domingo, 23 de setembro de 2007

Algumas notas

Meus quatro leitores podem abrir um largo sorriso: até, pelo menos, final de semana que vem não conseguirei atualizar o blog com freqüência. A questão é muito simples: querendo ou não, o blog me toma um tempo considerável. Eu até escrevo rápido, mas passo muito tempo pensando em coisas para escrever aqui. A maioria não sai da minha cabeça, algumas viram esquemas num caderninho e podem, quem sabe num futuro breve, transformar-se em post. Mas, por esses dias conturbados, não posso nem querer pensar em escrever para cá. Mas continuem vindo, porque as músicas do dia continuarão e eu já tenho uma ou outra coisa escrita para postar ao longo da semana.

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Recebi um e-mail da minha amiga e leitora desse blog, Srta. Jones, em que ela dizia que meu tom aqui é muito mais pessimista do que deixo transparecer nas nossas conversas. Ela tem toda razão. Dois motivos: primeiro, estou em um momento pessimista e angustiado da minha vida. Essas coisas acontecem. Há épocas de completa nebulosidade, onde o sentido do mundo e das coisas parece opaco, turvo, obscuro e os obstáculos intransponíveis. Nessas horas tudo parece dar errado, e realmente dá. Há épocas de clareza, onde tudo se ilumina e a vida parece mais fácil, mais leve. Tudo dá certo, as coisas funcionam como engrenagens bem articuladas e o princípio da simplicidade impera sobre nossas condutas e ações. A vida, no entanto, não sei se felizmente ou infelizmente, corre a maior parte do tempo entre esses dois limites. Sem vitórias e sem derrotas, sem quedas e sem recuperações. As coisas apenas acontecem, o tempo passa. Aí vêm as marés de sorte (e mérito, claro. Mérito, sobretudo, mas não podemos esquecer que só em parte dependemos de nós mesmo – as circunstâncias jogam um papel crucial) e as épocas de frustração... E é para isso que vale a pena viver.


Melancolia, de Albert Dürer

O segundo motivo é que o blog é justamente para isso, como eu disse lá no primeiro post: para identificar os meus fantasmas, meus demônios, para torná-los mais claros para mim. É uma coisa quase psicanalítica mesmo. Não vou ficar falando sobre esses assuntos o tempo inteiro quando converso com meus amigos. Não faria sentido.

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Uma outra amiga, a Cla, pediu um relato do “fatídico dia” do meu aniversário. Pois bem, não fiz muita coisa não. Foi um dia tranqüilo, como era de se esperar. Acordei tarde e fui para a faculdade assistir uma aula sobre Freud. Ganhei um livro que estava querendo há muito tempo, recebi um adorável bolinho de aniversário (com direito a vela e tudo) da moça que me sugeriu escrever esse post, recebi vários parabéns, inclusive de gente que eu nem conheço, o que me deixa muito constrangido sempre. Recebi um número considerável de ligações e até mensagens de texto no celular. Conversei com praticamente todas as pessoas que são importantes na minha vida e percebi o quanto é bom poder conviver e contar com elas sempre. Percebi, não. É claro que eu já sabia disso, mas em alguns momentos (aniversário é um deles) tudo fica muito mais claro e cristalino. No momento reflexivo do dia, pensei nas várias pessoas importantes para mim cuja amizade se perdeu, pelos mais diversos motivos, ao longo do tempo. Cheguei à conclusão que a maioria delas é irrelevante. De fato não mereciam minha amizade e é bom que tenham se afastado, voluntária ou involuntariamente. Há, claro, pessoas que eu gostaria que estivessem ainda comigo, mas paciência. Nenhuma me faz falta verdadeiramente. Mais tarde saí para jantar, o que tem me deprimido muito ultimamente. Isso pode ser tema de um post, inclusive. Mas não é impressionante como as famílias não se falam? É triste, muito triste, observar esse distanciamento entre as pessoas. Os namorados não conversam! Apenas comem, falam no celular e, se o lugar tiver televisão, maravilha!, ficam todos com aquele olhar vegetativo assistindo a novela.

Enfim, foi um bom dia. Não fiquei triste. Claro que não. Não tinha nada para comemorar, mas normalmente não tenho mesmo. Aliás, tenho os meus amigos, poucos, mas bons, e isso já é o suficiente. O que importa é somente a qualidade, não é?

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Falando em aniversário e amizades, fiz uma retrospectiva do dia 20 de setembro para perceber se havia alguma coincidência constante dessa data na minha vida. E não é que há! Quase sempre, muito perto do meu aniversário, alguns dias antes, alguns dias depois ou no próprio dia, eu entro num período de inflexão, de mudança de direção de certas amizades muito próximas. Talvez sempre seja época de renovação ou, para soar ridículo, pode ter algo a ver com a primavera que se aproxima. Na verdade, a primavera começa hoje!

Printemps, de Claude Monet

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É a primeira ou a última impressão a que fica?

