda do momento exato do perdão. E é tudo tão insignificante! “Tudo influi, tudo transforma”. Um pequeno momento, uma palavra errada, uma exaltação momentânea, um desabafo indevido. Tudo pode colocar a perder coisas maiores, melhores, muito superiores às pequenas picuinhas do cotidiano, à vulgaridade do dia-a-dia. No entanto, “a alma não tem justiça” (Fernando Pessoa).

Claro que alguém pode vir com a tese do copo meio cheio, mas, hoje em dia (no dia de hoje?), nada me convence de que a vida não é constituída de perdas e que, encontrar alguma coisa nova, significa perdê-la mais adiante. Tempo para reler Uma arte, da Elizabeth Bishop. Talvez uma resolução para esse novo ano seja aprender a aceitar, austero, a perda. Mas haverá sempre alguém para dizer que Elizabeth Bishop, na verdade, está afirmando exatamente o contrário: a arte de perder é, sim, complicadíssima. Afinal, lidar bem com isso é uma arte, o que não é pouca coisa.

Esse texto é assumidamente pessimista. Estou, cada dia que passa, mais duro e, porque não, mais amargo. O que me consola, porém, é que as coisas ruins também se perdem. Sim, as coisas passam. Tudo passa. A tristeza também tem fim, para contrariar os poetas-compositores. Às vezes o melhor é se resignar. Pelo menos quando faltam forças, quando não se tem mais energia para correr atrás, para dialogar, para argumentar. Nesses momentos só resta imaginar Sísifo feliz, como sugere Camus.

7 comentários:

Srta. Jones disse...

O erro é acreditar que tudo se perde definitivamente. Se uma segunda chance não é dada, você cria uma. Só não espere até que a morte chegue, porque aí sim tudo estará perdido de vez.

E isso não saiu de um livro de auto-ajuda.. rs.

Alexander Englander disse...

Ih, maior bad trip hein!!
Bate no peito (com força) e fala:
"cai num mundo de miriades mágicas mas vasto de fatos funestos", depois respira fundo e pensa nas mágicas...
falouuu

Pedro disse...

è cara... o pior é que concordo com você... me sinto assim, querendo "reviver" todas as escolhas que já fiz, querendo saber como seria se tivesse escolhido diferente, onde estaria agora, o que estaria fazendo... esse tipo de coisas, as vezes penso que faria tudo de novo do jeito que já fiz mas na maioria acho que mudaria... bem como isso não é possível o negócio é tocar pra frente né.

Bruno disse...

Perder, às vezes, pode ser bom; depende do que se perde.

Cla disse...

quero relatos sobre o fatídico dia do seu aniversário! não haverá!? : )

Ticous disse...

Eu acho que você só quer(ia) um "Feliz aniversário" (que eu já te dei), mas parece que você queria mesmo era uma abraço.
Dia de aniversário é sempre um dia triste pra mim. Sei lá porque diabos, pra maioria é um dia feliz. Sabe o que deixa um aniversário bem pior? Um carro de som na porta do seu prédio as 20h...

andre disse...

srta. jones: infelizmente eu acredito que a maioria das coisas se perde definitivamente... Mas sempre é possível achar coisas novas e melhores para substituir as antigas, certo?

alexander: Eu queria acreditar em um mundo mais mágico. Daí minha insistência com Calvin e Haroldo (alguém falou em Weber?)

pedro: Pois é, não há outra solução. Ficar de luto pelo que se perdeu pode ser bom (diria que é até necessário), mas não dá pra carregar isso por muito tempo.

bruno: Concordo inteiramente com você :-)

ticous: Pelo visto não sou só eu que me sinto mal no dia do meu aniversário. Vai ver é por isso que todo mundo faz festa: para ficar menos triste por alguns instantes. E pior do que receber um carro de som às 20h na porta do prédio é não ser convidado pra ver essa cena.