Continuando o último post... Idéias para o Woody Allen filmar no Brasil
Duas americanas vêm para o Rio passar o verão. Uma delas, a mais certinha e careta, estuda Niemeyer no mestrado e gostaria de ter contato com a cultura brasileira de um modo mais profundo (“não podemos conhecer os lugares apenas pelos livros, é preciso sentir na pele as emoções do país”, diz ela, num rompante, em uma cena com sambistas seminuas ao fundo), a outra, mais maluquinha e com um busto significativamente avantajado, vem pela curtição e porque está muito indecisa na vida (“este país é uma loucura!”, diz ela numa cena de biquíni na praia fumando um baseado com uma galerinha surfista).
Hospedadas no Leblon, na casa de uma família conhecida, passam seus dias andando por Copacabana tomando água de coco, comprando havaianas em Ipanema, passeando de bondinho pra chegar a Santa Tereza, onde frequentam barzinhos super descolados com um pessoal artista plástico. Vão também para Niterói, em uma bela cena nas barcas, em que observam a silhueta do Rio e milagrosamente chegam diretamente no MAC (“esse é um dos mais importantes prédios do arquiteto Oscar Niemeyer”, diz a certinha para a moça de busto avolumado, que pega um sol de biquíni no chão de concreto enquanto olha para a Baía).
No entanto, é em uma louca noite na Lapa que o destino das duas parece selado. Um pouco bêbadas e muito sorridentes, as amigas começam a se perder e são abordadas por dois meninos de rua. Não entendem direito a situação e começam a puxar papo com os rapazes, mas logo percebem que estão em uma furada. Quando estão quase sendo assaltadas, eis que aparece um jovem moreno de roupa branca e chapéu de malandro, interpretado pelo Rodrigo Santoro, espanta os meninos e convida as moças para um drinque. Elas aceitam, se entreolham maliciosamente e seguem para um boteco. Ele canta sambinhas clássicos, recita uns versos e tira um violão de sei-lá-onde para tocar uma música do Chico Buarque. (A moça certinha fala, muito feliz pelo seu conhecimento espantoso de brasilidades: “Isso é Chico!”) De lá partem para o Democráticos e se admiram com a ginga do malandro. Ao tentar dançar, no entanto, são uma desgraça, e ouvem piadas sobre o fato de serem gringas e não terem nenhum molejo. A moça de busto enorme, ainda em trajes de banho pois havido ido à praia antes, no entanto, chama a atenção de todos com o seu balançar literalmente desgovernado.
Saem de lá já amanhecendo e são convidadas pelo malandro para passar um final de semana em Paraty. Elas aceitam, se entreolham maliciosamente e seguem para Paraty. Lá, passeiam pela cidade, andam de barquinho, conhecem bares superdescolados e pessoas muito bacanas e moderninhas. Mas tudo com aquele ar de cidade pequena, sabe como é. São apresentadas ao pai do Rodrigo Santoro, um artesão local, e acham o homem super roots. O pai vira pro filho num canto e comenta sobre o tamanho realmente avultado do busto da moça mais maluquinha, que se encontrava de biquíni depois de ter caído n’água. Os dois riem com uma cara de “ih, tá no papo!”. Rodrigo Santoro tenta convencer as duas moças a dormirem com ele. Elas se entreolham maliciosamente, mas não aceitam, e ainda insinuam que isso é uma cafajestagem típica de latinos. A moça certinha – e casada –, contudo, larga seu recato e sua moral protestante e após umas caipirinhas dorme com o malando, sem dizer nada para a miguxa (alega para si, como forma de justificação, que estava fazendo pesquisa de campo). A moça de busto realmente farto, no entanto, se apaixona perdidamente pelo rapaz e eles passam a criar vínculos mais sérios.
Os dois começam a viver juntos, mas não sem antes apresentar a garota de busto espetacularmente copioso à sua ex-mulher, uma problemática dançarina de samba. Os três vivem às turras, entre cenas de briga com diálogos em português pobremente improvisados por Rodrigo Santoro e sua antiga esposa, e cenas de amor caliente, nas quais tanto a sambista muito louca quanto a moça de busto consideravelmente grande estão de biquíni, na praia ao cair do sol.
Paralelamente, vem para o Brasil o marido da moça (nem tão) certinha, um americano típico que tem certo nojinho do Rio. Ele não suporta o calor, reclama que ninguém fala inglês, é assaltado ainda no aeroporto e não aguenta nem olhar para uma feijoada. Termina almoçando todos os dias no McDonald’s e querendo saber o resultado dos jogos de baseball, enquanto pragueja alguma coisa insinuando que soccer é coisa de menininhas. A moça (nem tão) certinha começa a ficar irritada, afinal ela estuda brasilidades, e percebe que gostava mesmo era de um malandrão.
A moça de busto assaz profuso também se desilude com o Rodrigo Santoro e a sambista pirada e resolve viajar para Floripa, onde passa os dias de biquíni pensando em todas as suas duvidas existenciais. A moça (nem tão) certinha tenta se reaproximar do malandro, mas a sambista fica fula e ameaça dar uns pipocos nela. No fim, a moça do busto escandalosamente abundante volta de viagem, a (nem tão) certinha confessa tudo e elas voltam para os EUA, percebendo que essa história de livin' la vida loca só é legal nuns meses de férias de verão e nos clipes do astro brasileiro Ricky Martin.
terça-feira, 11 de agosto de 2009
terça-feira, 4 de agosto de 2009
Woody, tamo ae!
É, parece que o velho e pelo visto senil Woody Allen vai mesmo filmar no Brasil. Vamos pensar, então, como seriam seus dois últimos filmes (que aqui estrearam) se feitos em Pindorama.