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Momento bíblico do dia:


Mas, o que sai da boca, procede do coração, e isso contamina o homem. Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias. (Mateus 15, 18 e 19)

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Momento “não ensinem isso para as crianças” do dia:

São estas coisas que contaminam o homem; mas comer sem lavar as mãos, isso não contamina o homem. (Mateus 15, 20)

10 comentários:

João Paulo disse...

Salve André,

inauguro os comentários deste post para anunciar que estive aqui e que a partir de agora os leitores do blog passam a ser cinco!

Li todos os posts: você escreve superbem e é um barato. E bastante corajoso; acho que eu nunca conseguria manter um blog. Me sentiria meio que com as vísceras à mostra (talvez seja essa a intenção, né?).

Enfim, amanhã nos vemos. Te devo um abraço de aniversário. E não tem jeito: felicidade(s) rapaz!

Abraço,
João Paulo.

Cla disse...

EEEEEBAAA! :) Adorei que você atendeu ao meu pedido sobre os relatos e adorei a parte em que fui citada, é claro.

Também fico impressionada com o distanciamento entre as pessoas - em geral. A maneira que os familiares, amigos e namorados já quase não se dão valor. Acho que principalmente pra mim, é estranho! Minha família é mt unida, minha mãe sempre diz que é mt melhor ser meu amigo do que minha mãe e acho que o seu rafael não tem mt do que reclamar...

Dizem que o computador, internet e os demais adventos tecnológicos tornou as relações mais frias e as pessoas mais distantes... Se alguém quer a minha opinião, eu não concordo! É lógico que um papo no msn não substitui um bom papo na mesa de bar, é claro que um e-mail não substitui o bom e velho cartão de natal e aniversário ou a cartinha fofa pro namorado, e o sms não substitui a boa troca de bilhetinhos no meio da aula. E é justamente por isso que não concordo com o que o povo fala.. Acho que essas inovações todas, com uma bela dose de BOA VONTADE, é só mais um instrumento pra se aproximar das pessoas! Se não fosse o telefone, o msn, o e-mail, eu não falaria com a minha mãe - que mora em são paulo - mais de duas vezes por mês! Acho mais é que as pessoas são cada vez mais distantes porque as coisas - relacionamentos, valores, pessoas e as coisas mais simples como um sorriso, uma cerveja com os amigos ou uma caminhada na praia - estão se tornando cada vez mais banais!

Me empolguei, foi mal.
Vou mimar a minha irmã e comer : )

Um beijo pro blogger e pros fellow comentadores.

ps: Esse João Paulo aí é o meu quase-irmão Hildebrandt? rs

m disse...

Clarissa assassinou o português ignorando mais de 45 plurais. Pelo menos ela sabe fazer bolo, né.

A crítica da srta. jones (how original) só ressalta o óbvio: por escrito os traços escolhidos pra compor seu personagem ficam ainda mais evidentes, daí o pessimismo exagerado, pra mim faz muito sentido.

Amargura, será?
Could certainly use um pão de mel right about now.

andre disse...

joão paulo: agradeço novamente pelos parabéns! Fico muito feliz de ter você como o quinto leitor desse blogue :-)

cla: É o ilustre Hildebrandt mesmo! Não vou responder o que acho aqui sobre o assunto (adianto que concordo em boa parte com você) porque pretendo escrever em breve um post sobre isso.

m:amanhã comemos um pão de mel no IFCS, ok? :-P

Ticous disse...

Só li o final do post, mas achei genial! A segunda parte é obviamente de sua autoria, não?
Desconfio que esse momento bíblico pode ter sido estimulado pelo "papo de bar" do sábado...

andre disse...

ticous: Não, não é de minha autoria! Tá na bíblia mesmo, Mateus 15, 20. É só conferir!

m disse...

Segundo relatos do Alex, perdi um Meia-porta histórico...damn it!

Cla disse...

haha ah
assassinei só duas vezes! sou uma das pessoas que menos comete erros de português que conheço... mas tbm não sou de ferro, viu marina motta?

agora...andré bittencourt! que boato é esse de meia porta? foi e mais uma vez não me convidou? comportamento lamentável! :p

Srta. Jones disse...

"A crítica da srta. jones (how original)."

Não é original mesmo, pena. Esse "Jones" é de um cara chamado Mick Jones, guitarrista de uma das minhas bandas favoritas.

E na verdade não foi bem uma crítica, foi uma constatação. Aliás, Andre, eu percebi outro traço seu exacerbado aqui no blog, que é a menção a temas religiosos (eu sempre achei que, para um ateu, você mencionava muito o nome de Deus - santa ironia.. rs). Mas acredito que tenha uma lógica por trás disso, filosófica, provavelmente. Mas essa conversa fica para outro dia, porque a hora tarda e eu preciso estudar.

Ticous disse...

Xiii... acho que te entreguei, hein.
E é bem difícil de acreditar numa tosqueira dessas na bíblia! Só não confiro porque sou meio burro com essa coisa de livro, capítulo, versículo, bla, bla, bla... então vou ter que acreditar em você.
Mas que é bizarro, ah, isso é!