Dois irmãos de uma família pobre querem muito comprar uma moto para se aventurar nas ruas do Rio. Moram em uma favela e levam a vida (quase) honestamente. Um deles, mecânico, trabalha numa oficina que faz clonagem de placas e manipula peças pirateadas. O outro trabalha no boteco do pai, mas sonha em ganhar a vida nos EUA, fazendo bicos. A família, muito humilde, porém, tem um tio bastante bem sucedido, que ganhou milhões sendo jogador de futebol.
Em um passeio em companhia da balconista do boteco e com um carro surrupiado da oficina do irmão, João conhece uma deslumbrante dançarina de funk, a Mulher Rabanete, que o convida para um baile em Rio das Pedras. Começam a se relacionar e fazem maravilhosos passeios de moto pela baixada. Encantados, se envolvem fortemente e sonham com o plano de ir morar juntos nos EUA. Mas para isso precisam do dinheiro das passagens e de vistos ilegais.
O outro irmão, José, começa a se viciar no jogo do bicho, mas ganha uma bela grana e tenta se mudar com sua mulher para um barracão duplex na favela vizinha. Porém, a compulsão nos jogos de azar faz com que ele perca todo o dinheiro ganho e mais um pouco, o que o coloca sob a mira da milícia local. Desgovernado, não para de beber cachaça durante o filme inteiro e começa a bater na mulher.
Desesperados, os dois irmãos tentam inutilmente se ajudar. Recebem, no entanto, uma notícia maravilhosa: o querido tio rico e jogador de futebol vai voltar ao Rio para fazer um tratamento no joelho. O tio leva a família inteira para um almoço no Porcão, todos muito felizes, apesar da clara tensão dos sobrinhos. Ao fim, leva os sobrinhos para conversar na praia e pergunta qual o problema. Eles expõem a situação, o tio entende, mas diz que eles devem ajudá-lo também, pois sua reputação está em risco. Conta, então, que se envolveu com um travesti na Barra da Tijuca e que os sobrinhos precisam dar um sumiço nele. Os sobrinhos ficam apavorados, primeiro se negam, mas afinal consentem.
O tio os leva em uma zona para conhecer o travesti, eles marcam bem a cara e outros atributos da “moça” e traçam um plano. Não sem antes se assustarem e perguntarem ao tio como diabos ele confundiu aquilo com uma mulher. Se olham desconfiados, mas logo o tio dá um bronca e diz que o crime deve ser realizado. José, no entanto, fica nervoso, diz que vai desistir e começa a usar drogas mais pesadas e beber cada vez mais. Lembre-se: não há nenhuma cena que os irmãos não estejam bebendo muita cachaça. João, ganancioso, nega-se a aceitar as fraquezas do irmão e o incita a cometer o homicídio. Para tentar deixar as coisas naturais, a melhor estratégia que pensam é injetar uma seringa infectada com AIDS no pobre coitado. Falham na primeira vez, mas na segunda tentativa conseguem injetar o vírus, o que obriga o travesti a se calar para não se expor e perder os clientes.
José, o irmão que passa o filme inteiro com um copo de pinga na mão, caso vocês tenham se esquecido, enlouquece e começa a delirar. João, pelo contrário, fica com a consciência tranquila e segue apaixonado pela Mulher Rabanete, conhecendo inclusive seus pais. A loucura e sentimento de culpa de José passam a ameaçar João e o tio, no entanto. A solução encontrada pelos dois é a do assassinato. João titubeia por um minuto, mas decide cometer o fratricídio. Leva-o para andar com a moto de estimação na baixada, mas acaba se desgovernando em um quebra-molas mal sinalizado e os dois morrem no local.
(o próximo filme vem no próximo post)
Dois irmãos de uma família pobre querem muito comprar uma moto para se aventurar nas ruas do Rio. Moram em uma favela e levam a vida (quase) honestamente. Um deles, mecânico, trabalha numa oficina que faz clonagem de placas e manipula peças pirateadas. O outro trabalha no boteco do pai, mas sonha em ganhar a vida nos EUA, fazendo bicos. A família, muito humilde, porém, tem um tio bastante bem sucedido, que ganhou milhões sendo jogador de futebol.
Em um passeio em companhia da balconista do boteco e com um carro surrupiado da oficina do irmão, João conhece uma deslumbrante dançarina de funk, a Mulher Rabanete, que o convida para um baile em Rio das Pedras. Começam a se relacionar e fazem maravilhosos passeios de moto pela baixada. Encantados, se envolvem fortemente e sonham com o plano de ir morar juntos nos EUA. Mas para isso precisam do dinheiro das passagens e de vistos ilegais.
O outro irmão, José, começa a se viciar no jogo do bicho, mas ganha uma bela grana e tenta se mudar com sua mulher para um barracão duplex na favela vizinha. Porém, a compulsão nos jogos de azar faz com que ele perca todo o dinheiro ganho e mais um pouco, o que o coloca sob a mira da milícia local. Desgovernado, não para de beber cachaça durante o filme inteiro e começa a bater na mulher.
Desesperados, os dois irmãos tentam inutilmente se ajudar. Recebem, no entanto, uma notícia maravilhosa: o querido tio rico e jogador de futebol vai voltar ao Rio para fazer um tratamento no joelho. O tio leva a família inteira para um almoço no Porcão, todos muito felizes, apesar da clara tensão dos sobrinhos. Ao fim, leva os sobrinhos para conversar na praia e pergunta qual o problema. Eles expõem a situação, o tio entende, mas diz que eles devem ajudá-lo também, pois sua reputação está em risco. Conta, então, que se envolveu com um travesti na Barra da Tijuca e que os sobrinhos precisam dar um sumiço nele. Os sobrinhos ficam apavorados, primeiro se negam, mas afinal consentem.
O tio os leva em uma zona para conhecer o travesti, eles marcam bem a cara e outros atributos da “moça” e traçam um plano. Não sem antes se assustarem e perguntarem ao tio como diabos ele confundiu aquilo com uma mulher. Se olham desconfiados, mas logo o tio dá um bronca e diz que o crime deve ser realizado. José, no entanto, fica nervoso, diz que vai desistir e começa a usar drogas mais pesadas e beber cada vez mais. Lembre-se: não há nenhuma cena que os irmãos não estejam bebendo muita cachaça. João, ganancioso, nega-se a aceitar as fraquezas do irmão e o incita a cometer o homicídio. Para tentar deixar as coisas naturais, a melhor estratégia que pensam é injetar uma seringa infectada com AIDS no pobre coitado. Falham na primeira vez, mas na segunda tentativa conseguem injetar o vírus, o que obriga o travesti a se calar para não se expor e perder os clientes.
José, o irmão que passa o filme inteiro com um copo de pinga na mão, caso vocês tenham se esquecido, enlouquece e começa a delirar. João, pelo contrário, fica com a consciência tranquila e segue apaixonado pela Mulher Rabanete, conhecendo inclusive seus pais. A loucura e sentimento de culpa de José passam a ameaçar João e o tio, no entanto. A solução encontrada pelos dois é a do assassinato. João titubeia por um minuto, mas decide cometer o fratricídio. Leva-o para andar com a moto de estimação na baixada, mas acaba se desgovernando em um quebra-molas mal sinalizado e os dois morrem no local.
(o próximo filme vem no próximo post)
sábado, 25 de julho de 2009
Em busca do Santo Graal (II)
Bruxelas, 07 de janeiro de 2009 (continuação daqui)
Escolho um simpático bar nas imediações da Praça e começo os trabalhos. Sem querer parecer arrogante, nem cito a Westvleteren de primeira, atacando uma trapista garantida, a famosa Westmalle triple. Consumada, hesito para a próxima. Mas lá vai: “vocês teriam a Westvleteren?”. Risos de escárnio tomam o modesto salão. Teria eu errado o francês de uma pergunta tão elementar?, penso, aturdido. Claro que não. É o Santo Graal cobrando seu preço: a incompreensão. Finalizada a alegria ingênua que proporcionei àqueles bruxelenses, o simpático garçom vem me dizer que não há Westvleteren e que provavelmente será impossível consegui-la, pois sua comercialização é proibida. “Em nenhum lugar de Bruxelas?”. Apenas obtenho um balançar de ombros como resposta. Continuo no mesmo bar consumindo algumas das cervejas da minha lista e observando os clientes solitários, cada um acompanhado de seu livro, de suas músicas e de suas memórias que se afogam em litros de embriaguez.
Mas é hora de partir, pois a noite só havia começado. Antes, no entanto, peço uma saideira como recomendação. É a minha primeira cerveja de fora do roteiro estabelecido: Faro é o nome dela. Não é necessário um paladar aguçado para sentir todo o seu sabor: sabor de refrigerante sem gás. Só depois percebo que essa “cerveja” patrocinava o bar e que eu acabara de ser enganado por um belgazinho sem vergonha. Saio correndo a caminho da Disneylândia das cervejas, onde poderia me regenerar.

Depois de dar um pulo em um bar bastante charmoso apenas para tirar o gosto ruim da boca (e, claro, perguntar da Westvleteren), chego numa pequena ruela de nome sugestivo: Impasse de la Fidélité. Lá se encontra o famoso Delirium Café, a maior cervejaria do mundo, com uma carta, diz a lenda, de mais de duas mil cervejas. No primeiro andar peço diretamente o mais clássico dos chopps: o espetacular Delirium Tremens. E, antes de pedir o segundo, só tenho tempo de observar rapidamente o público do local e a arquitetura dessa cave do século XVIII. Hora de descer ao subsolo para ter acesso às garrafas. Tomo a Bíblia nas mãos – o cardápio é de fato monstruoso – e faço uma oração. Peço a São Arnold de Metz, o patrono das cervejas, que na letra W eu encontre o Santo Graal. Mas não. Ainda tenho uma saída: “será que eles não escondem a Westvleteren do cardápio mas se eu chegar no balcão não tenho possibilidades de conseguir uma?”. Mais uma vez a maldição me arruína. Ridicularizado em público na maior cervejaria do mundo com meu pedido funesto, retiro-me para outro lado do longo balcão.
Desolado, só resta pedir a única coisa que poderia me oferecer algum alento: Trappistes Rochefort 10, a mítica, a única capaz de fazer frente ao Santo Graal. Recupero agora as minhas anotações particulares que fazia sobre as cervejas na hora em que as bebia: “isso é cerveja?”, tenho anotado, incrédulo. Não, não se trata de cerveja, trata-se de alimento espiritual. Fecho as três variedades de Rochefort (6, 8 e 10). Experimento ainda a grande surpresa da noite, a adorável Kwak, que nunca havia ouvido falar e que é servida em um copo bastante inusitado. Completo a jornada com uma Gouden Carolus Easter, uma Abbaye des Rocs Brune e uma Struise Pannepot. Nesse momento recebo um convite irrecusável de uma das mesas e deixo o balcão. Deixo também a narrativa de lado.
Dia seguinte, Brugge e o recomeço da saga.
(continua...)
Escolho um simpático bar nas imediações da Praça e começo os trabalhos. Sem querer parecer arrogante, nem cito a Westvleteren de primeira, atacando uma trapista garantida, a famosa Westmalle triple. Consumada, hesito para a próxima. Mas lá vai: “vocês teriam a Westvleteren?”. Risos de escárnio tomam o modesto salão. Teria eu errado o francês de uma pergunta tão elementar?, penso, aturdido. Claro que não. É o Santo Graal cobrando seu preço: a incompreensão. Finalizada a alegria ingênua que proporcionei àqueles bruxelenses, o simpático garçom vem me dizer que não há Westvleteren e que provavelmente será impossível consegui-la, pois sua comercialização é proibida. “Em nenhum lugar de Bruxelas?”. Apenas obtenho um balançar de ombros como resposta. Continuo no mesmo bar consumindo algumas das cervejas da minha lista e observando os clientes solitários, cada um acompanhado de seu livro, de suas músicas e de suas memórias que se afogam em litros de embriaguez.
Mas é hora de partir, pois a noite só havia começado. Antes, no entanto, peço uma saideira como recomendação. É a minha primeira cerveja de fora do roteiro estabelecido: Faro é o nome dela. Não é necessário um paladar aguçado para sentir todo o seu sabor: sabor de refrigerante sem gás. Só depois percebo que essa “cerveja” patrocinava o bar e que eu acabara de ser enganado por um belgazinho sem vergonha. Saio correndo a caminho da Disneylândia das cervejas, onde poderia me regenerar.

Depois de dar um pulo em um bar bastante charmoso apenas para tirar o gosto ruim da boca (e, claro, perguntar da Westvleteren), chego numa pequena ruela de nome sugestivo: Impasse de la Fidélité. Lá se encontra o famoso Delirium Café, a maior cervejaria do mundo, com uma carta, diz a lenda, de mais de duas mil cervejas. No primeiro andar peço diretamente o mais clássico dos chopps: o espetacular Delirium Tremens. E, antes de pedir o segundo, só tenho tempo de observar rapidamente o público do local e a arquitetura dessa cave do século XVIII. Hora de descer ao subsolo para ter acesso às garrafas. Tomo a Bíblia nas mãos – o cardápio é de fato monstruoso – e faço uma oração. Peço a São Arnold de Metz, o patrono das cervejas, que na letra W eu encontre o Santo Graal. Mas não. Ainda tenho uma saída: “será que eles não escondem a Westvleteren do cardápio mas se eu chegar no balcão não tenho possibilidades de conseguir uma?”. Mais uma vez a maldição me arruína. Ridicularizado em público na maior cervejaria do mundo com meu pedido funesto, retiro-me para outro lado do longo balcão.
Desolado, só resta pedir a única coisa que poderia me oferecer algum alento: Trappistes Rochefort 10, a mítica, a única capaz de fazer frente ao Santo Graal. Recupero agora as minhas anotações particulares que fazia sobre as cervejas na hora em que as bebia: “isso é cerveja?”, tenho anotado, incrédulo. Não, não se trata de cerveja, trata-se de alimento espiritual. Fecho as três variedades de Rochefort (6, 8 e 10). Experimento ainda a grande surpresa da noite, a adorável Kwak, que nunca havia ouvido falar e que é servida em um copo bastante inusitado. Completo a jornada com uma Gouden Carolus Easter, uma Abbaye des Rocs Brune e uma Struise Pannepot. Nesse momento recebo um convite irrecusável de uma das mesas e deixo o balcão. Deixo também a narrativa de lado.
Dia seguinte, Brugge e o recomeço da saga.
(continua...)
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Em busca do Santo Graal (I)
Batata frita, chocolate, cerveja. Um país capaz de fazer essas três fantásticas especialidades da melhor maneira possível já pode ser alçado a pilar fundamental da civilização. Assim é a Bélgica, pequena nação incrustada entre Holanda, França e Alemanha, mas que vem carregando o mundo ocidental nas costas há séculos. Carrega de forma trôpega, é claro, afinal a cerveja faz efeito, mas poucos são os que podem se comparar ao sublime que alcançou a arte do bem viver nessa região. Os fragmentos que seguem (esse preâmbulo e mais dois posts) foram escritos em janeiro deste ano (e minimamente retocados agora), enquanto viajava sozinho pela Bélgica.
Todos dizem respeito a uma só coisa: cerveja. Além de poder ver a maior quantidade possível de pintores flamengos e de catedrais medievais, meu objetivo era basicamente um: encontrar o Santo Graal das cervejas, que atende pelo nome de Westvleteren. Para quem conhece, o nome faz tremer (e enrolar a língua também: tente pronunciar). Uma grande dificuldade, porém, se impunha. Das sete trapistas, é a única que não é comercializada fora do mosteiro em que é fabricada. O mosteiro, no entanto, estava fechado naqueles invernais primeiros dias de janeiro. De posse dessa informação, corri a internet atrás do submundo das cervejas belgas e compilei uma série de bares que poderiam (ou não) disponibilizar de forma, digamos, ilegal, o elixir. Eis um pouco dessa saga.
***

Bruxelas, 07 de janeiro de 2009
Chego ao albergue e encaro um armário de vidro com algumas garrafas. Corro os olhos e, sim, ali estão as seis trapistas belgas, expostas como troféus. Uma evidentemente chama a atenção por não ter rótulo. Quase antes de dar bom dia e me apresentar para o recepcionista aponto para a garrafa que me interessa, sem me atrever a pronunciar qualquer palavra. Não, não se tratava de temor por dizer o nome do Santo Graal, mas sim porque, diabos!, como é difícil pronunciar o nome dessa cerveja! Mas bastou o gesto para que o recepcionista entendesse: West-vleteren, pronuncia, com o típico francês grosseirão dos belgas. Era a primeira vez que ouvia aquele som majestoso. Provavelmente o rapaz está acostumado com as dezenas de desbravadores que tomam o país em uma fanática busca pela mãe de todas as bebidas.
Seria tão fácil assim arrumar a Westvleteren? Todas as histórias que li na internet seriam apenas lendas, mitos escritos por Homeros alcoólatras contemporâneos? Não, não podia ser. Pergunto para o atendente sobre as possibilidades consegui-la. A resposta é aterradora: ele saca um cartãozinho e faz uma ligação. Olha para mim e responde: infelizmente o mosteiro está fechado. Ora, mas isso eu já sabia. O importante era descobrir aonde poderia consumi-la em Bruxelas. Sua cabeça balança em negação: “num rola, rapá, dançou”, diria ele se soubesse gírias brasileiras. Arrasado, subo para o quarto, deixo minhas coisas e saio em busca do impossível.
Estou completamente sozinho. No quarto havia apenas um japonês, que passa os dias jogando videogame no celular. Tenho dois livros em mãos (Doze contos peregrinos, do G.G. Marquez e um pequeno livro, também de contos, de um amigo) e um caderninho de notas onde escrevo essas linhas. Escurece e começo a explorar a vida noturna da cidade. Rondo a suntuosa Grand Place, e é bom que a observe bem, afinal diminuo minha expectativa de vida em alguns anos com uma quantidade monstruosa de batata frita e ketchup que havia acabado de comprar e não sei se poderei vê-la novamente.
(continua...)
Todos dizem respeito a uma só coisa: cerveja. Além de poder ver a maior quantidade possível de pintores flamengos e de catedrais medievais, meu objetivo era basicamente um: encontrar o Santo Graal das cervejas, que atende pelo nome de Westvleteren. Para quem conhece, o nome faz tremer (e enrolar a língua também: tente pronunciar). Uma grande dificuldade, porém, se impunha. Das sete trapistas, é a única que não é comercializada fora do mosteiro em que é fabricada. O mosteiro, no entanto, estava fechado naqueles invernais primeiros dias de janeiro. De posse dessa informação, corri a internet atrás do submundo das cervejas belgas e compilei uma série de bares que poderiam (ou não) disponibilizar de forma, digamos, ilegal, o elixir. Eis um pouco dessa saga.
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Bruxelas, 07 de janeiro de 2009
Chego ao albergue e encaro um armário de vidro com algumas garrafas. Corro os olhos e, sim, ali estão as seis trapistas belgas, expostas como troféus. Uma evidentemente chama a atenção por não ter rótulo. Quase antes de dar bom dia e me apresentar para o recepcionista aponto para a garrafa que me interessa, sem me atrever a pronunciar qualquer palavra. Não, não se tratava de temor por dizer o nome do Santo Graal, mas sim porque, diabos!, como é difícil pronunciar o nome dessa cerveja! Mas bastou o gesto para que o recepcionista entendesse: West-vleteren, pronuncia, com o típico francês grosseirão dos belgas. Era a primeira vez que ouvia aquele som majestoso. Provavelmente o rapaz está acostumado com as dezenas de desbravadores que tomam o país em uma fanática busca pela mãe de todas as bebidas.
Seria tão fácil assim arrumar a Westvleteren? Todas as histórias que li na internet seriam apenas lendas, mitos escritos por Homeros alcoólatras contemporâneos? Não, não podia ser. Pergunto para o atendente sobre as possibilidades consegui-la. A resposta é aterradora: ele saca um cartãozinho e faz uma ligação. Olha para mim e responde: infelizmente o mosteiro está fechado. Ora, mas isso eu já sabia. O importante era descobrir aonde poderia consumi-la em Bruxelas. Sua cabeça balança em negação: “num rola, rapá, dançou”, diria ele se soubesse gírias brasileiras. Arrasado, subo para o quarto, deixo minhas coisas e saio em busca do impossível.
Estou completamente sozinho. No quarto havia apenas um japonês, que passa os dias jogando videogame no celular. Tenho dois livros em mãos (Doze contos peregrinos, do G.G. Marquez e um pequeno livro, também de contos, de um amigo) e um caderninho de notas onde escrevo essas linhas. Escurece e começo a explorar a vida noturna da cidade. Rondo a suntuosa Grand Place, e é bom que a observe bem, afinal diminuo minha expectativa de vida em alguns anos com uma quantidade monstruosa de batata frita e ketchup que havia acabado de comprar e não sei se poderei vê-la novamente.
(continua...)
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Da noite em que Nicolau Rostov arruína-se
Muitas vezes, em acessos de ansiedade muito fortes, não há como fugir da necessidade de escrever. Bem, há o Valium, mas só tomo homeopatia e até onde sei não fizeram esse remédio em forma de bolinhas açucaradas. Portanto, só resta escrever. Escrevi alguns textos nesses últimos dias e vou publicar um aqui.
***
Sei que é um clichê, mas Guerra e Paz é marcado do início ao fim por momentos antológicos. É daquelas obras que podem te prender pelo resto da vida, que valem a leitura de 30 outros livros menores. Tolstoi, “o homem que sabe tudo e conhece tudo” (Carpeaux), parece ter tido acesso a todos os sentimentos humanos possíveis. Cada frase te puxa e sacode inapelavelmente – bons livros costumam ser aqueles que não permitem avançar em uma linha reta e que a todo instante sugerem a questão: “tem certeza que deseja atravessar esse ponto?”. Tolstoi é assim, e linha após linha obriga o leitor a encarar o precipício e, caso se sinta capaz, lançar-se no caminho sem volta do desconhecido. Nesse sentido, ele é o justo oposto de seu compatriota Dostoievski, que impiedosamente acaricia suas costas e o impele para o abismo.
Aqui não gostaria de falar sobre o livro, coisa que seria leviandade fazer, mas apenas recuperar um momento, uma pequena passagem da primeira parte do Tomo II. Trata-se da narração da noite em que Nicolau Rostov, em vias de voltar para a guerra, aceita participar de um jogo de cartas proposto por colegas após uma agradável ida ao teatro com seus pais e irmãos. Os capítulos anteriores descrevem a felicidade e o ambiente de harmonia resultantes da rara presença de Nicolau na casa de sua família. O jovem está exultante com sua situação, mesmo sabendo da grave condição financeira que aflige os Rostov. Mas eis que, convidado para uma noite qualquer de apostas, perde somas consideráveis, acumulando uma dívida quem não tem nenhuma condição de pagar. Nicolau não tinha por hábito jogar (“só os idiotas arriscam no jogo”, dizia ele), mas uma combinação de medo e despeito faz com que caia nas provocações do grupo. Instado a parar, não consegue – não pode. Curiosa ironia, salvou-se na guerra por sorte, essa miserável deusa que agora o abandonava sem escrúpulos. “Seu rosto despertava medo e piedade”, descreve Tolstoi, sugerindo, acredito, que Nicolau encontrava-se naquela situação em que a alma parece se desprender do corpo, onde nada faz mais sentido e a única reação perceptível é o suor gélido escorrendo pela face. Está arruinado e não há mais nada a fazer, salvo torcer para que aqueles breves momentos tenham sido apenas um pesadelo assombrosamente verossímil.
Mas a realidade é implacável, e mais difícil do que aquelas horas de agonia seria a volta para o lar. Ao chegar, arrasado e incrédulo, seus parentes encontravam-se ainda acordados e Nicolau é “envolvido pela atmosfera amorosa e poética que reinava na casa”. Impossível não se arrepiar. Lembremos que se passaram apenas três, talvez quatro horas, desde a saída do teatro. Horas que nada significaram para os Rostov, em que tudo continuava no mais perfeito equilíbrio. Mas Nicolau, o filho e irmão querido, aquele que de certa forma, ao voltar da guerra de licença, instaurara a alegria novamente na casa, estava arruinado, completamente abatido e desnorteado. Apenas quatro horas. Uma contingência. Breves instantes de desequilíbrio. A aceitação irrefletida para fazer algo que sempre se negara. A descida vertiginosa ao inferno pode durar apenas alguns minutos. Solitários e inconcebíveis minutos que comportam dentro de si a eternidade inteira.
“Nada mudou para eles”, pensa Nicolau, olhando para suas belas irmãs tocando cravo. Aí está toda a grandeza de Tolstoi. Em poucos parágrafos, apenas descrevendo as situações, sem aquelas profundas perscrutações mentais tão habilmente realizadas por Dostoievski, o escritor nos passa à flor da pele a gigantesca queda de um mundo inteiro. No contraste de expectativas, que nos é apresentado quase que apenas por gestos, curtas frases ou comportamentos, Tolstoi transmite a exata medida do que sentem aqueles personagens e do quão distantes se encontram. Não se limita a elencar os sentimentos, mas os insinua através do próprio encadeamento das frases. Cabe ao leitor, como num passe de mágica, pois não exige esforço algum, desvelar o segredo que se esconde por trás das palavras. Se literatura é colocar a vida inteira dentro de uma capa e de uma contracapa, como sugere um escritor contemporâneo, Tolstoi faz, nessas breves páginas, bem diante dos nossos olhos, o milagre que é traduzir em palavras o indizível.
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Sei que é um clichê, mas Guerra e Paz é marcado do início ao fim por momentos antológicos. É daquelas obras que podem te prender pelo resto da vida, que valem a leitura de 30 outros livros menores. Tolstoi, “o homem que sabe tudo e conhece tudo” (Carpeaux), parece ter tido acesso a todos os sentimentos humanos possíveis. Cada frase te puxa e sacode inapelavelmente – bons livros costumam ser aqueles que não permitem avançar em uma linha reta e que a todo instante sugerem a questão: “tem certeza que deseja atravessar esse ponto?”. Tolstoi é assim, e linha após linha obriga o leitor a encarar o precipício e, caso se sinta capaz, lançar-se no caminho sem volta do desconhecido. Nesse sentido, ele é o justo oposto de seu compatriota Dostoievski, que impiedosamente acaricia suas costas e o impele para o abismo.
Aqui não gostaria de falar sobre o livro, coisa que seria leviandade fazer, mas apenas recuperar um momento, uma pequena passagem da primeira parte do Tomo II. Trata-se da narração da noite em que Nicolau Rostov, em vias de voltar para a guerra, aceita participar de um jogo de cartas proposto por colegas após uma agradável ida ao teatro com seus pais e irmãos. Os capítulos anteriores descrevem a felicidade e o ambiente de harmonia resultantes da rara presença de Nicolau na casa de sua família. O jovem está exultante com sua situação, mesmo sabendo da grave condição financeira que aflige os Rostov. Mas eis que, convidado para uma noite qualquer de apostas, perde somas consideráveis, acumulando uma dívida quem não tem nenhuma condição de pagar. Nicolau não tinha por hábito jogar (“só os idiotas arriscam no jogo”, dizia ele), mas uma combinação de medo e despeito faz com que caia nas provocações do grupo. Instado a parar, não consegue – não pode. Curiosa ironia, salvou-se na guerra por sorte, essa miserável deusa que agora o abandonava sem escrúpulos. “Seu rosto despertava medo e piedade”, descreve Tolstoi, sugerindo, acredito, que Nicolau encontrava-se naquela situação em que a alma parece se desprender do corpo, onde nada faz mais sentido e a única reação perceptível é o suor gélido escorrendo pela face. Está arruinado e não há mais nada a fazer, salvo torcer para que aqueles breves momentos tenham sido apenas um pesadelo assombrosamente verossímil.
Mas a realidade é implacável, e mais difícil do que aquelas horas de agonia seria a volta para o lar. Ao chegar, arrasado e incrédulo, seus parentes encontravam-se ainda acordados e Nicolau é “envolvido pela atmosfera amorosa e poética que reinava na casa”. Impossível não se arrepiar. Lembremos que se passaram apenas três, talvez quatro horas, desde a saída do teatro. Horas que nada significaram para os Rostov, em que tudo continuava no mais perfeito equilíbrio. Mas Nicolau, o filho e irmão querido, aquele que de certa forma, ao voltar da guerra de licença, instaurara a alegria novamente na casa, estava arruinado, completamente abatido e desnorteado. Apenas quatro horas. Uma contingência. Breves instantes de desequilíbrio. A aceitação irrefletida para fazer algo que sempre se negara. A descida vertiginosa ao inferno pode durar apenas alguns minutos. Solitários e inconcebíveis minutos que comportam dentro de si a eternidade inteira.
“Nada mudou para eles”, pensa Nicolau, olhando para suas belas irmãs tocando cravo. Aí está toda a grandeza de Tolstoi. Em poucos parágrafos, apenas descrevendo as situações, sem aquelas profundas perscrutações mentais tão habilmente realizadas por Dostoievski, o escritor nos passa à flor da pele a gigantesca queda de um mundo inteiro. No contraste de expectativas, que nos é apresentado quase que apenas por gestos, curtas frases ou comportamentos, Tolstoi transmite a exata medida do que sentem aqueles personagens e do quão distantes se encontram. Não se limita a elencar os sentimentos, mas os insinua através do próprio encadeamento das frases. Cabe ao leitor, como num passe de mágica, pois não exige esforço algum, desvelar o segredo que se esconde por trás das palavras. Se literatura é colocar a vida inteira dentro de uma capa e de uma contracapa, como sugere um escritor contemporâneo, Tolstoi faz, nessas breves páginas, bem diante dos nossos olhos, o milagre que é traduzir em palavras o indizível.
quinta-feira, 31 de julho de 2008
segunda-feira, 19 de maio de 2008
Acabou!

É isso aí, acabou. O blog, apesar de não ter chegado nem a um ano de vida, durou bem mais do que eu imaginava. É só ler o primeiro post e conferir. Acontece que não tenho tido vontade de escrever, e não faz sentido escrever sem prazer. Outra questão importante é que eu definitivamente não gosto dos textos daqui. Antes de tomar a decisão de fechar as portas do Ritmo Dissoluto resolvi ler todo o arquivo, e cheguei à conclusão de que nada se salva, não me orgulho de ter escrito nenhum dos textos, vejo defeitos na maioria e sequer reconheço o andre que escreveu outros tantos.
É claro que gostar ou não pode ser importante agora, na decisão de manter ou não o blog, mas tenho absoluta convicção de que, alguns mais outros menos, os textos aqui publicados foram importantes para mim, e também não tenho dúvida de que, salvo raras exceções, só os publiquei porque achava que, na época, valia a pena. Fico feliz que certos textos tenham sido relevantes para alguns dos poucos leitores deste espaço, e acho que a idéia de fazer o Ritmo Dissoluto foi já foi bastante recompensadora e positiva por alguns e-mails e comentários que recebi.
Mas realmente não vejo sentido em continuar escrevendo. Não percebo nenhuma qualidade no que aqui foi publicado e, mais do que isso, não mais sinto necessidade de escrever. Não na internet, pelo menos. Pelo contrário, o que era um prazer tornou-se quase uma obrigação. Certeza absoluta tenho de que ninguém vai sentir falta das minhas opiniões, dos meus achismos, das minhas manias (afinal, não é disso que se trata?). Até porque boa parte dos leitores do Ritmo, salvo um ou outro incauto, é de amigos e pessoas próximas que podem, acompanhados de cerveja ou café, saber o que achei do último filme do Woody Allen, do último cereal matinal que comi ou do último livro que li. Mas nesse bar daqui eu já pedi a conta.
sábado, 10 de maio de 2008
Heráclito
A idéia do “devir heraclitiano”, plasmada na imagem de que nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio, pode ser perigosa. A compreensão de que as coisas estão em constante fluxo, que tudo passa, muda [e melhora] sem a necessidade de esforço e sacrifício, de vontade e dedicação, pode servir de incentivo ao conformismo. O rio pode até passar, mas a rochas ficam – durante séculos e séculos. Algumas têm de ser destruídas a força, justamente porque prejudicam o curso da água.
Excesso de otimismo pode também indicar uma certa dose de estupidez.
Excesso de otimismo pode também indicar uma certa dose de estupidez.
terça-feira, 6 de maio de 2008
Sadismo
Um dos termos mais usados pelas pessoas que querem se referir a um filme ou livro impactante é “um soco no estômago”. Acredite, eu detestaria levar um soco no estômago, não deve ser uma sensação lá das mais agradaveis. Então, porque eu pagaria para levar um? O filme ser comparado a um “soco no estômago” é um ótimo critério para não assisti-lo.
quarta-feira, 30 de abril de 2008
Tintin, o filme ou Das virtudes do nada
Nunca pensaria em Steven Spielberg para a direção do filme do Tintin, e muito menos em Peter Jackson tomando as rédeas da produção. Mas segundo o IMDb e alguns sites de cinema Internet afora, parece que a dupla será responsável por uma trilogia do repórter belga, sob a tutela da sempre competente Dreamworks (alguns sites dizem que Spielberg vai dirigir um dos filmes, Jackson outro e o terceiro ainda está em aberto). Ao que parece, porém, tanto o diretor americano quanto o neozelandês são fãs da revista, o que me alivia bastante.Há algumas dificuldades claras em fazer um filme sobre Tintin. A primeira delas é: qual a idade do personagem-título? Isto é bastante incerto, pois ao mesmo tempo em que Tintin é um repórter – que pouco exerce a profissão, diga-se – e vive sozinho, ou seja, um adulto, possui traços bastante infantis (na verdade ele nem traços direito possui, pois seu rosto é formado apenas por alguns pontos e um nariz mais protuberante). Daí resulta, talvez, o maior problema, mas não defeito, vejam bem: Tintin não é um personagem extremamente carismático, não possui nenhuma característica realmente distintiva – é muito inteligente e astuto, mas não brilhante; é forte, mas não um super-homem; não possui, tampouco, qualquer poder ou arma especial. Não seria exagero algum dizer, por exemplo, que o cachorro Milou é muito mais facilmente caracterizável do que o protagonista.
A palavra Tintin, em realidade, significa...“nada”. Como diz Benoît Peeters, no livro “Tintin e o mundo de Hergé”, é até possível falar que Tintin não tem caráter (um Macunaíma belga?), afinal não há qualquer componente nele que permita dizer que seja ou vá agir assim ou assado, o que, no fundo, multiplica, e muito, suas possibilidades. O exemplo dado pelo autor citado é bem interessante: em 1930, na aventura “Tintin no Congo”, o repórter é um genuíno colonialista, que ensina aos congoleses que a pátria deles é, na verdade, a Bélgica. Já em “Tintin e os Pícaros”, o último livro da série e talvez a mais complexa e diferente aventura, de 1976, Tintin dirige uma moto com um símbolo hippie e enfrenta o General Tapioca, uma espécie de caudilho tipicamente latino-americano, libertando, assim os Pícaros de um tirano – apesar de não haver qualquer revolução social na região, como bem ressalta Peeters (e por que deveria ter?).
Isso tudo trás outra questão importante para o filme: quais serão os livros utilizados? Sem dúvida há livros mais e menos característicos do (anti?-)herói. As aventuras na Lua, por exemplo, são bem sem-graça e os primeiros títulos (“Tintin no Congo” e “Tintin na América”) ainda muito incipientes. Aliás, qual será o privilégio da trilogia? A diversidade e refinamento das histórias permitem que se tenha desde um drama vertiginoso, como “Tintin no Tibet”; passando por um thriller de intriga e espionagem, com componentes sociais bastante atuais, como é o caso de “Carvão no porão” (que trata da permanência escravidão); até uma aventura de contornos claramente políticos, o citado “Tintin e os Pícaros”. Cabe aos produtores fazerem a melhor escolha, o que não será fácil, mas o fato de serem três filmes é um facilitador.
Enfim, será uma tarefa e tanto fazer um longa do personagem. Muito mais complicado do que levar às telas, por exemplo, “O Senhor dos Anéis”, filme baseado em um livro no qual os personagens, dos mais simples aos mais complexos, são muito bem delineados pela pena de J. R. R. Tolkien. No caso de Tintin, trata-se, possivelmente, do mais misterioso e enigmático personagem de toda a história dos quadrinhos. A conferir.
I felt like I could just fly
Ainda não temos um Nobel, mas concordo que esse ano devemos levar sem maiores dificuldades um Darwin Award.
The Shins, Australia
The Shins, Australia
domingo, 27 de abril de 2008
Namoro na TV
Uma coisa que eu nunca engoli nos sitcons americanos é o incrível rodízio de namoradas (ou namorados, claro) dos personagens principais. Mesmo aqueles que reclamam da sua incompetência com mulheres acabam namorando alguma moça todo episódio (e isso dá uma namorada por semana!). O George Costanza, por exemplo. Ele é gordinho, careca, baixo, fracassado. Mesmo assim já teve várias namoradas, conhece muitas mulheres interessantes e interessadas e até se casa ao longo da série. Como isso acontece? Qual a mágica? Alguém me ensina, por favor? Simplesmente não dá pra levar a sério (ok, ok, usar o argumento “isso é um programa de tv... e ainda de comédia!” é razoavelmente válido).Outro aspecto que sempre me chamou a atenção é a facilidade que os homens têm (y las chicas, porsupuesto) de acabar com esses relacionamentos. As moças são todas descartáveis, reparem só. Não há qualquer apego, qualquer complexidade. As parceiras são meros bibelôs, verdadeiras damas de companhia. São todas submissas e unidimensionais. E quando é uma mulher que está no controle, os homens são bobões e machos caricaturais.
Isso pode até ser uma necessidade de roteiro e enredo nesses seriados (apesar de não acreditar que seja realmente só isso). Mas, em última hipótese, esses tipos criados são plenamente capazes de moldar determinados padrões comportamentais. Ou não?
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